Relíquia da escravidão

Antiga moradora de Bento Rodrigues desafia vigias e mantém rotina de garimpagem no que restou do sobrado histórico de onde sonha em retirar piso de pedras do século 18

Mateus Parreiras (textos) e Gladyston Rodrigues (fotos) - Enviados especiais

Mariana - Os porteiros e guarda-cancelas da área de 190 hectares onde a Samarco construiu o barramento chamado Dique 3 e acelera o canteiro de obras para erguer o Dique 4, em Bento Rodrigues, já conhecem a comerciante Sandra Dometirdes Quintão, de 44 anos. Sabem que não adianta perguntar se ela tem autorização para passar com sua picape pelos operários e por suas máquinas no subdistrito de Mariana, na Região Central do estado. "Eu devolvo a pergunta a eles: quem são eles para invadir minha casa? Sou nascida e criei minha família em Bento e, agora, depois de toda a destruição e dor, a Samarco vai tomar conta de tudo?", questiona. As idas e vindas de Sandra ao distrito mais arrasado pela onda de rejeitos despejada em 5 de novembro de 2015 com o rompimento da Barragem do Fundão têm o objetivo de tentar resgatar uma relíquia familiar da época colonial, que pode ser definitivamente alagada com a construção da última barragem. "Minha casa era um sobrado do século 18 que servia de pouso para tropeiros. O chão de pedras foi talhado pelos escravos. Quero pelo menos levar esse chão de pedras para onde for morar, já que é a mais antiga recordação da minha família", afirma.

Da casa de Sandra, onde funcionavam bar e pousada para viajantes da Estrada Real, restaram apenas escombros e poucas paredes, bem ao lado das ruínas da Capela de São Bento, também do século 18. Quem chega de fora mal consegue diferenciar o que restou dos cômodos, mas para ela cada corredor, janela e parede estão nítidos na memória. "Aqui, ao lado do pé de manga, de frente para a capela, era onde minha irmã tirava um cochilo no horário de almoço. Minha sala com chão de pedras fica bem aqui", disse, posicionando-se sobre um ponto no solo que acumula mais de meio metro de lama compactada. "Quero que a Samarco escave para mim as pedras, para que eu possa levar. Vou demarcar bem o lugar com estacas e fitas, antes desse Dique 4 ser construído e encher Bento Rodrigues de água e minério", conta.

Praticamente um ano depois da tragédia que riscou o povoado do mapa, Sandra ainda se emociona ao vagar pelo espaço onde cresceu. Perto de uma moita que brotou nesse tempo dá para distinguir uma das quinas da antiga banheira de louça branca do quarto e, adiante, vestígios superiores de tijolos de dois fogões a lenha. Com os retratos de seu álbum de família em mãos, ela vai encaixando no vazio cada cômodo, a fachada, o famoso chão de pedras, e para por um instante quando chega à foto do batizado de sua filha. Atrás de Sandra segurando o bebê, aparece rezando o pequeno Thiago Damasceno dos Santos, de 7 anos, que morreu soterrado. Outros quatro habitantes da comunidade morreram na tragédia.

"Minha casa era um sobrado que servia de pouso para tropeiros. O chão de pedras foi talhado pelos escravos. Quero levá-lo para onde for morar, pois é a mais antiga recordação da minha família"
Sandra Dometirdes Quintão, comerciante, 44 anos

PÂNICO REVIVIDO Quando a comerciante chega à foto que identifica a cozinha, lágrimas voltam a brotar e a voz falha. Era lá que ela estava ralando cocos no dia em que a barragem estourou. "A Paula, que trabalhava terceirizada para a Samarco, passou de moto mandando a gente fugir, que a barragem tinha descido. Muita gente falou que era de novo a poeira que a Samarco fazia na mina, mas eu acreditei no alerta. Peguei meu carro, avisei minha família e a gente correu para a parte mais alta", lembra.

Do alto do morro onde ficam cinco grandes caixas d'água, Sandra ainda se lembra de ter visto o telhado de sua casa rodopiando num redemoinho marrom de água e lama, que em poucos minutos engoliu tudo. O local atualmente está fora dos limites permitidos pela Samarco para o trânsito de moradores, sob alegação de que a circulação de veículos pesados por lá é intensa. "Depois que vi o Bento ser destruído, começamos a pensar em um jeito de fugir. Usamos tábuas para atravessar a lama que estava cercando a gente e só então conseguimos escapar", lembra.

Para Sandra, que recebeu uma barraca de coxinhas na feira de Mariana e vive com a filha na segunda casa que a mineradora alugou em menos de um ano, nada vai substituir a vida que levava em Bento Rodrigues. "A gente tinha um ao outro lá. Agora meus irmãos, familiares e amigos estão todos espalhados. As pessoas de Mariana acham que nós, em vez de vítimas, estamos nos aproveitando da Samarco." Ela diz já ter se conformado com a ideia de que uma nova comunidade será construída até 2019 pela mineradora em uma área que fica na velha estrada que ia para o distrito arrasado. E planeja até ter um novo bar no local. "Mas a gente não pode mudar o nome, chamar de Novo Bento Rodrigues. Temos de chamar de Bento Rodrigues, que era o lugar onde nascemos e de onde nossos familiares vieram", insiste.

Para Adriana Carvalho, o fato de não ter um professor presente diariamente tem pontos negativos e positivos. Ela não é cobrada, o que a poderia fazer se sentir "infantilizada". Por outro lado, se não ficar atenta, corre o risco de perder o foco. A servidora pública acredita que os cursos on-line têm democratizado o espaço da educação. "Abriu um leque de opções. Eu, por exemplo, talvez não conseguiria conciliar trabalho e faculdade, principalmente com esse trânsito caótico que piora a cada dia. Muitas pessoas já deixaram de estudar ou desistiram no meio do caminho por essa questão. Eu adorei a primeira experiência e, por isso, decidi continuar. Se depender de mim, vou fazer vários desse jeito", promete.

"A gente tinha um ao outro lá. Agora meus irmãos, familiares e amigos estão todos espalhados. As pessoas de Mariana acham que nós, em vez de vítimas, estamos nos aproveitando da Samarco"
Sandra Dometirdes Quintão, comerciante, 44 anos

'Agora, o sossego do Bento é de morte'


Um ano depois de Bento Rodrigues ter sido soterrado pela onda de rejeitos da mineradora Samarco, o movimento da comunidade foi substituído por redemoinhos formados pelo vento que sopra pelas ruas e construções, levantando a poeira fina e azulada de minério de ferro. Nem os cães sem donos ou pássaros parecem querer ficar na cidade-fantasma. "Bento Rodrigues era sossegado, mas tinha vida. Agora, esse sossego que vejo por aqui é de morte", desabafa a comerciante Sandra Dometirdes Quintão, de 44 anos, que a convite da reportagem do EM retornou ao povoado destruído. Do lado de fora, muito já foi alterado por quem esteve na comunidade. Partes de janelas e móveis foram roubadas, vandalizadas ou pichadas ao longo de 12 meses. Mas é no interior das edificações que ainda se encontram petrificadas na lama de rejeitos as cenas do dia da tragédia e dos esforços de seus habitantes para recuperar seus pertences e documentos. "Até hoje ainda roubam coisas aqui. Mas dentro das casas a gente ainda vê um pouco do desespero que foi aquele dia", afirma Sandra.

A Defesa Civil não permite mais que se entre em imóveis atingidos que ainda tenham telhados ou lajes, devido ao perigo de desabamento. Mas, com uma câmera presa a uma sonda telescópica, a equipe do EM percorreu corredores e cômodos de residências e pontos de comércio arrasados. Lá dentro, a lama solidificada congelou o momento da tragédia. Em um dos bares na esquina das duas ruas principais, a pasta de rejeitos empurrou móveis e uma mesa de totó para a porta, bloqueando a entrada. Por cima disso, o material cinzento despejado pela barragem encapsulou engradados de cerveja, cadeiras de plástico, mesas de ferro e estantes de madeira. A força da correnteza arrancou o reboco das paredes e dos pilares, expondo ferragens já enferrujadas e tijolos sujos na altura das janelas, pelas quais ainda se veem cartazes de propaganda de bebidas.

A todo momento, o ruído de uma telha se desprendendo e se espatifando no chão alerta sobre o perigo de colapso das estruturas. Em uma das casas, um sobrado de dois andares, só a parte superior de sofás aparece da lama. O primeiro e o segundo patamares de uma escada de madeira também foram soterrados. Gavetas de cômodas e armários se encontram atiradas por vários cantos. Estão cercadas por papéis e roupas emboladas que estavam em seu interior, um indicativo de que naquele lugar já se vasculhou e removeu tudo o que poderia ser salvo. Só não se sabe se por moradores ou saqueadores.