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Descoberto fóssil de dinossauro que se deslocava perfeitamente dentro d'água

Segundo paleontólogos, o espinossauro também foi o maior animal a viver no planeta há 95 milhões de anos

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postado em 12/09/2014 09:11 / atualizado em 12/09/2014 09:15

Paloma Oliveto /Correio Braziliense

REUTERS/Jim Bourg

Ele era uma criatura bizarra. Tinha o tamanho de um prédio de cinco andares — 15m —, pesava 20 toneladas — o dobro de uma baleia orca — e, cada vez que abria a boca, exibia 24 dentes afiadíssimos. Mas o mais estranho sobre esse dinossauro gigante que viveu 95 milhões de anos atrás onde hoje é o Marrocos, na África, é que ele sabia nadar.

Desde que o primeiro fóssil de dinossauro foi desenterrado, em 1842, muito já se descobriu sobre esses estranhos répteis que, erroneamente, receberam o título de “lagartos terríveis” do paleontólogo Richard Owen. Há dinos com chifre, dinos que voavam, dinos com pena, dinos grandes, dinos pequenos. Nunca, porém, se encontrou um animal desse grupo que fosse capaz de dar suas braçadas dentro d’água — muito embora diversos ossos já tenham sido escavados perto de rios e lagos.

Agora, os cientistas sabem que ao menos uma espécie era semiaquática, se saindo bem tanto na terra quanto na água. Trata-se do espinossauro, animal bem conhecido dos paleontólogos que até aparece no filme Jurassic Park III quebrando o pescoço do tiranossauro rex. Comedor de pterossauros (os répteis voadores), peixes e tubarões, esse animal costumava frequentar as margens dos rios e, até então, pensava-se que ele apenas entrava na parte rasa para pescar as presas. Sua faceta de nadador jamais foi conhecida.

O espinossauro não só era uma criatura excepcional, como a história da sua descoberta também tem nuances hollywoodianas. O primeiro espécime fóssil foi escavado em 1911 no Deserto do Saara, no Egito, pelo paleontólogo alemão Ernst Freiherr Stromer von Reichenbach. Em abril de 1944, porém, quando os aliados bombardearam Munique, na Segunda Guerra Mundial, os ossos foram destruídos. Do enorme dinossauro, sobraram apenas fotos, desenhos e notas tomadas por Stromer, guardadas em um castelo da família do paleontólogo, na Bavária.

“Nós tivemos de esperar quase 100 anos por um novo esqueleto”, contou, em uma coletiva de imprensa, o paleontólogo Paul Serino, da Universidade de Chicago. Com um grupo de pesquisadores, ele descreveu, na revista Science, a descoberta de um fóssil de espinossauro, desta vez, nas areias ferventes do Marrocos. O estudo morfológico revelou que, além de assombrar outros grandalhões na terra e mergulhar atrás de peixes, o maior dinossauro que já passou pelo planeta também sabia se deslocar perfeitamente nos ambientes aquáticos.

“Há importantes partes do esqueleto que não estavam presentes no primeiro fóssil”, observa Serino. Os cientistas fizeram comparações do fóssil com a valiosa documentação de Reichenbach. “A imagem que emergiu depois de juntarmos as peças do dinossauro a partir dos registros antigos e das reconstruções digitais é a de um gigante com diversas adaptações para um estilo de vida semiaquático”, diz o cientista. “Até agora, o espinossauro é o único dinossauro com essas adaptações.”
AFP PHOTO / Saul LOEB

Pés chatos

O Spinosaurus aegyptiacus era capaz, por exemplo, de retrair as narinas para o topo da cabeça, de forma a respirar tranquilamente enquanto nadava. Seus pés chatos provavelmente eram utilizados para o deslocamento subaquático. Os ossos pélvicos e os membros posteriores eram menores que de outras espécies semelhantes. Os cientistas explicam que o centro gravitacional do espinossauro parece ter sido deslocado para a parte traseira, de forma a facilitar o nado.

A reconstituição do animal mostra que ele tinha uma espécie de vela nas costas, com função semelhante à de uma embarcação. Além disso, os pesquisadores sugerem que o pescoço, a coluna e a cauda do dinossauro foram adaptados para seu deslizamento dentro d’água. “Juntas, essas características sugerem fortemente que o espinossauro é o primeiro dinossauro a passar uma quantidade significativa de tempo dentro da água”, observa Nizar Ibrahim, principal autor do artigo e paleontólogo da Universidade de Chicago.

AFP PHOTO / Saul LOEB

“O que nos surpreendeu muito foram as estranhas proporções dos membros do animal, mais semelhantes às de baleias primitivas do que às de dinossauros predadores”, observa Cristiano Dal Sasso, pesquisador do Museu Cívico de História Natural de Milão, na Itália, que também participou do estudo. “Nas últimas duas décadas, muitas descobertas demostraram que certos dinossauros deram origem a pássaros. O Spinosaurus representa um processo evolutivo igualmente bizarro, mostrando que dinossauros predadores se adaptaram à vida semiaquática e invadiram o sistema de rios do Cretáceo Norte-Africano”, diz.

Mas, diferentemente dos dinossauros que deram origem aos pássaros, aparentemente o espinossauro não deixou descendentes, sendo, até agora, o único dino nadador de que se tem notícia. Nenhum outro fóssil depois dele exibe características adaptativas semelhantes, sugerindo que a habilidade de um “lagarto terrível” se aventurar dentro d’água morreu com o espinossauro. O porquê disso ainda é um mistério.

 

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