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Estado de Minas ANTÔNIO ROBERTO

Sofrimento

"Viver é aprender a atravessar os vales e as montanhas, o bom e o ruim, o amor e os desprezos, a amizade e as traições"


postado em 01/07/2019 19:31 / atualizado em 01/07/2019 19:41

(foto: Quinho)
(foto: Quinho)
"Estou profundamente deprimida por um fato muito grave que ocorreu em minha família. Tenho tido vontade de morrer. Por que a vida humana tem de ser tão penosa?" - Marilene, de Belo Horizonte

Não são as circunstâncias que nos tornam infelizes, mas a maneira de lidar com elas. Desejar passar pela existência completamente imune à dor, ao envelhecimento, à doença, à morte, às traições e às injustiças é querer ser Deus. Talvez seja esse o nosso maior pecado: não aceitar a nossa humanidade, limitada, imperfeita, cheia de altos e baixos.

A vida nos oferece, por outro lado, momentos e situações muito prazerosos e felizes. A começar pela própria vida, nos seus ingredientes básicos: respiração, movimentos, capacidade de enxergar as cores, ouvir os sons, tatear os objetos, sentir os cheiros e usufruir dos sabores e nos seus ingredientes afetivos: amigos, sexo, companheirismo, admiração, trabalho, religiosidade etc. As dores são inevitáveis, mas osprazeres também. Adepressão é fruto de um modo de pensar dicotômico e mecanicista, que poderia ser assim formulado: Ou minha vida é 100% em todos os aspectos ou é uma merda. Desqualificar tudo de bom que nos rodeia por causa de um fato grave que nos ocorreu é cegar-se para o fenômeno mais corriqueiro da vida de qualquer um de nós: viver é aprender a atravessar os vales e as montanhas, o bom e o ruim, o amor e os desprezos, a amizade e as traições. Existe, por acaso, alguma luz sem sombra? Vida sem morte? Ganho sem perdas?

Nada no mundo é maior que a vida, que o desejo de reconstruir, de dar a volta por cima. Nas mesmas circunstâncias em que alguns sucumbem, outros aprendem e seguem em frente. Idealizar uma existência sem nenhum tropeço, querer ter o controle de tudo é não reconhecer os próprios limites. É delírio de onipotência, é falta de humildade.

Quando a leitora diz sentir vontade de morrer, em vista de um fato grave ocorrido, há um equívoco no seu modo de ver a vida. Por que ela não se pergunta como lidar com esse fato, já consumado, e sair dele engrandecida, mesmo machucada, e elaborar sua cicatrização? Provavelmente, há perdas envolvidas e ela não quer perder nada.

É impossível mudar nossa vida diante das circunstâncias sem perdermos alguma coisa. São perdas, porém, que nos levam a algum ganho a médio ou a longo prazos. Estar na vida sem saber perder é a mesma coisa que estar na vida sem querer ganhar. O sofrimento diante da determinação dos fatos é muito natural: o choro, a tristeza, o luto fazem parte. O desespero é que é o problema. É a falta de paciência, de saber que após qualquer crucificação vem sempre a ressurreição.

Talvez, a vontade da leitora seja morrer para a vida que ela tem levado, morrer para seu perfeccionismo, morrer para o seu modo de encarar o sofrimento humano. Em outras palavras, sua vontade é mudar.

Certa vez, um mestre, diante de um jovem muito deprimido, pediu-lhe que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d’água e bebesse. Após o jovem atender ao seu pedido, o mestre perguntou:

- Qual é o gosto?

- Péssimo, respondeu o aprendiz.

Sorrindo, o mestre pediu-lhe que pegasse outra mão cheia de sal e caminharam até um lago. Lá chegando, pediu-lhe que jogasse o sal no lago.

- Beba agora um pouco da água do lago, disse o velho.

Enquanto a água escorria do queixo do jovem, o mestre perguntou:

- Qual é o gosto?

- Bom, respondeu o rapaz, nem sinto o gosto do sal.

- A dor na nossa vida, disse o mestre, é inevitável. Mas o sabor da dor depende de onde o colocamos. Ao sofrer, devemos aumentar ao máximo a percepção das coisas boas que temos na vida.

Deixemos de ser um copo. Tornemo-nos um lago.


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