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Estado de Minas

O que não enxergamos


postado em 04/08/2019 04:00


Com um presidente confessadamente mal instruído eleito para governar um Estado que vem se tornando ingovernável desde 2006, devido à perda de autoridade do governo central para as corporações mais atuantes de funcionários, muitos temem pelos desdobramentos diante de tantos fios desencapados da política e da intemperança de Jair Bolsonaro.
 
À primeira vista não há estratégia alguma a mover o núcleo influente do governo, o que é preocupante dada a fragilidade da economia. Mas é ou seria isso mesmo? Não parece. É certo que Bolsonaro se elegeu mais como o único candidato que sobrara na corrida presidencial com chance de vencer o PT do que por causa de um programa inspirador de governo, que nunca expôs. Não falou em reformar a Previdência, por exemplo.
 
Eleito como um lobo solitário da política, ele tomou posse com o que conseguiu atrair, levados pela suposição de que poderiam influenciar um presidente boca-dura, sem programa e sem projeto.
Se não fazia ideia sobre como tirar a economia da estagnação, Paulo Guedes, antigo desafeto intelectual de todos os economistas que algum dia passaram pelo governo, dizia saber o que fazer – e fez sentido ao candidato. A sua receita liberal previa superar a ruína das finanças fiscais com a retomada do controle do Estado (provavelmente entendido por Bolsonaro e os seus filhos como “despetização” do governo).
 
Com Sérgio Moro, juiz símbolo da Lava-Jato, no Ministério da Justiça e a chefia do aparelho policial do Estado, os setores mais militantes do Ministério Público Federal viram a chance de promover uma “limpa” do sistema político e do Judiciário entendidos como corruptos. Talvez os generais de pijama recrutados por Bolsonaro tivessem a mesma ideia de vir a monitorar o tenente de Exército reformado como capitão.
 
Nenhum desses devaneios se concretizou, como se sabe, começando pela sem-cerimônia dos filhos de Bolsonaro ao aliciar a militância digital mais radical para cortar as asas do vice-presidente Hamilton Mourão e afastar generais descontentes, movendo ataques contra a reputação dos desafetos nas redes sociais. E o presidente? Trata de afagar a tropa, comparecendo todos os fins de semana a comemorações nos quartéis.


Não há nada de rompante

Difícil supor que tais movimentos sejam rompantes de cabeça quente. Tome-se a campanha contra o que Bolsonaro chamou de “velha política”, embora ele próprio acumule 32 anos de atividade parlamentar, 28 dos quais como deputado federal. Ele não chamou os partidos para compor uma “base aliada” na Câmara e no Senado. Preferiu provocá-los. Encontrou pela frente a liderança habilidosa e indiferente à carga dos radicais nas redes sociais na pessoa do ex-colega Rodrigo Maia, presidente da Câmara, e se recolheu. Maia dirigiu as negociações que levarão à bem-sucedida reforma da Previdência e se habilitou a tocar a agenda reformista do Estado e da economia que Paulo Guedes imaginou ter a delegação de Bolsonaro para conduzir como quisesse.


Como as pontas se amarram

As pontas estão se amarrando, dando nexo ao que Bolsonaro diz ser: o presidente de um “governo de direita”. Não a direita moderada como a dos partidos pelo qual transitou, tipo PP e PL (ex-PR). Ela se alinha à corrente intitulada “conservadorismo nacionalista”, que se organiza nos EUA para apoiar a campanha à reeleição de Donald Trump em 2020.
 
Tais movimentos pedem uma ordem política desajustada pela Lava-Jato, com o estranhamento entre procuradores da força-tarefa em Curitiba, políticos e ministros do STF. Há eventos por aclarar, como a suposta avalanche hacker contra figurões da República. Fato é que as supostas mensagens entre procuradores hackeados deram a oportunidade ao STF de avocar a questão e restabelecer os limites constitucionais do MPF.
 
Embora não seja parte da trama, Bolsonaro se beneficia do Ministério da Justiça mais voltado ao combate ao crime organizado, que é uma das promessas de campanha genuinamente demandadas pela sociedade.


Contrapeso do Congresso

O que resultará do minueto entre os poderes e do revisionismo tipo se colar, colou de Bolsonaro sobre temas mais ou menos pacificados, como as políticas de meio ambiente, liberação da Amazônia ao garimpo e as reformas da economia, sobretudo a tributária, a do funcionalismo público e a das regulações que asfixiam o empreendedorismo?
 
As questões sensíveis dependem mais da boa vontade do Congresso e do STF do que de sua caneta e da mobilização da militância virtual. Já a volta do crescimento da economia e do emprego se condiciona ao que o setor privado entregar sem crédito subsidiado dos bancos estatais e novas desonerações tributárias. Isso ainda está por ser construído.
 
Como a área econômica do governo dialoga mal com o empresariado, já que o vê mais pela ótica dos financistas, é outra oportunidade aberta ao Congresso como avalista das transformações. Ironicamente, é o que Bolsonaro hostiliza que poderá dar ao governo sua maior realização – a política sem adjetivação de velha ou nova. Se a economia engrenar, os contrapesos da sociedade serão um anteparo à radicalização.

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