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Estado de Minas ANTôNIO ROBERTO

Medo do amanhã

"Quando abandonamos a base sólida do momento atual e nos aventuramos em divagações sobre as possibilidades futuras, enlouquecemos"


postado em 06/05/2019 15:15 / atualizado em 06/05/2019 15:33

(foto: Reprodução/Internet/mundobuda.com)
(foto: Reprodução/Internet/mundobuda.com)

"Antônio Roberto, tenho muito medo do futuro. Como estarão nossos filhos amanhã? O desconhecido para mim é uma noite escura. Fico imaginando muitas coisas ruins. Como lidar com esse medo?" -
Olinto, de Belo Horizonte

Inúmeras são as pessoas que sofrem o amanhã. A capacidade humana de pensar, mal usada, pode se tornar uma fonte de intensa dor. Quando onipotentemente tentamos controlar o amanhã, querendo adivinhar catástrofes pessoais e nos prevenindo delas, conseguimos duas coisas: perder a vivência do momento presente e nos paralisar de medo.

Um certo grau de previsão do futuro, um planejamento, a fixação de objetivos para nossa vida é bastante salutar. É o que chamamos de prudência. Quando a prudência é excessiva, ela se transforma em temor. A realidade é sempre agora. Ao futuro cabem apenas possibilidades. Lidamos mal com o real e o possível. Quando abandonamos a base sólida do momento atual e nos aventuramos em divagações sobre as possibilidades futuras, enlouquecemos.

Existem o real, as probabilidades e as possibilidades. O real é o que está à nossa frente, agora. Ele é a matéria-prima de nossas construções. É aquilo que está sob nosso controle e sobre o qual podemos fazer algo imediatamente. As probabilidades são as tendências previsíveis do que está ocorrendo. Elas nos incitam a fazer mudanças, a inverter rumos, à antecipação. Baseados na experiência podemos prever algumas coisas e atuar sobre elas. A probabilidade de sermos atropelados ao atravessar uma rua movimentada, de olhos fechados, é grande.

As possibilidades são tudo o que pode ocorrer. As possibilidades são infinitas. Se tentarmos controlá-las, pagaremos caro pelo nosso delírio: muita ansiedade, preocupações, estresse e perda da paz.

O filósofo grego Epíteto ensinava a fórmula de bem viver. Dizia ele que há coisas sobre as quais temos controle e outras que estão fora do nosso controle. E acrescentava que, para ser felizes, devemos cuidar das primeiras e largar mão das outras. As possibilidades do futuro estão absolutamente fora de nossa gestão. A melhor forma de acomodação é a pré-ocupação. Enquanto o leitor acima se corrói em perguntas inúteis, tipo: “Como estarão nossos filhos amanhã?”, ele não se dá ao trabalho de ver como seus filhos estão agora. Parece que as pessoas só nos servem amanhã.

 

Sempre que posso tenho insistido na frase: “A vida é para ser vivida e não para ser conservada”. Achar que a preocupação com os filhos é sinal de amor, é uma grave distorção. Sinal de amor é eu me ocupar deles atualmente. É dialogar, passear com eles, me interessar pelas suas relações, seus problemas, suas dificuldades, seus amores, hoje!!!

Falamos do futuro como se ele existisse. Como algo pronto que existirá inevitavelmente. O futuro é uma tela em branco, em que, no momento adequado, cada um pintará sua paisagem. O desconhecido não existe. Por que temê-lo? Temos medo dele por causa de nossas fantasias, fruto de nosso pessimismo e da falta de esperança. O destino não existe. Nada está predeterminado. O futuro não tem qualquer valia a não ser quando se torna presente. Nessa hora, lidaremos com ele como estamos fazendo com nossas questões atuais.

O futuro não é uma noite escura. É aurora. É amanhecer. É convite para o novo, para o desabrochamento, para novas oportunidades, novas descobertas. Lá haverá coisas boas e coisas ruins, como já ocorre nas nossas vidas. Viver com inteireza e intensamente nossas atuais situações é a única maneira de nos prepararmos para o depois. A produção sistemática do medo por aqueles que quiseram ou querem nos controlar prestou um grande desserviço aos nossos corações: ensinou-nos a ver o amanhã sempre de maneira catastrófica.

Trazemos em nós o potencial humano, esse milagre misterioso de estarmos vivos e vivendo. Devemos relaxar diante do que sabemos ainda. O desconhecido da semente é o fruto que um dia virá.

 

O futuro da roseira é a rosa.

O nosso futuro é nossa chance de continuar amando, brincando, sorvendo o licor da vida neste cálice que somos nós.

Um brinde a todos os amanhãs!


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