Jornal Estado de Minas

ANNA MARINA

Meu livro de cabeceira foi escrito pela menina Alice, no século 19

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De tanto assistir na TV à repetição ad aeternum das mesmas coisas, resolvi apelar para os filmes tradicionais que parecem feitos só para crianças, como “Harry Potter”, e para as séries, algumas muito boas, que contam histórias de nobres de antigamente. 





A dificuldade é que algumas séries geralmente param no oitavo episódio e estamos conversados. Não continuam nem a pau.

Outro lance importante para ficar agradavelmente em casa é a leitura. Fiz uma temporada de livros com histórias sobre campo de concentração – não consigo entender como é que a ruindade ataca pessoas que não carregam com elas culpa ou piedade. Alguns me comovem e me prendem totalmente, outros são um arremedo do terror, só para vender.

Recentemente, revirando as estantes em busca de um livro sobre o Papa Francisco que comprei numa mercearia, no qual ele conta como ia para a cozinha preparar macarronada argentina para seus companheiros de moradia – e todos amavam –, encontrei o meu atual livro de cabeceira.





Trata-se de “Minha vida de menina”, de Helena Morley, que na vida real é Alice Dayrell Caldeira Brant. Ela se consagrou não só na literatura nacional, como na internacional. A autora foi saudada com os maiores elogios por Carlos Drummond de Andrade e Alexandre Eulálio (“O livro que já nasceu clássico”).

Trata-se do diário escrito por uma menina que morava em Diamantina e, na simplicidade de seus relatos, registra uma época importante do país, quando a busca pelo ouro e pelos diamantes era uma constante para variadas famílias, brasileiras e estrangeiras.

Diariamente, ela relatava em seus cadernos o que acontecia com a família, os parentes e amigos, os conhecidos da cidade. Conta como sua família – mãe, quatro filhos e mais o pai inglês, sempre em busca das pedras – era a mais pobre de todos os parentes. Porém, a pobreza não trazia infelicidade, nem revolta, nem amargor.





No dizer de Drummond, “é a leitura ou releitura das impressões infantis de uma garota mineira de 1893, em Diamantina, que nos dá uma satisfação profunda, ao sentirmos a permanência de alguma coisa que não se deixou vencer pela robotização nem pela selvageria a que o extremo requinte da civilização vem conduzindo o homem. Se ainda somos capazes de nos deliciar com o diário de Helena, as coisas não estão assim tão feias. Ela nos redescobre a infância, faz rir e comove, observadora sagaz e moleque de um panorama familial que se alarga até abranger a vida em movimento da cidade e da região, com seus veios de diamantes quase esgotados, seus tipos populares, suas fazendas, festas religiosas e profanas, suas comidas, seu jeito inconfundível de ser e sua humanidade.”

O livro foi montado com os escritos infantis de Alice, recolhidos pela família quando ela completou 60 anos, casada, rica e feliz. 

Comprei o meu exemplar na tradicional Livraria Amadeu, que vendia livros novos e usados. E ele já estava na 15ª edição, em 1976. O texto cobre os anos de 1893 a 1895, todas as páginas são uma deliciosa história de vida.

Gosto de lê-lo aleatoriamente, sem seguir as datas, porque cada dia desse diário é um achado de vida pura, digna de ser conhecida. Recomendo para quem gosta de ler textos que agradecem e enriquecem a vida, sem pieguismo ou falsidade.