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Enterro de vampiros

Corpos dos séculos 17 e 18 revelam rituais de sepultamento de pessoas mortas-vivas

Medalhas de santos nos caixões e pedras na boca para impedir mordidas eram algumas das estratégias usadas

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postado em 07/12/2014 13:39 / atualizado em 07/12/2014 13:52

Paloma Oliveto /Correio Braziliense

Amy Scott / Divulgação
Durante dois séculos, o condado de Drawsko, na Polônia, foi assombrado por vampiros. Os moradores dessa cidadela rural localizada no nordeste do país europeu armaram-se da forma que podiam. Ao enterrarem as criaturas das trevas, certificavam-se de que elas não voltariam para assombrar o vilarejo, depositando medalhas santas nas sepulturas, colocando pedras pesadas sobre seus corpos ou pregando os cadáveres com barras de ferro.

A estratégia deu certo. Em 2008, os vampiros ainda jaziam em suas antigas covas. Foram descobertos por arqueólogos que escavavam um cemitério medieval. No meio dos trabalhos, eles se depararam com algo completamente inesperado: três corpos sujeitados a um tratamento post-mortem nada ortodoxo. Dois, pertencentes a adultos, tinham foices na região da garganta. O terceiro, de um jovem, havia sido amarrado e, em sua boca, os aldeões encerraram uma enorme pedra. Em uma terra onde o folclore dos mortos-vivos é extremamente arraigado, os pesquisadores não tiveram dúvidas: aquele era um enterro de vampiros.

“Entre 2008 e 2012, foram escavados 285 corpos em Drawsko, de todas as idades e sexos. Desses, pelo menos seis eram o que chamamos de ‘enterro de depravado’, ou seja, funerais que diferem do ritual padrão de uma determinada cultura. No caso do leste europeu, os enterros de depravados ocorriam, quase que exclusivamente, quando morria alguém que eles acreditavam correr risco de se tornar vampiro”, explica o antropólogo polonês Marek Polcyn, pesquisador da Universidade de Lakehead, no Canadá. Na revista Plos One, o especialista em cultura europeia pré-histórica e medieval publicou um artigo no qual analisa o contexto histórico do estranho rito de sepultamento daquelas pessoas.

Os seis esqueletos estudados, todos muito bem-preservados, haviam sido submetidos a diversos rituais. Um deles estava com uma foice na garganta e outro no abdômen — uma tentativa de remover a cabeça ou abrir o intestino caso tentassem sair da sepultura. Dois também tinham pedras sob as bochechas, provavelmente para bloquear a garganta ou evitar que mordessem vítimas. Em outra cova, há medalhas de São Benedito — muito associado à luta contra a malignidade — e moedas. Acreditava-se que esses objetos afastariam os espíritos ruins.

Polcyn conta que a noção de vampiros, já presente em culturas pagãs na antiguidade romana, grega e egípcia, alcançou o leste europeu por volta do século 11. O próprio termo “vampiro” tem origem provável em expressões usadas na região, como vampir e upir, usadas para designar depravados. Eram espíritos que reanimavam corpos e provocavam estragos entre os vivos. Também se usava a palavra para aqueles que, por motivos diversos, pareciam “em risco” de se tornar vampiros, depois de mortos. Essas eram as pessoas que recebiam os estranhos enterros.

Estrangeiros suspeitos “Particularmente, aqueles que eram marginalizados em vida, por terem uma aparência física estranha, praticarem bruxaria, morrerem primeiro durante epidemias de praga, cometerem suicídio, não terem sido batizados, nascerem fora do matrimônio ou não pertencerem àquela comunidade, eram os mais suscetíveis de serem considerados vampiros”, observa Polcyn. No caso do cemitério de Drawsko, acreditava-se que os corpos do período pós-medieval — foram datados como sendo dos séculos 17 ou 18 — eram de outsiders, afirma o pesquisador. Como não exibiam deformações ou sinais de terem sido vitimados pela praga, a explicação inicial para o rótulo de vampiro foi a de que, provavelmente, eram estrangeiros.

Por volta dos anos 1600, havia até 8 milhões de habitante na Wielkopolska (Grande Polônia), região geográfica onde fica o vilarejo rural de Drawsko. Boa parte dessa gente migrou para lá, fugindo de perseguição religiosa ou motivada por questões econômicas. Os grupos diversos se avolumavam desde o século 14, e foi esse influxo o responsável pela composição multiétnica da Polônia, composta por lativianos, ruterianos, tártaros e armênios. Além dos povos tipicamente do leste, alemães, holandeses e judeus de diversas partes do Velho Mundo migraram para o nordeste polonês, no fim do período medieval.

Não se sabe como a população de Drawsko lidou com as mudanças em sua identidade cultural, diz Polcyn. “Como os outsiders eram considerados mais suscetíveis ao vampirismo depois da morte, havia a hipótese de que as vítimas de rituais apotropaico (aqueles que visam afastar a malignidade) fossem imigrantes”, conta. Para validar essa teoria, a equipe de pesquisadores fez testes químicos, analisando os isótopos radiogênicos presentes nos dentes dos esqueletos. Esse material é usado amplamente em pesquisa arqueológica porque dá indícios do tipo de plantas e animais consumidos pelo indivíduo, permitindo, dessa forma, estimar a região geográfica da qual ele vinha.

Contudo, nenhum dos esqueletos avaliados exibiu sinais de ser de fora da Grande Polônia. Aquelas pessoas pertenciam à comunidade e outro motivo, além da desconfiança com estrangeiros, a deformação física ou a morte por uma epidemia está por trás da acusação de vampirismo. Provavelmente, jamais se saberá a razão. “Hoje sabemos que vampiros não existem, mas muitos estudos mostram que, por um bom período da história, as pessoas acreditavam neles”, observa o arqueólogo e antropólogo Matteo Borrini, da Universidade de Florença. Ele foi um dos cientistas italianos a analisar os vampiros de Veneza. “Muitos eram, na realidade, pessoas que não estavam de acordo com as regras sociais: de adúlteros a pagãos”, diz.

FALSAS EVIDÊNCIAS


Hoje, pode parecer inacreditável a crença em vampiros. Contudo, até o início do século 19, a medicina ainda engatinhava, e a prática forense era quase inexistente. A aparência dos corpos em decomposição poderia ser idêntica à do que se esperava de um vampiro. Com direito a dentes compridos, filetes de sangue na boca e até barulhos assustadores quando o coração era espetado pela estaca. Algumas vezes, quando exumados, os cadáveres estavam em perfeito estado de conservação.

No livro Vampire forensics (Vampirismo forense, tradução livre), o escritor Mark Collins Jenkins conta que nem sempre a decomposição do corpo ocorre como o esperado. Embora, geralmente, a putrefação comece no quinto dia após o enterro, isso pode variar muito, dependendo das condições locais, como calor e umidade, e da forma como o corpo foi preparado. Além do que, a maioria das exumações aconteciam pouco tempo depois da morte do suposto vampiro, já que bastava alguém morrer e um familiar ou vizinho ficar doente ou ter pesadelos com o defunto para que se suspeitasse do falecido.

Já os mortos enterrados em ambientes úmidos e pantanosos podem sofrer uma reação química natural, chamada saponificação ou adipocra, que impede a putrefação. Dessa forma, o cadáver não se decompõe, mesmo passados séculos. Uma outra explicação científica para a conservação de corpos é a coreificação, processo pelo qual a pele fica parecendo couro curtido, quando o morto é enterrado em um caixão de zinco.

Quanto à aparência dos dentes e ao fato de as unhas crescerem, isso é ilusório, afirma Jenkins. O que acontece é que a pele ao redor se contrai, fazendo com que os dentes, as unhas e os cabelos pareçam maiores. O barulho resultante da estaca enfiada no coração do “vampiro” é mais fácil ainda de explicar. “Martelar uma peça de madeira na cavidade peitoral de forma violenta pressiona os pulmões e força o ar para fora. Anormal seria se não se produzisse qualquer barulho”, diz o escritor. Já o filete de sangue perto da boca, sinal de que o vampiro saiu para se alimentar, é um fenômeno comum. O corpo em decomposição produz um fluido escuro que costuma escorrer pela cavidade oral ou pelas narinas. “Facilmente pode ser confundido com o sangue consumido por um vampiro”, constata Jenkins. (PO)
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