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Estado de Minas

Para quem gosta de ler


postado em 26/06/2019 04:09 / atualizado em 26/06/2019 10:19


Toda terça-feira corro atrás de O Estado de S. Paulo só para ler a crônica de Humberto Werneck. Para mim, ele é, de longe, o melhor cronista do país, mineirice à parte, porque ele é nosso conterraneo e não esconde como costuma ocorrer. Os assuntos que levanta podem ser atuais ou vivenciais, mas o texto é sempre da melhor qualidade. A sensação que dá é que ele escreve sem o menor sofrimento, as imagens e as lembranças nascem assim, numa boa. Outra coisa que me apaixona é que ele escreve sem querer mostrar que é um intelectual e, por isso mesmo, usa termos e palavras que há muito tempo já sumiram do jornalismo nacional, tão preocupado com o estrangeirismo. O que, nos dias atuais, é uma raridade. A tendência é mostrar conhecimento de todas essas novidades virtuais, que desnaturam nossa realidade e nosso coloquial.

Por causa dessa mania, resolvi aproveitar o fim de semana prolongado para reler O desatino da rapaziada, no qual ele levanta, com histórias, casos e informações históricas, a vida de jornalistas e escritores mineiros de 1920 a 1970. Quando ele estava para lançar o livro, esteve aqui na capital e fomos nos encontrar em um almoço que, se não estou enganada, foi num hotel no Centro. Meu marido recebeu dele o texto ainda não impresso para ler e corrigir alguma imprecisão, mas nenhuma foi encontrada, a equipe que trabalhou com ele em busca de informações não podia ter sido melhor. Como estava com esse copião em casa, resolvi passá-lo para Carlos Marcelo, nosso diretor de  Redação, que também tem escrito vários e elogiados livros.

Quem gosta de reviver ou conhecer os meandros da cultura mineira, não deve deixar de ler esse livro, que revela tudo que existia nessa época em que Minas estava se firmando como um estado. Ele não deixa de fora o nascimento e morte de 160 publicações e 200 jornais – sem deixar de lado a revista Verde, criada em Cataguases e que tinha, entre seus fundadores, Rosário Fusco, de 17 anos e que vinha dos bancos escolares. Escritor que hoje poucos conhecem, mas que deixou vários livros e uma vida tumultuada (casou-se seis vezes, a última com uma francesa, com quem foi morar em Paris por alguns anos).

Bons tempos aqueles em que a Rua da Bahia era ponto de todos os acontecimentos políticos e culturais da cidade, e onde se reuniam nomes conhecidos como Carlos Drummond de Andrade (fiquei sabendo pelo livro que sua mulher, Dolores, era filha de um guarda), meu amigo Murilo Rubião, Fernando Sabino, Cyro dos Anjos e tantos outros, seguidos anos mais tarde por Ivan Angelo, Fernando Gabeira, Luiz Vilela. O livro nos dá uma imagem pouco comum de Milton Campos, cuja seriedade como governador era muito comentada. Mas que fazia parte, em pé de igualdade, com os amigos da época, muito afeitos à cultura, mas pouco afeitos à seriedade. E Humberto Werneck não deixa de fora aquele lendário incêndio colocado na casa das irmãs capixabas Vivacqua, uma delas Luz del Fuego, e tampouco aquela mania de trocar, de madrugada, placas que identificavam os moradores das casas, como médicos, advogados, etc.

A memória dos jornais da época é um espelho da imprensa mineira, circulavam com quatro páginas e só se firmaram e se tornaram importantes quando foi lançado o Estado de Minas, que desde então é considerado o melhor jornal que se faz por estes lados. Do lado gastronômico, louvam-se as empadinhas do Trianon, que Pedro Nava conta em seu livro de memórias Beira-mar. “Eram suntuosas, as melhores que já comi no mundo. Eram pulverulentas, apesar de gordurosas, tostadas na tampa, moles do seu recheio farto de galinha ou camarão. Desfaziam-se na boca. Difundiam-se no sangue”.


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