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Estado de Minas

Desejo e realidade


postado em 11/08/2019 04:00 / atualizado em 10/08/2019 22:47



“Há alguns anos, venho tentando engravidar, me submetendo a diversos tratamentos. Não consegui o sucesso plenamente, pois, por duas vezes, engravidei e perdi as crianças. Essa última tentativa foi mais frustrante, pois estava grávida de gêmeos. Não estou conseguindo superar essa perda e, por consequência, minha vida está de pernas pro ar.”

. Doralice, de Belo Horizonte



O homem é um ser desejante. O desejo ocupa lugar central em nossas vidas. Somos movidos pela vontade de crescer, de trabalhar, de ter coisas, de nos casar, de ter filhos e de uma porção de desejos que se constituem nos nossos objetivos a curto, médio e longo prazos. E se o desejo nos impulsiona e nos dá ânimo para lutar, é também a principal fonte de sofrimento. É a origem de nossos medos de perder, de não ter e de não reaver.

No começo de nossa vida e durante nossa infância os pais se esforçam no sentido de que nossos desejos sejam sempre satisfeitos, evitando, assim, as nossas frustrações. Somos protegidos e aprendemos a nos reger unicamente pelo princípio do prazer. Ansiamos por tudo o que nos agrada e fugimos de tudo que não é prazeroso. Pouco a pouco vamos confundindo qualquer dificuldade com sofrimento e, quando somos contrariados ou não atendidos, choramos e, por meio da dor, tentamos manipular o ambiente para que ele atenda às nossas necessidades.

É por isso que, nesse período, normalmente se instala a sensação e a crença delirantes de que somos o centro do Universo, de que o mundo, a vida e Deus devam estar a nosso serviço e de que tudo deve acontecer à nossa imagem e semelhança. Essa posição onipotente e egocêntrica costuma nos acompanhar a vida toda e quando o mundo acontece diferente de nosso desejo, do nosso planejamento, respondemos a isso com intensa dor, traduzida numa sensação de injustiçamento e de mágoa. Resolver o desejo é fundamental para se resolver o sofrimento humano. Essa é a razão de o desejo ter sempre ocupado um lugar de destaque nas reflexões filosóficas e religiosas.

Alguns caminhos foram trilhados na tentativa de se resolver a dor decorrente dos desejos. Um deles, preconizado por inúmeras religiões, principalmente as orientais, sugere a total supressão do desejo: “Não deseje para não sofrer”. Isso não deu certo. Criou-se tanta repressão aos desejos que esses aparecem na estruturação neurótica e marginal de nossa sociedade. É impossível não desejar. Toda tentativa nesse sentido vai gerar grandes distúrbios na pessoa, aumentando seus sofrimentos em vez de aliviá-los.

Outro caminho, preconizado pela cultura ocidental, voltada absurdamente para o prazer imediato é satisfazer ao máximo todos os desejos: “Lute de todas as formas para realizar seus objetivos, não deixando nenhuma falta se instalar em sua vida. Esse caminho também não deu certo. A cada desejo satisfeito, mil outros aparecem, além de que é humanamente impossível atendermos a tudo o que queremos por pressão social. A consequência desse caminho é a insatisfação crônica diante da vida, que acaba nos cevando a um processo de depressão, que nuclearmente é a tristeza pelo mundo não ser como gostaríamos que fosse.

A minha proposta para a questão do desejo é a seguinte, ainda que o desejo se traduza “nobremente” em ter um filho, como é o caso da Ana Cristina.

Deseje tudo o que você quiser, deseje muito e sempre qualquer coisa: dinheiro, fama, posses, amor, filhos, casamento, sucesso, mas não leve muito a sério o seu desejo.

Se conseguir, bem. Se não conseguir, amém.

Não podemos nos torturar, centrando toda a nossa vida e energia num objetivo principal, transformando-o numa questão de vida ou morte. O maior desejo da vida é sermos felizes.

Todos os outros desejos deverão se submeter a esse. Não devemos inverter o processo e pensar que só seremos felizes se tivermos filhos, se nos casarmos, se nossa vontade for satisfeita em tudo que desejarmos.

Epicteto, filósofo grego, do ano 55 depois de Cristo, nos deixou grandes lições de como viver bem e felizes. Ele dizia que a felicidade e a liberdade começam com a clara compreensão de um princípio:

Algumas coisas estão sob nosso controle e outras não.

Devemos manter nossa atenção concentrada somente no que podemos controlar.

O desejo está no nosso controle, a consecução dele, nem sempre. Qualquer objetivo na nossa vida pode ser um incentivo para o crescimento ou uma tortura. O compromisso excessivo com o sucesso, com o resultado, se é lei para as organizações empresariais, é muito estressante para nós, enquanto indivíduos, falíveis mortais.

Transformar a vida em um desafio constante, lutar desesperadamente com a realidade, ter de vencê-la a qualquer custo, tem muito mais a ver com nossa necessidade narcísica de nos sentirmos capazes, vencedores valorosos, do que propriamente com o objetivo a alcançar.

Será por isso que, muitas vezes, quando conseguimos algo, depois de muita luta, a coisa perde a graça? Não levar muito a sério os próprios desejos é o mesmo que aprender a perder. Algumas pessoas são boas nisso.

Quando o velejador Lars Grael, de 36 anos, medalhista brasileiro em duas Olimpíadas, teve sua perna direita decepada, todos imaginaram o fim de sua carreira. Sete meses depois, voltou às regatas, usando uma prótese.

Não levar a sério o desejo não é abandoná-lo, desistir, parar de lutar. É não fazer a felicidade depender da satisfação do desejo. É continuar com a esperança ativa no viver, mas aumentando o próprio limiar de frustrações. É saber que o maior projeto humano é a vida, nas suas múltiplas possibilidades. A vida não se esgota na nossa tola vaidade de querer que as coisas aconteçam à nossa maneira. Ao contrário, a vida se expande na medida de nossa humildade em nos adaptarmos à sua multiplicidade, às suas formas e à sua infinitude.
Deus escreve sempre certo, embora nós, míopes, não consigamos ler. 

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