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Dia dos Namorados ao som de Tom Jobim

Naquele fim de noite, tudo era encanto na Praça de São Marcos, em Veneza, com a cumplicidade das águas do Adriático


postado em 12/06/2020 04:00

Peço licença aos leitores para reproduzir, hoje, um texto publicado aqui, na página de Cyro Siqueira, em 12 de janeiro de 1981. É minha participação para o Dia dos Namorados:

“Veneza, em torno da meia-noite.

Apenas um interlúdio que se pretende sentimental.

Era Veneza e faltavam poucos minutos para a meia-noite. Resolvemos, a moça que me acompanhava e eu, gastá-los na Praça São Marcos, uma glória veneziana. A praça estava quase às escuras, apenas dois pontos de luz. Em um dos braços da praça, um holofote iluminava um pintor e uma mulher sentada cujo retrato estava sendo criado pelo pintor. No centro do outro lado da praça, também iluminado por um holofote, o piano e seu pianista – que pacificava a noite com uma melodia de encantar.

O momento era de doce arrebatamento, a praça escura, deserta, já começando a ser tomada pelas águas, a maré estava subindo. Aquele cenário que nem se tivesse sido montado funcionaria com tanta perfeição, o envolvimento de uma cidade, talvez a mais carismática cidade do mundo, a noite iniciava seu processo de declínio, de uma serena retirada, quando ela se recolhe apenas para retemperar suas forças, para a volta inarredável.

De repente, o carrilhão da Igreja de São Marcos começa a bater meia-noite – e é quando de dentro saem aqueles duendes que parecem dançar, como se estivessem percebendo o encantatório do momento, aquela praça, aquela música.
Os dois não resistiram, abraçaram-se em silêncio.

Ambos choravam, ela ainda sentia a morte de sua mãe, poucas semanas antes.

Mas era um choro também de alegria, a alegria por tudo o que estava acontecendo naquela praça, naquele instante. Ele apenas murmurou o inevitável: um momento de beleza, uma alegria para sempre.

A música, depois de dominar a Praça São Marcos, continuava a fluir, leve, macia, já conquistando Veneza, o Adriático, cujas águas se insinuavam praça adentro, como se elas também quisessem participar daquele instante, um lampejo de eternidade.

A música que havia conquistado a praça, a cidade, o mar, ameaçando outras terras, outros continentes, era de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim – Tom Jobim.

Um momento de beleza, uma alegria para sempre.

A magia daquela noite não se desfez, como não se desfazem as recordações do primeiro sorriso, da descoberta da primeira ruga – o que terá provocado a primeira ruga? – , do cabelo agitado pelo vento e depois molhado pela chuva.

A magia na qual a vida se sustenta – para mostrar, a cada instante, que vale a pena ser vivida.”

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