Publicidade

Estado de Minas

Curiosidades médica


postado em 24/07/2019 04:00

Houve tempo, tão logo Fidel Castro assumiu o governo de Cuba, que a encomenda mais habitual era conseguir, de quem fosse lá, trazer de contrabando um creme que era tiro e queda para acabar com vitiligo. Conheci muitas pessoas que usavam esse expediente, que terminou sucumbindo por inércia e exaustão. Depois, a moda era fazer uma infusão com flores de cipó-de-são-joão, aquela trepadeira linda, com cachos amarelos, que é muito comum nos muros e portões das casas coloniais do interior. Tenho um pé em minha casa e o danado custa a ser a glória que desejo conseguir, mas já me prestou muito trabalho.

Isso porque a medicina popular ensina fazer uma fórmula em que as flores amarelas do cipó são colocadas dentro de uma garrafa com álcool e enterradas por 30 dias. O resultado é usado nos locais onde o vitiligo aparece, rosto principalmente. Fiz isso durante várias safras da floração para atender um sobrinho meu que mora no Rio e apareceu com vitiligo no rosto. É preciso prestar muita atenção para enxergar, mas sabe como é: jovem morando na praia que não pode frequentar não aceita facilmente o problema. Depois que ele cresceu e formou-se em duas universidades dessas duronas, nas áreas de finanças, sei lá o quê, a necessidade acabou.

O vitiligo se manifesta de várias formas, mais brando ou mais definitivo e sua condição é aquela que ninguém gosta de escutar: é autoimune. Tem aparecido tanto que começou a criar a necessidade de informar a mídia. Suas causas ainda são em grande parte desconhecidas e, portanto, não há cura. Acredita-se que há uma combinação de genética e meio ambiente, mas sabemos que o vitiligo é uma doença autoimune em que o corpo ataca seus próprios melanócitos (células produtoras de pigmento) na pele e nos cabelos. O resultado é uma perda da cor da pele (que se torna acrômica, sem pigmentação, nas áreas acometidas), mais frequentemente em torno dos olhos, nariz e boca, que parecem sem pigmento em comparação com a pele normalmente pigmentada ao redor deles. Mesmo não acarretando nenhum sintoma sistêmico e não sendo contagioso, ter ou desenvolver vitiligo pode obviamente ser estressante por uma infinidade de razões e a condição geralmente leva a problemas de aceitação e autoestima – justamente pelo seu difícil tratamento.

A novidade do setor é que um novo estudo da universidade americana que fica em Boston, Tufts Medical Center, publicado em junho, descobriu um creme, que é a nova esperança para os portadores da doença. De acordo com o estudo, que teve duração de dois anos, o creme tópico testado traz ruxolitinibe, atualmente usado como um tratamento oral para certas doenças do sangue (mielofibrose) e no caso desse estudo o medicamento foi usado topicamente. O ruxolitinibe faz parte de uma classe de medicamentos, janus kinases, drogas que interrompem a via inflamatória, bloqueando a sinalização de moléculas, o que leva a um efeito anti-inflamatório. As janus kinases desempenham papel significativo no desenvolvimento do vitiligo, e assim bloqueá-las pode ser usado para tratar a doença. O estudo foi feito com 157 pacientes escolhidos aleatoriamente para receber o tratamento tópico ou um placebo.

Atualmente, as opções de tratamento para o vitiligo incluem outros medicamentos tópicos (geralmente corticoides) e fototerapia. Os medicamentos tópicos são cremes anti-inflamatórios que funcionam suprimindo a inflamação na pele, mas, infelizmente, os resultados são muito variáveis de paciente para paciente. A fototerapia é geralmente mais eficaz, mas também pode ser um grande compromisso monetário e de tempo, geralmente exigindo que os pacientes entrem no consultório de duas a três vezes por semana a longo prazo. As opções atuais de tratamento para o vitiligo são bastante limitadas (e caras). Por enquanto, mais estudos precisam ser feitos para comprovar a eficácia do novo tratamento.

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade