Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. ASSINE AGORA >>

Publicidade

Estado de Minas

(Doces) lembranças de uma mãe que fazia tudo dentro de casa

Implico muito nos dias atuais porque grande parte das mulheres sequer sabe trocar uma lâmpada queimada


04/05/2021 04:00

Nunca vi minha mãe ensinando uma filha como é que se faz isso ou aquilo. Ela fazia tudo dentro de casa e, com o correr do tempo, passou a escrever e a pintar quadros e mais quadros, de mulatas principalmente. Esse tipo de comportamento materno era comum antigamente – como a mãe fazia tudo dentro de casa, as filhas tinham mais é que aprender. E como ela teve sete filhas, é difícil dizer que o exemplo não é tudo. Implico muito nos dias atuais porque grande parte das mulheres não sabe fazer nada dentro de casa, sequer trocar uma lâmpada queimada. Por medo talvez de levar um choque.

Entre as relíquias familiares que guardo em casa, está uma máquina de costura Singer, daquelas de funcionar com o pé, onde ela costurava muito, fazia lindas roupas para as filhas. E onde eu aprendi a costurar também, fazia um vestido inteiro da manhã para a noite, vejam só. Quando eu tive butique, ficava impressionada com clientes que apareciam com os pedidos mais simplórios, como subir uma bainha, mudar um fecho-éclair, fazer uma casa. Não sabiam fazer nada, até segurar uma agulha era difícil.

Outro lance que ela dominava e no que foi seguida era a cozinha. Fazia pratos corriqueiros, porque passou muito tempo sem empregada, e até complicados para ocasiões especiais. Não tinha muito sucesso com pães e quitandas mais complicadas, não herdou de minha avó esse dom. Mas em matéria de doces mais sofisticados era craque. Nos tempos em que ter uma geladeira em casa era uma novidade, ela comandava especialidades pouco comuns, como os doces gelados e alguns mais complicados, como o pavê de chocolate, comum na culinária francesa, mas pouco habitual por aqui.

Herdei dela essa tendência e já fui craque na cozinha, fazia tudo com rapidez e sabor, os almoços de fim de semana em minha casa eram um sucesso. Trazia comigo muitas receitas que pedia a chefs de restaurantes do exterior e mandava brasa. Quando não tinha todos os ingredientes, conseguia repor sabores com os produtos locais. Tinha paladar para tanto.

Hoje estou mais ou menos um fracasso nas panelas, e minha irmã que já teve bufê e até restaurante é minha provadora oficial. Às vezes, gosta; às vezes, prefere deixar pra lá. Principalmente quando resolvo recriar uma receita tradicional. Por causa disso, tenho dado preferência a preparações mais simples. Mas a minha memória gastronômica parece que foi pro brejo, nem consigo mais me lembrar de pratos que fazia sem precisar nem de provar. Mesmo assim, insisto e não gosto de comidas industrializadas, principalmente as congeladas, que muitos acham ser a salvação dos tempos atuais. Engraçado chegar na casa de alguém para almoçar ou jantar, atendendo a um convite, e perceber que praticamente nada foi cozinhado ali. Chegou da marca mais próxima de congelados.

O negócio anda tão difícil nos últimos tempos, com a falta de mão de obra doméstica, que não são poucos os que produzem um cardápio próprio para a semana inteira, dividida em porções e congelam para não ter que cozinhar durante a semana. Mesmo com essa onda de home office, tem muita gente que ainda sai de casa para trabalhar em escritório, consultório e onde mais for necessário. Vez por outra, consigo ver um ou outro programa de televisão, desses que ensinam a cozinhar e, para falar a verdade, nunca consegui reproduzir uma receita ensinada.

Na semana passada, vi o pedaço de um que ensinava como fazer camarão com chuchu. A cozinheira colocava camarão por camarão na panela para pegar uma cor, como se fosse uma preciosidade. Qualquer dona de casa com conhecimento de cozinha viu logo que era uma tolice, bastava colocar os camarões de uma vez e ir misturando com uma colher. Dourava a todos na mesma medida, sem nenhuma complicação.

Essa história de comida esbarra no próximo domingo, Dia das Mães. Nesta data, quem prefere viver a pensar que vai morrer costuma receber a família para comemorar. Então, volto à minha mãe, que, perguntada onde queria ir para comemorar seu dia, respondia logo se podia almoçar no Alpino. E lá íamos de novo, na folga, e ela derrubava sem o menor problema um joelho de porco cozido, uma delícia só.

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade