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Efeitos da luz solar sobre a pele continuam ativos horas após a exposição

O vilão desse processo, até então desconhecido, é uma substância sempre vista como protetora da pele: a melanina. A descoberta pode explicar melhor as causas do câncer de pele

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postado em 01/03/2015 09:20 / atualizado em 01/03/2015 09:28

Roberta Machado /

Os efeitos nocivos de um banho de sol continuam mesmo depois que você deixa a praia ou a piscina de casa ou do clube. Pesquisa publicada na revista Science revela que o dano causado pela radiação ultravioleta se prolonga por até três horas após a exposição à luz solar. E o vilão desse processo, até então desconhecido, é uma substância sempre vista como protetora da pele: a melanina. Cientistas norte-americanos e brasileiros responsáveis pela descoberta acreditam que as células que produzem o pigmento que ampara a pele dos raios ultravioleta sofre um processo químico tardio causado pelo sol e que gera mutações genéticas. O efeito, alerta o estudo, é o mesmo de processos que podem resultar no câncer de pele.

Até então, acreditava-se que a mutação causada pelo sol era imediata, deixando marcas no código genético da pessoa em uma fração de segundo. Assim que a radiação atinge a pele, ela causa mudanças nas bases do DNA que resultam em cópias defeituosas e que podem resultar na formação do melanoma (ver infografia). No entanto, os cientistas descobriram que os raios ultravioleta absorvidos pelos melanócitos (células produtoras da melanina) ativam enzimas que produzem oxigênio reativo e óxido nítrico, dando início a um processo químico demorado.

Pode levar horas até que as substâncias resultantes da exposição ao sol reajam entre si e produzam o peroxinitrito, uma fórmula capaz de quebrar a melanina e liberar sua energia diretamente na cadeia de DNA. O resultado mutagênico é o mesmo causado no momento em que a pele absorve os raios solares. “A mutação ocorre quando uma polimerase de DNA tenta copiar o DNA em que há o dano”, explica Douglas Brash, pesquisador da Universidade de Yale, líder do estudo.

O fenômeno que prolonga os efeitos do sol sobre a pele é chamado pelos cientistas de “fotoquímica no escuro”, e foi proposto pela primeira vez na década de 1970 por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e da Universidade de São Paulo (USP). Na época, o objeto de pesquisa era uma planta conhecida justamente por ficar sob a terra durante grande parte do seu desenvolvimento, mas produzia reações fotoquímicas como os vegetais expostos à luz. A reação chegou a ser comprovada na época, mas a fonte de energia que alimentava o processo permanece um mistério até hoje.

Etelvino Bechara, que na época trabalhou com os pioneiros da teoria – Emil White e Giuseppe Cilento –, também participou do novo estudo. Ele conta que, embora seja um fenômeno natural e tenha sido demonstrado em vários experimentos, a transferência de energia em uma reação química que simula o efeito da luz ainda não é completamente conhecida. “Este trabalho é a primeira demonstração inequívoca de que a fotoquímica no escuro é uma realidade”, diz o pesquisador, hoje professor do Instituto de Química da USP.

Para observar o efeito desse processo na melanina, os cientistas modificaram a pele de ratos para que eles mantivessem melanócitos na pele, assim como pessoas. Os animais foram então expostos aos raios UVA, e o nível de fotoprodutos causados no DNA das cobaias foi aferido. Os bichos voltaram a ser medidos duas horas depois da exposição à luz, e as mutações genéticas haviam triplicado. O processo foi colocado à prova também com células de pele humana, nas quais os resultados se repetiram. Quando testado em ratos albinos, o mesmo processo não ocorreu. Anteriormente, laboratórios haviam irradiado células e ratos com raios UV e notaram maior incidência de morte nas células contendo melanina do que nas células que não tinham o pigmento. Outros trabalhos chegaram a demonstrar que a radiação causava melanomas nas cobaias com melanina, mas essa foi a primeira vez que os efeitos da química do escuro sobre a substância foram demonstrados com seres vivos.

Alerta
A descoberta pode ajudar os médicos a compreenderem a relação dos raios UVA, considerados menos maléficos que os UVB, e o câncer de pele. “Há evidências de um papel do UVA no melanoma, mas, em alguns sistemas de modelos animais, a exposição somente a ele não levou à doença. Parece que o UVA pode estar, então, envolvido na evolução da enfermidade”, especula John-Stephen Taylor, pesquisador do Instituto de Química da Universidade de Washington, em St. Louis.

A fotoquímica no escuro ainda pode explicar a incidência de melanoma em partes da pele que não expostas à luz solar. A teoria é que a reação sofrida pela melanina também possa ocorrer de forma expontânea, mesmo sem a presença da radiação ultravioleta, por meio de algum processo bioquímico semelhante ao demonstrado pelos pesquisadores de Yale e da USP.

O artigo também levanta um novo alerta para os danos causados pela radiação solar à saúde, principalmente para as pessoas de pele mais escura. “As pessoas morenas têm mais proteção imediata. Mas elas acham que não têm de tomar cuidado nenhum, mas esse processo de longo prazo, do qual não se sabia, pode estar ocorrendo com elas”, afirma Camila Mano, pesquisadora brasileira que também participou da pesquisa. O estudo mostrou ainda que o risco de contrair o melanoma seria ainda maior para as pessoas ruivas, cujo tipo de melanina não protege do sol como a escura e é a mais sensível aos danos tardios. “Então depende da genética da pessoa”, aponta Mano. Os autores do trabalho levantam ainda a possibilidade de a descoberta gerar um novo tipo de protetor solar, equipado com componentes como o a-tocoferol, que bloqueia a fotoquímica da “ressaca” da exposição ao sol.
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