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De factoides a lacração, a agenda política nacional é pura diversão

Temas como o juiz de garantias, assassinato do general iraniano a mando de Donald Trump e Moro mais popular que Bolsonaro movimentam a agenda política nacional


postado em 12/01/2020 04:00 / atualizado em 12/01/2020 13:41

(foto: Reprodução da internet/Facebook)
(foto: Reprodução da internet/Facebook)


De distrações a agenda política nacional é farta – do tal juiz de garantias, que preencheu o noticiário esvaziado na virada do ano, ao assassinato do general iraniano a mando de Donald Trump. Tudo isso tem lá alguma importância, mas menos pelas razões aparentes.

O juiz de garantias é parte do conflito aberto entre a hierarquia superior do Judiciário e os procuradores da força-tarefa da Lava-Jato, sobretudo a de Curitiba, ainda sob a influência do ministro Sergio Moro. Suas intenções são vistas com reservas no Congresso e pelo presidente Jair Bolsonaro. Esse é um conflito cada vez menos enrustido, que deve se estender até a véspera das eleições de 2022.

Já o conflito dos EUA com o Irã está mais para um minueto com dois rivais não tão ocultos, Rússia e China, que para a vontade de Trump de repetir as desastrosas aventuras de George W. Bush no Iraque e de Barak Obama no Afeganistão. O ruído dessa guerra sem fim ecoou aqui em boa parte pela falta de clareza da política externa de Bolsonaro.

De Moro, mais popular que ele próprio junto à classe média que se afastou do PT, Bolsonaro não tem como abrir mão, nem cutucar muito abertamente, dado o explosivo processo que corre no Rio contra seu filho Flávio. Ao mesmo tempo, depende de ministros do STF para que as investigações não se acelerem, e o seu aparato nas redes sociais para difamar a cúpula da Câmara e do Senado já não tem tanta eficácia.

Em vez de enfraquecer o Congresso, a campanha contra o que seria a “velha política”, bordão dos bolsonaristas indiferentes aos 28 anos de Bolsonaro no Legislativo e aos três filhos que elegeu, não apenas unificou os partidos de centro-direita sob a liderança do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, como os levou a retomar o comando da agenda parlamentar, usurpada nos governos passados.

Se não tivesse resultados para mostrar, com boa vontade até daria para entender seu papel de animador de Twitter, explorando o que se chamava de factoide, o antepassado da lacração. Mas não. A economia está engatando a segunda marcha, depois de dois anos de recessão e três de estagnação. Delegou tal papel ao ministro Paulo Guedes, que encanta os salões festivos do mercado financeiro, mas está longe de ser unanimidade até no empresariado. E segue o baile do atraso.

Duas tendências em curso


Ajuda a compreensão sobre o que se passa na economia considerar que há duas tendências em curso. A primeira é a da retomada cíclica que, em geral, se segue às fases de retração do crescimento. Essa é a que estamos assistindo com enorme atraso, e parece que deverá engrenar.

A segunda não se confunde com a tendência atual. Ela decorre do que sempre faltou na essência de nosso desenvolvimento – a liderança dos empreendedores privados dispostos a ir além do trivial e fazer mais.

O franco-americano Michael Pettis, há anos professor na Universidade de Pequim e que conheceu o Brasil como diretor do antigo banco Bear Stearns, conta que nos EUA foram indivíduos em busca de oportunidades lucrativas na marcha para o Oeste que puxaram governo e investimento.

“No Brasil, havia pouco incentivo para particulares liderarem o processo”, diz. “Foi o governo que liderou, e as empresas privadas foram atrás porque o gasto público criou as oportunidades de lucro. Quando tais gastos pararam, os negócios também pararam”.

Esse tipo de dirigismo é o que Lula e Dilma fizeram depois da grande crise de 2008, levando à debacle das finanças estatais e particulares e à corrupção sistêmica nas relações entre o público e o privado.

A trava para ser rompida


O desenvolvimentismo falha recorrentemente no Brasil não bem por ser intrinsecamente errado, mas por ignorar dois traços históricos: 1º, a captura do Estado pelas burocracias encarregadas de geri-lo, aliadas a setores econômicos retrógrados, deixando como sequela a pobreza da maior parte da sociedade e o atraso intelectual; 2º, a perpetuação do sistema de proteção e apoio aos novos negócios, como o automotivo, protegido desde a sua entrada no Brasil, no fim dos anos 1950.

Apoiamos indústrias, inclusive estrangeiras, voltadas para o consumo doméstico, incapazes, portanto, de competir no exterior. Governantes do passado também se limitaram ao crédito subsidiado, ignorando a experiência dos EUA, emulada, segundo Pettis, “pela Alemanha na década de 1930, o Brasil durante o chamado milagre, a Coreia do Sul após a guerra civil, o Japão antes de 1990 e a China hoje – para citar apenas os casos mais importantes e óbvios”.

É essa trava que precisamos romper para reaver o desenvolvimento de verdade, que só se viabiliza com investimento, competição, inovação e foco total na incorporação dos pobres à cidadania e ao consumo.

Razões do fracasso do país


Se der atenção a tais eventos, e não precisa ir longe, basta estudar os textos da época em que a Escola Superior de Guerra pensava o país, Bolsonaro terá conteúdo melhor para “lacrar” no Twitter e nas “lives” semanais. E Paulo Guedes toparia? Ele talvez tenha que se reciclar, e poderia começar por Chicago, escola onde se graduou e admira.

Num podcast do inglês James Robinson, coautor de Por que as nações fracassam, gravado na Universidade de Chicago meses atrás, ouvirá que o Brasil é um país literalmente “preso” na armadilha da renda média há décadas, com PIB per capita de US$ 8.350 em 1975 e atualmente de apenas US$ 11 mil (em dólar de 2010). Fato é que ou sacudimos o país de alto a baixo ou esqueçamos o futuro. Que é passado para muitos no mundo.

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