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Estado de Minas VIVENDO E APRENDENDO

"O teatro é uma janela que se abre para a esperança"


05/02/2021 19:44

José Luiz Ribeiro
Diretor, dramaturgo e coordenador-geral 
do Centro de Estudos Teatrais e do Grupo 
Divulgação, de Juiz de Fora


Há 58 anos, iniciei uma caminhada na longa estrada do teatro. No Grupo Divulgação, militamos há 55 anos fazendo teatro em Juiz de Fora. Ninguém nunca disse que é fácil fazer qualquer ato cultural nas andanças do tempo. Durante todo esse tempo, enfrentamos a ditadura, nos anos de chumbo tivemos espetáculo proibido na hora da estreia e texto tão cortado que inviabilizou a montagem.
 
Em 1980, montamos O estado de sítio, de Camus. Agora, tivemos a alegria de ver esse texto numa encenação soberba de Gabriel Villela. A visita da Peste e sua secretária, a Morte, traça uma narrativa que nos ensina muito. A peste cai sobre a cidade e o primeiro grupo contaminado é a trupe de bufões. Uma boa síntese do tempo atual.
 
“De repente, os homens se dissolvem e a certeza sobre todas as coisas é de que a bomba atômica vai manchar de sangue a lua cheia” – esses versos de Heloisa Herédia pertenciam a um espetáculo que fizemos em 1966.
 
Estávamos em março de 2020, em meio a uma oficina para atores, iniciando o trabalho de Despejo, trabalhando a obra de Adoniran Barbosa, quando o espaço do Fórum da Cultura, onde trabalhamos com projetos de extensão há 50 anos, cerrou suas portas.
 
Para um grupo longevo com três núcleos de atuação – universitários, adolescentes e terceira idade –, eliminar a presença física em que o teatro se constitui foi um choque. Um raio fulminante caiu sobre o projeto de sete montagens para 2021.
 
A terceira idade me perguntava: Quando voltaremos? Eu dizia, com certeza: 2025. E a gente ria diante da blague.
 
Hoje, nem o Oráculo de Delfos tem essa resposta. Foi a primeira lição que aprendemos. Passada a zonzeira inicial, acompanhamos o farol que apontava para as redes sociais como um ponto de encontro. Manter a cabeça ativa quando o corpo é aprisionado é mais um passo para manter nossa integridade; esse foi o segundo passo. Iniciamos lives que contemplassem nossos projetos de extensão, nossa parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)/Fórum da Cultura.
 
Não podemos deixar que a memória de um trabalho efêmero se apague. Essa premissa foi o terceiro passo. Passamos a ter três encontros semanais versando sobre teoria do teatro, arquivo de memórias e postagem de interpretações, principalmente de trechos de dramaturgia e poemas que fazem parte do nosso repertório.
 
Com esse trabalho, nós conseguimos resgatar a memória afetiva com atores, ex-membros, espalhados pelo mundo. Tivemos revelações e depoimentos muito preciosos.
 
Em tempos de solidão, criamos um vínculo através de 110 encontros virtuais, unindo espaços temporais e geográficos. Sempre iniciávamos nossos encontros de boas-vindas com um mantra que inventei: “O teatro é uma janela que se abre para a esperança”.
 
Como náufragos, mandamos mensagens engarrafadas, pois nossa grande lição é a de que sempre é preciso sonhar.
 

"Nossa grande lição é a de que sempre é preciso sonhar"

 
 

"Nossa grande lição é a de que sempre é preciso sonhar"

  

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