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Pandemia tem o lado bom de nos aproximar da leitura

Na quarentena, descobri Música para camaleões, de Truman Capote. Contos nos fazem querer começar e terminar o livro no mesmo dia


postado em 28/05/2020 04:00

Honra seja feita a esta pandemia: nos dá tempo não só para realizar trabalhos domésticos, como também para colocar a cultura em dia. Como as estações de TV se transformaram numa cadeia de repetições de filmes, a grande saída é a leitura. Tenho aproveitado as horas livres para reler Hemingway, Fitzgerald, Faulkner. Ainda não entrei na linha dos italianos, tipo Vasco Pratolini, a quem fui apresentada por meu marido e é escritor pouco conhecido por aqui. Mas foi através da TV que cheguei a Truman Capote. Procurei na minha lista de livros o seu sucesso maior, A sangue-frio, cujo filme aparece sempre, e não encontrei, e cujo texto ele levou seis anos para concluir, entrevistando os assassinos. Em compensação, encontrei seu último livro, Música para camaleões, que me fez reviver aquele tempo em que era preciso começar e terminar um livro no mesmo dia. Transformei então Capote no meu escritor predileto, principalmente porque seu livro, uma coletânea de contos, revela como seu texto é jornalístico, temperado pelo que viveu.

Cada um dos contos é uma revelação única entre entrevistados e entrevistador. Mantendo o anonimato da testemunha, ele se transforma no centro da narrativa – mostrando um lado muito pessoal de sua vida e suas crenças. Os personagens não podiam ser mais variados: uma velha senhora tocando piano para camaleões numa ilha do Caribe, que dá título ao livro, um parceiro de Charles Manson, uma manhã com Marilyn Monroe, um serial killer e um detetive ferrenho no Meio-oeste americano e o último conto, Turnos noturnos, onde Capote é entrevistado e entrevistador, e se analisa friamente: “Sou alcoólatra. Sou viciado em drogas. Sou homossexual. Sou um gênio. Claro, eu poderia ser essas quatro coisas dúbias e ainda ser um santo. Mas com certeza ainda não sou santo, não senhor”.

Respondendo à sua relação com Deus: “Eu acreditava em Deus. Depois, deixei de acreditar. Lembra quando éramos pequenos e costumávamos sair pelos bosques com a cachorra Queenie e a velha prima Sook....? Ela nos contou que Deus tinha determinado que eles morariam ali, assim como Ele tinha determinado tudo que víamos. Tanto o bom quanto o mau. E acreditamos nela. Mas então aconteceram coisas que estragaram aquela fé. Primeiro foi a Igreja, e a coceira que a gente sentia no corpo todo de tanto ouvir aqueles pregadores ignorantes do interior falando até cansar; depois foram todos os internatos e a obrigação de rezar na capela toda maldita manhã. E a própria Bíblia – nenhuma pessoa dotada de um mínimo de bom senso pode acreditar no que ela nos pede para acreditar”.
Música para camaleões, de Truman Capote, traz contos únicos, temperados pelo que o escritor viveu(foto: Companhia das Letras/Divulgação)
Música para camaleões, de Truman Capote, traz contos únicos, temperados pelo que o escritor viveu (foto: Companhia das Letras/Divulgação)

Outro lance legal do livro é que ele fala nos lugares que frequentava em Nova York, Raibown Room, restaurantes como Quatre Saisons, e outros lances conhecidos. Conta também sobre as pessoas famosas que conhecia, como os Kennedy, atores e atrizes. E me pega com força quando conta um de seus encontros com uma escritora que também adoro e com quem conversou certa vez: “A genial dinamarquesa, já falecida, a baronesa Blixen, que escrevia sob o pseudônimo de Isak Dinesen, era, apesar de sua aparência decadente, embora distinta, uma verdadeira sedutora, uma tagarela sedutora. Ah, como era fascinante, sentada ao lado do fogo em sua linda casa numa aldeia dinamarquesa à beira-mar, fumando um atrás do outro seus cigarros negros com ponteira prateada, refrescando a língua inquieta com goles de champanhe, e conduzindo o ouvinte de um assunto ao outro – seus anos como agricultora na África (não deixem de ler, se ainda não leram, o livro autobiográfico A fazenda africana (mais conhecido como Out of Africa, um dos melhores do século), a vida sob o nazismo na Dinamarca ocupada.....” E por aí vai. Capote recomenda a leitura do livro da dinamarquesa e eu recomendo, para quem gosta e conseguir achar, seu livro Música para camaleões.

Em tempo: o filme sobre o livro de memórias de Dinesen, que se chama Entre dois amores e tinha como atores Robert Redford e Meryl Streep, também vale a pena ver.

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