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Sem saber o que o futuro nos reserva, bom mesmo é voltar ao passado

Quando a vida era sem surpresas, as doenças eram comuns e de todos, ninguém acreditava que o fim do mundo estava próximo. Eram bons aqueles tempos, em que em cada casa havia um agrado, biscoito ou doce acabado de fazer


postado em 04/04/2020 04:00

Sem saber o que o futuro nos reserva, bom mesmo é voltar ao passado. Quando a vida era sem surpresas, as doenças eram comuns e de todos, e ninguém passava o tempo acreditando que o fim do mun do estava próximo. E entre lembranças de viagens, o que me ocupa mais a cabeça é sem dúvida a infância, quando passava o tempo em Santa Luzia, subindo e descendo a Rua Direita, entrando e saindo da casa de parentes e conhecidos. Eram bons aqueles tempos, em que em  cada casa havia um agrado, biscoito ou doce acabado de fazer, oferecidos sem reserva.
 
E entre as subidas e descidas de íngremes escadas que até hoje estão lá, desafiando as pernas das velhas, proprietárias ou não, a casa que mais me encantava era sem dúvida a de vó Lisa – Elisa  Moreira, uma mulher que guardava toda a tradição da família mineira. Só para dar uma imagem, todos os sábados ela se sentava numa cadeira ao lado de uma janela aberta para a rua, distribuindo esmola para os pobres que passavam – e já sabiam de seu costume. A casa era adorável; anos mais tarde, vim a saber que a arquitetura era eclética, com seus trabalhos de flores nas janelas, jarrões de cimento nas guardas do portão, que dava para um jardim lateral. Mal transposta a porta de entrada, uma sala de visitas de portas de vidro encaixilhados, sempre fechadas. Lá dentro, o deslumbramento das paredes forradas com seda adamascada de verde, um cavalete com um quadro já pintado, as cadeiras colocadas meio de banda, uma mesa com álbuns de retrato com capas de madrepérola – e o tabuado do chão encerrado, um luxo jamais imaginado.

No fundo do corredor, chegando à varanda, o que hoje poderia ser chamado de sala íntima: prateleiras de cana-da-índia cheias de livros e o fascinante de Pierre Lotti em francês, que eu sonhava ler um dia. Ali ficávamos proseando, adultos e crianças, num canapé mineiro, com mocho para os pés, escrivaninha, portas para a varanda. Um pouco mais adiante, a sala de jantar, com uma mesa que me parecia imensa, pés graciosos, recoberta por uma toalha de veludo vinho. Sobre ela, uma floreira sempre enfeitada com ramos da trepadeira amor-agarradinho (que anos mais tarde plantei em minha casa). Na sala, tinha ainda uma cristaleira cheia de cristais e porcelanas e, encostada nela, a surpresa geral, a única geladeira da cidade.

Portas davam para jardim interno e para a cozinha, onde morava o império dos sabores. Um fogão de ferro fumegava por todas as horas do dia, comandado por Emília – uma negra de enorme peito, sempre com um lenço impecável na cabeça. Eu gostava de me sentar na janela que dava para o rio, com sua curva doce, além da várzea. Rio que fazia medo, dele vinham os atletas mais afoitos, afogados, carregados em uma tosca maca feita por dois bambus e um lençol. Lúgubre procissão com o morto dentro, subindo a Rua Direita, vi um dia três primos mortos do mesmo jeito, um querendo salvar o outro.

Junto com a tradição do horizonte muito além, que só podíamos ir acompanhados por adultos, os tabuleiros de biscoitos saíam do forno comandado por Emília. Rosquinhas, bolachinhas, bem-casados de nata, de limão. Sentia tanta saudade dos sabores que trouxe comigo quando vim morar em Belo Horizonte – que geraram o primeiro bilhete tão logo aprendi a garatujar as primeiras letras. Pedia às donas da casa uns biscoitos: “Mande alguns biscoitos da Emília, se não puder, 200 réis mesmo serve”.

Saudades daqueles biscoitos e daquele tempo tão feliz...  

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