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Quem quer ir tão longe em busca de produto sem imposto?

Zona Franca do Pará, proposta pelo presidente Bolsonaro, fizeram os vendedores de bebidas 'treparem nas tamancas', já que as regalias fiscais podem prejudicar o setor


postado em 14/03/2020 04:00

Votei em Bolsonaro, acredito que ele pode consertar o país com honestidade e, de preferência, com a boca fechada, porque ninguém no seu lugar já trombou tanto nas declarações como ele tromba. Sem contar que a imprensa PT gosta de botar fogo no circo. Mas algumas coisas que são programadas espantam qualquer um, até os leigos como eu. Com por exemplo sua declaração que vai instituir uma Zona Franca no Pará. Será no arquipélago do Marajó. Os vendedores de bebidas treparam nas tamancas, porque as regalias fiscais podem prejudicar o setor. Achei a maior graça, porque sou do tempo em que o máximo para conseguir produtos importados no país era viajar para Manaus. Fui lá algumas vezes e era uma verdadeira áfrica conseguir visitar todas as lojas e comprar o que fosse possível em apenas um fim de semana.

Valia a pena, porque importados não existiam por aqui, a não se no setor de roupas finas, que eram mantidos por uma mulher conhecida como Maria Italiana, que fornecia tudo que existia de grife de luxo nas duas butiques que existiam na cidade. Vender importados era crime fiscal e as batidas eram frequentes. Em uma dessas butiques, a mercadoria importada era colocada em um só setor e, quando a fiscalização aparecia, era toda jogada em um lote vizinho para fugir da multa. A outra vendia em um apartamento alugado, mas depois abriu uma loja para não comprometer a família, do meio bancário. Em Manaus, grifes de luxo não existiam, mas o máximo das compras ficava em torno dos jeans americanos, as calças Lee, que não chegavam por aqui e que eram o top da época. No restante, o que existia muito era modinha, coisas para casa, acessórios, bebida, um ou outro luxo.

Trouxe de lá uma vez uma árvore de Natal de mais de três metros de altura, iluminada, que não existia por aqui. Era americana e na mesma loja era possível comprar mil e um enfeites decorativos para ela. O que também existia muito era roupa íntima, italiana e americana. Supersucesso eram os jogos de calcinha e sutiã da grife Pucci, cabia à Maria Italiana fornecer os vestidos, principalmente os longos que faziam sucesso em qualquer ocasião e reunião. Outro lance importante da Zona Franca de Manaus era a lataria de comedoria da Europa, mas, principalmente, dos Estados Unidos. Como não existia nada por aqui, as malas vinham cheias de latinhas e garrafinhas de temperos e iguarias.

O local de hospedagem era sempre o hotel Manaus, considerado como de cinco estrelas. Mas tinha um problema: corredores imensos, que se tornavam um perigo porque, em certa época, não me lembro bem porque, as luzes eram apagadas à meia-noite. O hotel era legal e quem que ficava por mais tempo podia trazer dois peixes do Rio Amazonas, pirarucu e tucunaré, que faziam sucesso por aqui. Assados como churrasco, inteiros, presenteavam a casa com um perfume que custava a sumir, era um verdadeiro tormento.

Outro lance legal da Zona Franca de Manaus é que de lá era possível tomar um barco e subir o Rio Tocantins até Belém do Pará. Não era o Amazonas, mas era tão largo quanto. E o navio, se não tinha luxo, tinha atrações não só nas margens como nas raras paradas. Uma delas, na praia de Alter do Chão, que naquele tempo não tinha nada. Mas a praia, de rio, tinha areia muito branca e lindas conchinhas. A cerveja para enfrentar o calor era encontrada em uma barraca numa das poucas ruas da cidade. A igreja da praça era linda, colonial, tinha uma pia batismal de pedra sabão que nunca esqueci. E não entendia como foi parar tão longe. Em Belém, a maravilha era o mercado Ver o Peso, onde se comia do bom e do melhor. E onde a cestaria desafiava qualquer intenção de não comprar nada. Ainda por cima, os vendedores mandavam cestos e balaios para qualquer cidade do país.

Voltando à provável Zona Franca do Pará, que o presidente pretende criar, a atração é que o modelo econômico do estado concede descontos fiscais às multinacionais de bebidas, como Coca-Cola, Ambev e Heineken, instaladas na região. Resumindo: quem quer ir tão longe em busca de produto sem imposto? 

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