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Estudo mapeia as regiões mais suscetíveis à desertificação no Brasil

Risco tende a piorar devido às mudanças climáticas. Tecnologias já existentes podem evitar o fenômeno

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postado em 18/06/2015 08:50 / atualizado em 18/06/2015 09:00

Humberto Rezende /

Lunae Parracho/Reuters
 

Decisões tomadas nas próximas décadas serão fundamentais para definir a cor predominante do Nordeste brasileiro: o marrom da seca ou o verde das lavouras. Relatório produzido pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), prestes a ser lançado e ao qual o Estado de Minas teve acesso, aponta que a região deve sofrer com condições climáticas mais adversas que aumentarão o risco de desertificação de várias áreas. No entanto, o documento também lista uma série de tecnologias que vêm demonstrando resultados positivos e, caso sejam implementadas de maneira mais consistente, podem garantir a qualidade da terra.


A desertificação é o processo de empobrecimento do solo até o ponto em que ele não pode mais garantir a subsistência da população de determinado local. De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês), que elegeu o dia de ontem como a data mundial de combate ao problema, 42% da população global vivem nas chamadas terras secas, mais suscetíveis ao fenômeno. Trata-se de áreas submetidas à influência de climas áridos, semiáridos e subúmidos secos. No Brasil, compõem quase 15% do território.

Segundo Antônio Magalhães, assessor técnico do CGEE, organização social supervisionada pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o principal feito do estudo é delimitar com precisão inédita qual é a região brasileira suscetível à desertificação, o que serve de importante guia para as políticas públicas de prevenção. As terras secas brasileiras incluem parte de todos os estados nordestinos, mais o Norte de Minas Gerais e um pedaço do Espírito Santo. São 1.491 municípios e mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados. A Bahia é o estado com o maior número de municípios na área (291), seguida de Piauí (217) e Paraíba (209).

Foi possível, ainda, apontar as áreas que exigem mais atenção. Dados dos índices de chuva entre 1950 e 2012 mostram que são altamente vulneráveis à desertificação o Centro-Leste do Piauí, a quase totalidade do Ceará, o Norte da Bahia e o Centro-Oeste de Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. “Com as mudanças climáticas, essas áreas podem se tornar ainda mais suscetíveis”, alerta Magalhães, destacando um dos pontos do relatório.

Causas

O especialista ressalta, contudo, que o clima não deve ser responsabilizado pelo empobrecimento extremo do solo, que já se observa em alguns municípios nordestinos. “Enquanto a seca é um fenômeno climático, a desertificação é um fenômeno humano”, afirma Magalhães, que já presidiu o Comitê Científico da UNCCD. E o documento de quase 300 páginas mostra bem isso. Além de usar imagens fornecidas pelo satélite norte-americano Landsat 8, os 36 especialistas envolvidos no trabalho traçam um perfil sócio-econômico da região que ajuda a entender como certas práticas favorecem o problema.

Os pontos em que a caatinga, bioma característico do semiárido, já cedeu são aqueles em que o desmatamento avança para abrir espaço para a agricultura, produção de energia ou comércio de madeira. Com a falta de medidas para conter o processo de erosão dessa terra desnudada, o solo fica cada vez mais pobre, até entrar em colapso. A paisagem muda, com a substituição da vegetação de caatinga por uma típica de climas áridos, com predominância de cactáceas.

Combater o fenômeno, lembra Magalhães, depende fortemente da intermediação do Estado, pois envolve escolhas complexas. Ele dá um exemplo. Muitas das áreas onde o problema tem piorado apresentam uma grande produção de cerâmicas, atividade que retira seus recursos da natureza — o barro (retirado dos rios) e a madeira que alimenta os fornos (das árvores). A prática tem levado à desertificação, mas, se for simplesmente interrompida, deixará muitas famílias sem emprego nem renda. “É um dilema de longo prazo a ser enfrentado pelas políticas públicas”, resume.

Iniciativas

Felizmente, o problema não é inevitável. No próprio semiárido brasileiro, há iniciativas em andamento que se mostram eficientes e capazes de colorir de verde a região. O estudo lista 28 tecnologias que promovem a agricultura sustentável na região, como a adubação orgânica, que recupera a fertilidade da terra; a barragem subterrânea, que represa a água de córregos e riachos que se formam no inverno; e a bomba d’água popular, equipamento barato e de fácil manejo que ajuda a aproveitar a água rasa e com vazão pequena. Essas e outras técnicas reduzem a perda de solo e de água sem reduzir a produtividade. Assim, se implementadas em maior escala e de forma mais eficiente do que vem sendo feito, afirma o relatório, podem garantir, ao mesmo tempo, renda para os moradores e respeito ao meio ambiente.

 

Contribuição
Intitulado Estado da arte da desertificação, degradação da terra e seca no Semiárido brasileiro: mapeamento das áreas vulneráveis, tecnologias e experiências de recuperação, o relatório do CGEE é uma contribuição brasileira ao Panorama das Terras Secas da América Latina (Dryland Outlook), principal produto do Projeto de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável das Terras Secas da América Latina e Caribe (ÁridasLAC), coordenado pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal).

 

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