Depois da lama

Pescadores de Regência Augusta, onde o Rio Doce encontra o Atlântico, perderam o sustento e hoje vivem de cartão-auxílio. Maquinário que processava pescado se perde por falta de uso

Mateus Parreiras (textos) e Gladyston Rodrigues (fotos) - Enviados especiais

Linhares (ES) - Com cascos e quilhas encalhados na areia, os barcos de madeira já não transportam peixes há quase um ano. Tombadas, como se estivessem abandonadas, as embarcações que são o ganha-pão de 140 pescadores da região de Regência Augusta, distrito do município de Linhares, no Espírito Santo, chegaram a ser usadas para monitorar a lama despejada pela Samarco em Mariana, que desembocou na foz do Rio Doce, atingindo o Atlântico logo adiante. Mas há seis meses nenhum daqueles barcos zarpa, já que os serviços não são mais necessários e a pesca foi proibida. "Estamos todos parados, sobrevivendo de um cartão de auxílio miserável. Pescador que não pesca morre um pouco todo dia. Morre, porque não navega. E morre quando está em terra, por ver suas redes e equipamentos se perdendo sem usar", lamenta o presidente da Associação dos Pescadores de Regência, Leônidas Carlos, de 69 anos.

Na pequena vila capixaba, de onde os barcos zarpavam cedo do porto do Rio Doce e iam pescando até o mar, a paralisia forçada afetou a todos. Pescadores perambulam sem ter o que fazer e o presidente da associação, que está na atividade desde pequeno, circula entre o prédio da entidade, que está fechado, e o "cemitério de barcos" sem uso no porto.

A lama que desceu devastando o Rio Doce e que ainda castiga ribeirinhos e pescadores chegou em um momento de prosperidade da atividade em Regência. Os barcos estavam em pleno funcionamento e a associação tinha conseguido concluir uma câmara frigorífica e um centro de processamento de pescado. "Dentro da associação, a gente usava os freezers e o maquinário para produzir nossos famosos bolinhos de pescado, uma forma de não tirar renda apenas da venda do peixe", observa Leônidas. No estabelecimento trabalhavam três mulheres da comunidade, que produziam os bolinhos e os preparavam para a venda. Agora, com tudo parado, as três funcionárias precisaram ser demitidas.

"Estamos todos parados, sobrevivendo de um auxílio miserável. Pescador que não pesca morre um pouco todo dia. Morre, porque não navega. E morre por ver seus equipamentos se perdendo"
Leônidas Carlos, presidente da Associação dos Pescadores de Regência, 69 anos

As instalações também sofrem com o abandono da atividade. A câmara fria onde eram estocados os peixes permanece fechada e o medo é que os equipamentos que a mantém funcionando possam pifar, por falta de atividade. "Dá uma amargura na gente ver o nosso sonho assim, abandonado, uma conquista que tanto nos custou podendo ser tirada da gente. Foi muita batalha para se perder assim de uma hora para outra", observa Leônidas.

Na área de trabalho para a produção dos bolinhos, o abandono já expõe seus sinais. Os moedores e processadores de peixes começam a enferrujar e precisarão passar por manutenção quando finalmente voltarem à atividade. Os oito freezers que estocavam os produtos também estão vazios, de portas abertas, estragando com a maresia e servindo apenas como suporte para teias de aranhas que proliferam na associação fechada. "Além disso, temos nossos custos. Temos de pagar luz, impostos, acertos trabalhistas. E isso sem nenhum dinheiro entrar mais na associação, já que os pescadores estão parados e a Samarco não nos deu nenhum centavo de auxílio ou de indenização", critica o representante dos pescadores.

Leônidas mesmo tem sofrido na pele a situação. Só o investimento em redes paradas foi de R$ 10 mil. Em casa, o orçamento sofreu um baque. "Meu custo de vida com a mulher e os filhos era de R$ 5 mil. O cartão que a Samarco me paga é de apenas R$ 1.200. Não dá. Com a pesca, pude dar para condições para meus filhos. Pescando o pão de cada dia, criei os dez meninos e dei educação a todos. Hoje tenho filho professor, outro que é diretor e outro que trabalha na Petrobras. Tudo tirado daqui, da pesca, tudo. Agora, vou viver de um cartão miserável desses..."

Os pescadores têm cobrado uma análise definitiva sobre as condições dos peixes, para que possam voltar às atividades. "Enquanto não sair no Diário Oficial a liberação da pesca, se eu pegar um peixe desses hoje, vender para um cliente e ele passar mal, vai no médico, diz que foi o peixe. Como é que fica minha situação? Vou ser processado, preso", argumenta. "Para os comerciantes a perda não foi tanta, porque não ficaram sem o estoque, só levaram mais tempo para vender. O pescador ficou sem o pescado do dia a dia." Ainda de acordo com Leônidas, oito pescadores ficaram sem o cartão de auxílio. Por outro lado, ele afirma haver falhas no cadastro que permitiram a pessoas desconhecidas na região receberem o benefício. "Tem gente que mora lá em São Paulo e está recebendo como se fosse pescador de Regência", denuncia.

"Na questão ambiental, foi feita coleta de água, análises, mas os dados não são divulgados. Os pescadores dizem que há um metro de lama no fundo do rio e que muita coisa foi para dentro do mar"
Carlos Sangalia, vice-presidente do Comitê Hidrográfico da Foz do Rio Doce

Segundo os pescadores, as marés têm ditado qual a cor que o Rio Doce tem. "Quando a maré está baixa, a lama fica em baixo e parece que o rio está claro, mas temos mais de meio metro de lama no fundo do rio, onde antes era só areia. Quando a maré sobe, traz de volta a lama e fica tudo vermelho de novo", conta Leônidas.

RETRANCA A busca pela promoção da comunidade começou com a integração dos pescadores e demais habitantes à conservação das tartarugas marinhas, uma vez que Regência Augusta é um dos pontos de desova acompanhados pelo Projeto Tamar. "Foi assim que forjamos uma mentalidade de conservação. Antes, os pescadores matavam as tartarugas para comer, as deixavam para morrer presas nas redes e predavam também os ovos", conta o educador do Projeto Tamar Carlos Sangalia, também vice-presidente do Comitê Hidrográfico da Foz do Rio Doce e morador de Regência.

O turismo ecológico e a confecção de material promocional das tartarugas e do projeto trouxeram nova renda e fizeram com que os pescadores enxergassem os animais como uma importante fonte de renda. Por ano, de acordo com o Projeto Tamar, visitam o Centro Ecológico da vila cerca de 23 mil pessoas.

De acordo com Sangalia, a lama não afetou ainda visivelmente o ciclo reprodutivo, alimentar ou migratório das tartarugas marinhas, mas, por outro lado, o turismo ecológico e de esportes radicais sofreu muito com as condições do Rio Doce e do litoral enlameado. "A gente fica muito triste de ver essa situação. Algumas pessoas ainda vêm pegar umas ondas, mas o turismo foi muito prejudicado. Temos atrações culturais aqui da comunidade, algumas festas importantes e aos poucos vamos lutando para nos recuperar", afirma.

Enquanto a comunidade se desdobra para não perder a preferência dos turistas, Sangalia avalia como limitados as ações e estudos de impacto e de recuperação ambientais. "As ações são muito tímidas e não estão acompanhando a dinâmica de velocidade do acidente. Ainda estão na organização de cadastros, refazendo novamente cadastro na questão dos cartões de indenização, por exemplo", sustenta. O mesmo tem ocorrido quanto ao meio ambiente, segundo o ativista. "Na questão ambiental, a única coisa feita foi a coleta de água, as análises, mas os dados não são divulgados. Aparentemente, parece que o rio e o mar estão limpos. Mas os pescadores dizem que há um metro de lama no fundo do rio e que muita coisa foi parar dentro do mar. O monitoramento deveria ser constante, para atestar qual a qualidade desses peixes, pois isso é uma incógnita, hoje."

Sobre a ecologia das tartarugas, faltam dados e um histórico maior de observação, na visão de Sangalia. "Estão sendo feitos exames, mas essas são questões de médio ou longo prazo. Estamos começando uma nova temporada de desova. As tartarugas estão vindo desovar, mas a coisa é muito nova. Então, tem que ter um monitoramento constante, as pesquisas estão muito tímidas quando precisavam ser muito mais profundas e aceleradas. Quem sabe com a formação dessa fundação (*2) que está prevista no acordo da Samarco com o poder público possamos fazer algo", disse.