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Governo avalia mal e leilão do pré-sal marca passo

Equipe econômica deveria ter considerado várias questões do setor antes de se precipitar e prometer dinheiro grosso a estados e municípios, além de impor condições ao leilão que não mais se sustentam


postado em 10/11/2019 04:00 / atualizado em 09/11/2019 19:59

O mundo já ingressou no chamado peak oil - não por escassez de reservas, mas pela gradativa redução da demanda(foto: Steferson Faria/Petrobras/Divulgação )
O mundo já ingressou no chamado peak oil - não por escassez de reservas, mas pela gradativa redução da demanda (foto: Steferson Faria/Petrobras/Divulgação )
O fiasco relativo do megaleilão do pré-sal merece avaliação fria. O bolo das grandes petroleiras mundiais inscritas para disputar os campos leiloados deve ser tomado como alerta para que se revejam os equívocos das macropolíticas em curso. Isso é o que importa.

É de somenos a lavagem de pano do governo para salvar a face (já que esperava faturar R$ 106,5 bi e recebeu R$ 69,9 bi) e os ataques da oposição (para a qual o grande capital fugiu de Bolsonaro).

A verdade é que o mundo já ingressou no chamado peak oil – não por escassez de reservas como se temia a partir dos anos 1950, mas pela gradativa redução da demanda. Hoje, produz-se mais com menos óleo.

Demanda por petróleo atingirá o ápice ao redor de 2035, prevê a McKinsey. Energia limpa é o futuro

Depois, veio o avanço das energias eólica e solar, cujo custo em partes dos EUA, na Europa e na China, graças à escala alcançada, é menor que outros insumos (carvão, gás, óleo, nuclear). E, enfim, os veículos com motor elétrico vêm chegando para ficar.

Pesquisas da área de energia da consultoria McKinsey em 150 países indicam que a demanda por petróleo deverá parar de crescer ao redor de 2035, e por gás, uma a duas décadas depois. O que cresce são as energias renováveis. Elas já geram 25% da energia total consumida no mundo e tendem a dobrar essa fatia até 2050.

Adicionem-se as determinações climáticas e antipoluição. China impôs que nenhum veículo com motor a combustão poderá ser vendido a partir de 2030. Tais regras existem na Dinamarca, Suécia, Irlanda e França. Todas as grandes montadoras já assimilaram essa tendência.

Mais: há sinais de que a produção de carros no mundo bateu no pico e deve estagnar devido a um viés comportamental – a troca da compra final pelo uso on demand (aluguel temporário) e just in time (com hora marcada), sem falar nos Ubers, táxis, patinete elétrico etc.

O petróleo continuará necessário, dizem os cenaristas da McKinsey do escritório da Holanda, que atende às grandes petroleiras estatais e privadas. Mas para a área química, nem isso estaria garantido. Na divisão por setor, transportes correspondem à metade da demanda no mundo. Depois vem a geração de calor, servida por gás e carvão, e futuramente por superbaterias de fonte renovável. Não se descarta a célula de hidrogênio depois de 2030. A ruptura é irreversível.

Razões para o fracasso

Tais questões deveriam ter sido consideradas pelo governo antes de se precipitar e prometer dinheiro grosso a estados e municípios, além de impor condições ao leilão que não mais se sustentam.

Havia 12 petroleiras inscritas, além da Petrobras. Semana passada, Total e BP desistiram. Das demais, só as estatais chinesas CNODC e CNOOC ficaram, cada qual com modestos 5%. Associadas à Petrobras, arremataram sem ágio o campo de Búzios, maior apregoado. A Petrobras também arrematou dois pequenos campos. O resto encalhou.

Aventam-se várias razões para o fracasso: o sistema de partilha, o alto valor do bônus de assinatura, ressarcimento da Petrobras, incertezas regulatórias etc. Tudo isso deve ser considerado. Mas as razões estruturais ditas acima é que foram determinantes.

As rupturas são seriadas

O que esperar de um mercado em que a gigante Statoil, da Noruega, mudou o nome para Equinor para marcar sua transição de petroleira para empresa de energia e tecnologia? Ou de grandes fundos vetarem aportes em empresas poluentes, sobretudo de carvão e petróleo?

A Aramco, a enorme petroleira da Arábia Saudita, onde o petróleo brota quase que na superfície por algo como US$ 1 o barril, está abrindo capital para, tal como a Equinor, diversificar os negócios.

Essa é uma das muitas transformações disruptivas no mundo que não são especulações, são fatos em marcha. Tanto quanto dificilmente a economia global terá pela frente taxas de crescimento robustas.

Assim vem sendo devido ao aumento da expectativa de vida e à queda do ritmo populacional, especialmente em países com consumidores de renda média, público-alvo da indústria de bens de consumo duráveis que marcou o pós-guerra. E também de emergentes da Ásia, China à frente (devido à política do filho único, já revogada, mas com reversão, se houver, esperada para daqui a uma ou duas gerações).

Anacronismo e alienação

O que discutimos ou sabemos dessas mudanças radicais para inseri-las na formulação das políticas públicas e nos planos privados?

Não discutimos e sabemos pouco. Mas somos craques, desde a reforma monetária de 1994, em contabilidade e tesouraria pública – assuntos relevantes para o ordenamento econômico, mas que nada têm a ver com desenvolvimento nem com garantia de bem-estar da população no curto e longo prazo. Tesouro nos trinques é bom, mas não assegura a volta do investimento nem do crescimento por geração espontânea.

Enquanto se discutem, obsessivamente, questões orçamentárias, diz André Lara Resende, principal formulador do real, a realidade segue em frente e ficamos para trás. “Continuamos no século passado, com o século 21 a todo vapor. A ‘surpresa’ do leilão é sintomática do quão anacrônico e alienado é o debate de políticas públicas”, diz.

E vem de longe, acrescento. Desde 1994 não se fala de outra coisa, déficit, juros, inflação, e depois de 2005 de corrupção dos grupos econômicos retrógrados e dos políticos. Agora, somos experts em STF, respiramos o ar tóxico da ‘guerra cultural’, nos expomos a tolices no Twitter, e vida que segue. Para onde? Boa pergunta.

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