CAPACITISMO

Paralisia cerebral é alvo de estigmas de todos os dias: entenda

"Os principais desafios são ser mulher, ter uma deficiência e ter muito estudo. Isso assusta as empresas"; conheça histórias que desafiam o preconceito

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A paralisia cerebral é a deficiência motora mais comum na infância: afeta cerca de 8 mil recém-nascidos por ano só no Brasil. Não tem cura, mas não impede — em muitos casos — escolaridade plena, carreira e autonomia. Os estigmas associados à condição, porém, persistem, inclusive para quem é classificado no nível IV do GMFCS, escala internacional de funcionalidade motora que indica mobilidade reduzida e uso de cadeira de rodas.

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Segundo o ortopedista pediátrico Filipe Barcelos, especialista em paralisia cerebral no Hospital Israelita Albert Einstein (SP) e membro da Academia Americana de Paralisia Cerebral (AACPDM), a persistência desse estereótipo é o maior obstáculo ao desenvolvimento de seus pacientes. "Muitas pessoas ainda associam PC automaticamente à deficiência intelectual grave ou incapacidade total, o que não corresponde à realidade de muitos pacientes", afirma.

"Com o avanço da ortopedia, da reabilitação motora e das terapias multidisciplinares, ampliamos significativamente a funcionalidade e a autonomia dessas pessoas", diz o médico.

Filipe Barcelos, ortopedista pediátrico especializado em paralisia cerebral
Filipe Barcelos, ortopedista pediátrico especializado em paralisia cerebral Arquivo pessoal

Paulistana, Nathalia Blagevitch, 35 anos, acumula graduação em direito, pós-graduação em direito do trabalho, segunda graduação em psicologia e especialização em psicologia transpessoal e constelação familiar. O currículo extenso, no entanto, não blindou Nathalia do preconceito: em processos seletivos, a oferta que mais se repetia eram vagas operacionais muito abaixo de sua qualificação. "As empresas me perguntam se quero ser telefonista no shopping ou caixa de supermercado", conta.

Para ela, a barreira tem três camadas que se somam: "Os principais desafios são ser mulher, ter uma deficiência e ter muito estudo. Isso assusta as empresas." Hoje, Nathalia atua como business partner de RH e mantém atendimento clínico como psicóloga. E tem como sonho ser mãe solo.

Nathalia Blagevitch, de 35 anos, é advogada e psicóloga
Nathalia Blagevitch, de 35 anos, é advogada e psicóloga Arquivo pessoal

Natural de Marília (SP), Lucas Emanuel Ricci Dantas, 36 anos, é doutor em ciência jurídica pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), professor, pesquisador e advogado com 16 anos de atuação na causa da inclusão. Com paralisia cerebral desde o nascimento, ele obteve autorização judicial para o cultivo próprio de cannabis para tratamento — e ficou conhecido nacionalmente em 2024 ao se levantar durante uma sustentação oral no tribunal para demonstrar, na prática, os efeitos do tratamento.

“Um profissional com paralisia cerebral como eu enfrenta várias dificuldades, tanto o preconceito no mercado quanto na área acadêmica, mas trabalho justamente para tentar melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência”, diz Lucas.

Lucas Emanuel Ricci Dantas, de 36 anos, é advogado, professor e pesquisador
Lucas Emanuel Ricci Dantas, de 36 anos, é advogado, professor e pesquisador Arquivo pessoal

Casado, Lucas luta para amplificar duas pautas: o fortalecimento da agenda da família atípica e a difusão da cannabis medicinal como política pública de saúde.

Já Letícia Eger, de Lages (SC), de 28 anos, foi diagnosticada com paralisia cerebral aos sete meses de idade. Na época, os médicos apresentaram um prognóstico bastante limitado, afirmando que ela teria dificuldades para falar, escrever, alimentar-se sozinha e desenvolver autonomia. 

“Quando recebi o diagnóstico, foi um baque. Os médicos falaram das limitações, mas eu não fiquei parada e fui atrás de tudo o que pudesse ajudar minha filha”, relembra Monalisa Amaral Eger. Inspirada pela trajetória de superação da própria filha, Monalisa também voltou aos estudos anos depois. Incentivada por Letícia, que a apoiou e acreditou em seu potencial, concluiu a graduação em enfermagem em 2025, realizando um sonho que parecia distante.

Ao longo de toda a vida escolar, Monalisa acompanhou a filha diariamente, atuando como auxiliar terapêutica e oferecendo o suporte necessário para seu desenvolvimento. Com o apoio da família e muita determinação, Letícia superou diversas barreiras. Hoje, comunica-se, escreve, alimenta-se sozinha, realiza grande parte de suas atividades de forma independente e utiliza andador para locomoção.

Letícia Eger, de 28 anos, é nutricionista e estudante de medicina
Letícia Eger, de 28 anos, é nutricionista e estudante de medicina Arquivo pessoal

Nutricionista formada, Letícia atualmente cursa medicina na Universidade Interamericana, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Além da carreira acadêmica, Letícia também é modelo e escritora. É autora das obras “Despertar da Alma” e “Propósito de Habacuque” e participa como coautora do livro “Mulheres Extraordinárias”.

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“Os principais desafios para mim são mostrar todos os dias que o meu diagnóstico e minhas limitações nunca irão definir os meus sonhos nem a minha capacidade de realizá-los”, afirma Letícia.

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