Barro revirado

Em Paracatu de Baixo, mesmo passado um ano da tragédia, moradores ainda vagam todos os dias, garimpando objetos de valor sentimental a golpes de enxada na lama endurecida

Mateus Parreiras (textos) e Gladyston Rodrigues (fotos) - Enviados especiais

Mariana - O avançar lento e difícil do caseiro Roberto Carlos de Paula, de 59 anos, faz parecer que ele está perdido no labirinto de ruas enterradas na lama endurecida, casas derrubadas e soterradas de Paracatu de Baixo, distrito de Mariana que teve 100 construções arrasadas pelo tsunami de rejeitos de mineração liberado pelo rompimento da Barragem do Fundão. Mas os passos contidos levam apenas o tempo que o homem precisa para reconstruir na sua mente cada moradia e comércio que existia antes da tragédia. O trajeto que ele descreve, da parte não atingida até as ruínas da sua casa, é feito várias vezes por dia, em uma espécie de passeio melancólico ou de catarse. "Não sou só eu que ficou andando por aí, lembrando das coisas, perguntando o que fizemos para Deus fazer isso com a gente. De vez em quando, encontro outros moradores que estão vivendo em Mariana e não conseguem ficar lá. Acabam vindo para cá e pensando se ainda daria para a Samarco limpar tudo em vez de querer construir outro povoado, num outro lugar", conta.

Ao passar pelas ruas de sua vizinhança, o caseiro vai apontando espaços arrasados como se ainda visse as construções inteiras. "A primeira casa era de Lindinho", diz, apontando para um monte de tijolos e aço retorcido soterrados num lote onde já despontam moitas esparsas de mato. "A segunda casa, depois, é a de Maria Branca, depois o posto médico, depois a casa de Ademir, depois a casa de Soares, depois a Capela de São Vicente." O tour pela arquitetura imaginária segue então por uma viela entre um muro que resistiu e tapumes metálicos que cercam a igreja, ainda atolada em detritos até a altura de seus portais e janelas. "Ali era a casa do 'sô' Doca, que era muito bom vizinho mesmo. Ali para trás tinha a casa do Rai, o senhor Lourival, que é muito bom, morava depois, aí vinha a casa da dona Leonildes, então a do Gilmar", conta, puxando pela memória os fantasmas do que foram um dia as ruas hoje desertas de Paracatu de Baixo.

"Não sou só eu que ficou andando por aí, lembrando das coisas. De vez em quando, encontro outros moradores que estão vivendo em Mariana e não conseguem ficar lá"
Roberto Carlos de Paula, caseiro, 59 anos

Chegando perto do campo de futebol onde há quase um ano um helicóptero dos Bombeiros desceu para dar a ordem de evacuação para a comunidade, Roberto Carlos para, tira o boné e dá um breve suspiro. É bem ali, em um terreno onde aparecem meia dúzia de paredes de tijolos com pouco mais de um metro para fora da lama endurecida, que ficava a moradia que o homem estava construindo para morar. "Muitas pessoas aqui perderam as casas onde viveram a vida toda. Eu, que sempre morei de favor, nos lugares onde era caseiro e na casa do meu irmão, estava fazendo esse meu cantinho devagar, tinha cinco anos", desabafa.

De frente para o que seria a porta da casa, uma geladeira semienterrada e aberta ainda guarda refrigerantes e vidros de conserva lacrados e sujos. Dentro da habitação que já tinha quatro cômodos, ferramentas e material de acabamento estocados foram levados pela lama. "Eu estava construindo no sacrifício. Meu irmão me ajudava com algum material, meu sobrinho me ajudou a bater laje, estava aumentando a varandinha, queria também fazer mais um cômodo e já estava com as armações para fazer as colunas de uma nova entrada. Ia ser o meu cantinho dos sonhos. Agora, acabou tudo", disse.

A casa era projetada para ter os fundos abertos para o campo de futebol, onde Roberto Carlos treinava um dos times da comunidade. A alegria das pessoas no lugar está entre as coisas que mais lhe fazem falta. "Lembro das pessoas daqui. Tinha uma turminha animada no campo batendo bola, tinha a Festinha de Menino Jesus, a de Nossa Senhora Aparecida. Lembro também de todos os vizinhos", afirma.

Por ele, não sairia mais da comunidade arrasada. "Gosto mesmo é daqui de Paracatu, meu lugar é aqui. Queria voltar. Todo o tempo que tenho venho aqui, gosto de mexer com a minha rocinha, com porco, cavalo, galinha. Lá em Mariana, onde a Samarco me pôs, é tudo cimentado. Lá tem de comprar tudo: verdura, legume, fruta. Tudo tem de comprar", frisa. "Estão falando (a Samarco) que vão fazer uma outra cidade, mas não sai nada, só fica tendo reunião, reunião, reunião e mais nada. Estou precisando de uma casa urgente, porque me separei da minha dona e estão me enrolando com a casa", disse.

Novo uso para uma velha ferramenta


A enxada equilibrada no ombro lembra um passado não muito distante, de apenas um ano atrás, quando a ferramenta servia para arrancar minhocas do solo para pescar nos remansos e cachoeiras do Rio Gualaxo do Norte, que corta povoados de Mariana. Depois que a lama de rejeitos desceu da Barragem do Fundão, enterrando o curso d'água e arrasando mais da metade do subdistrito de Mariana, essa cena deixou de existir. Tornou-se comum apenas para as pessoas que ainda vasculham o terreno desolado à procura de objetos de valor sentimental ou documentos desaparecidos. "Ficou muita coisa das pessoas encoberta por aí, nem sempre no mesmo lugar que estava, porque a lama saiu carregando. Tem gente que não consegue nem dormir direito em Mariana, sabendo que aqui em Paracatu ainda estão perdidos seus retratos de família, santos que eram da avó, lembranças de casamento, por isso, sempre que posso ajudo alguém a encontrar", conta o agente distrital Valdolice Batista, de 39 anos, que quase um ano depois do desastre ainda caminha pelas ruínas com a ferramenta nas costas para ajudar vizinhos.

"Tem gente que não consegue nem dormir direito, sabendo que aqui em Paracatu ainda estão perdidos seus retratos de família, santos que eram da avó, lembranças de casamento..."
Valdolice Batista, agente distrital, 39 anos

Mesmo um ano depois, o agente distrital não desanima. A última pessoa que foi ajudar foi a lavradora Nívia Aparecida da Silva, de 34. A casa dela ficava perto do campo de futebol e os dois cômodos restantes ficaram semienterrados. Para entrar na cozinha, por exemplo, é preciso se curvar. Ao se erguer, a pessoa fica da altura do telhado. "Estou procurando as cuscuzeiras de pedra que eram da minha mãe. São uma lembrança dela, que já é falecida, e só agora, um ano depois é que tive como trazer alguém aqui para me ajudar", afirma Nívia.

Na entrada do que restou da casa de Nívia, memórias que estão entre as mais caras vêm tona quando ela localiza dois pequeninos vestidos estirados ao chão, ainda presos pela lama que secou. São camisolinhas de batizado de duas de suas sete filhas. Ainda que surrados pela violência da tragédia, os trajes conservam os vestígios da delicadeza com que as famílias católicas tradicionais levavam suas crianças à pia batismal.

Mas os tecidos de renda branca e babados endureceram com o minério de ferro impregnado que os tingiu de laranja escuro. Ao sacudir as peças, se desprendem delas torrões de terra. "Quero recuperar esses vestidos, para que minhas filhas possam guardar quando crescerem e se casarem, porque vai ser uma lembrança para as famílias delas também", afirma Nívia.

COMO CONCRETO A caça aos objetos de família continua dentro da moradia. A última vez que a lavradora viu as cuscuzeiras de pedra da mãe foi embaixo da pia da cozinha, uma das poucas estruturas que a maré de lama não arrebatou. O problema é que os restos de minério secaram, formando uma liga dura demais até para os golpes insistentes da enxada de Valdolice. "Isso daqui parece concreto. É duro demais e o espaço para cavar é muito pequeno aqui na cozinha", desabafa o agente distrital, enquanto recupera o fôlego e limpa o suor da testa, se apoiando no cabo da ferramenta. "Essas panelas são lembranças minhas de menina, quando minha mãe usava. Vou ficar aqui até recuperar tudo", garante Nívia.

O caseiro Roberto Carlos de Paula, de 59, também repetiu muito o gesto de levar enxada e pá para cavar a área em volta do que restou de sua casa, à procura de pertences desaparecidos. "Antes, usava para cavar minhocas e iscas para a pescaria. Lembro todos os dias dos córregos que tinha aí para baixo (no Rio Gualaxo do Norte). Pescava lambaris, bagres... Agora, a gente não pesca mais nada, só lama. A água ainda está muito suja. Os bichos morreram todos. Esse rio, acho que não tenho mais esperança de ver ele limpo e com peixes mais não", desabafa.