A revolução dos drones
Enquanto a Ucrânia transforma drones baratos em arma estratégica, o Brasil tenta construir sua própria soberania tecnológica
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Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, poucos analistas imaginavam que drones baratos se tornariam o centro gravitacional do conflito. O que se esperava era uma guerra rápida, decidida pela superioridade convencional do exército russo em tanques, artilharia e aviação. A realidade foi outra.
A partir de 2023, e com intensidade crescente em 2024 e 2025, a Ucrânia passou a atacar o interior do território russo com frotas de veículos aéreos não tripulados de baixíssimo custo. A Operação Teia de Aranha, em junho de 2025, é um exemplo preciso dessa transformação: 117 drones ucranianos atingiram cinco bases aéreas russas espalhadas por cinco fusos horários diferentes, incluindo instalações na Sibéria Oriental. Sistemas convencionais nunca teriam alcance geográfico semelhante ao mesmo custo. Em março de 2026, a Ucrânia lançou 7 mil drones em um único mês, número que revela não apenas uma tática militar nova, mas uma revolução industrial acontecendo em condições de guerra. É esse movimento que o Brasil precisa observar com atenção.
O que a experiência ucraniana demonstra é que dominar tecnologia de drones deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma condição de soberania. E o Brasil tem avançado nessa direção com resultados que merecem mais atenção do que costumam receber.
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No campo da aeronáutica, o exemplo mais recente e mais significativo é o Albatroz Vortex. Em dezembro de 2025, a Força Aérea Brasileira realizou o primeiro voo do drone na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Desenvolvido em parceria com a Stella Tecnologia e a Aero Concepts, com suporte técnico do Instituto de Aeronáutica e Espaço e financiamento da Finep, o equipamento carrega uma conquista específica que o torna relevante além do uso militar: a turbina a jato que o move é 100% fabricada no Brasil. Com autonomia de 24 horas, capacidade de 150 kg de carga e teto operacional de 12 mil metros, o Albatroz Vortex coloca o país em um grupo restrito, ao lado de Estados Unidos, Reino Unido, França, Israel e China, de nações que conseguem produzir, integrar e voar um drone militar movido por propulsão a jato inteiramente nacional.
Outro projeto de maior alcance estratégico é o 14-X, conduzido pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial em São José dos Campos. Trata-se de um veículo hipersônico que, em testes realizados na Base de Alcântara, já atingiu Mach 6 e que avança em direção ao Mach 10 com tecnologia scramjet desenvolvida inteiramente no Brasil. O projeto não produz um drone convencional, mas desenvolve capacidades de propulsão que podem redefinir o que o país consegue construir nas próximas décadas.
Na Marinha, o projeto Suppressor, conduzido pela Emgepron, desenvolve drones de superfície não tripulados com tecnologia nacional para operações navais, enquanto o Centro de Análises de Sistemas Navais avança nos testes de enxames de veículos autônomos. No Exército, 33 empresas brasileiras, de nove estados, apresentaram propostas para fabricar sistemas não tripulados, e o Instituto Militar de Engenharia lidera um projeto de controle por inteligência artificial aplicado a enxames de drones aéreos.
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O que falta, mais do que tecnologia ou empresas, é uma política industrial capaz de transformar esses avanços dispersos em uma cadeia produtiva integrada. A Ucrânia aprendeu essa lição da pior forma possível. O Brasil tem a chance de aprender a tempo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
