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Droga contra ebola tem 100% de êxito em macacos

O ZMapp curou até mesmo as cobaias que apresentavam os sintomas da doença. A substância já foi usada em sete pessoas vítimas do surto que atinge a África Ocidental. Duas morreram

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postado em 31/08/2014 00:12 / atualizado em 31/08/2014 07:26

Roberta Machado /

Public Health Agency of Canada Divulgação


O remédio experimental contra o ebola usado em médicos que contraíram a doença na África Ocidental nos últimos meses passou com sucesso pelo teste com animais. O ZMapp, como é chamado o medicamento, foi testado em 18 macacos rhesus infectados pelo vírus e curou todos eles, até mesmo depois de as cobaias sofrerem os sintomas da contaminação. Descrito ontem no site da revista Nature, o experimento vai permitir que a droga seja testada em humanos no ano que vem, antes de receber a aprovação para ser produzido em larga escala. O surto infectou 3.069 pessoas e matou 1.552 desde dezembro do ano passado, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O ebola foi diagnosticado pela primeira vez em 1976, mas os cientistas ainda não conseguiram desenvolver a cura ou uma vacina reconhecida contra o vírus. A epidemia que atinge o Oeste do continente africano levou empresas farmacêuticas e consórcios internacionais a se unirem para acelerar as pesquisas na tentativa de conter a doença, que continua atravessando fronteiras. A droga testada agora em animais é resultado de oito anos de trabalho de dois times britânicos e norte-americanos que tentam desenvolver um coquetel com anticorpos capazes de barrar a multiplicação do vírus.

A variação do micro-organismo usado nesse experimento é diferente das três cepas detectadas no surto deste ano, mas os autores do estudo acreditam que a nova droga também seja eficiente contra elas. “Nós, na verdade, também testamos (a droga) contra a cepa que está circulando. Isso são dados preliminares, mas ele foi tão bem quanto (esse experimento), ou até melhor in vitro”, adianta Gary Kobinger, pesquisador da Agência de Saúde Pública do Canadá e um dos autores do estudo.

Os pesquisadores testaram o ZMapp em três grupos de macacos, em fases diferentes do desenvolvimento da doença: no terceiro, no quarto e no quinto dia de infecção. Todos os animais receberam novas doses do coquetel a cada três dias. Depois de três semanas, as cobaias não mostravam sinal do vírus, tampouco sofreram qualquer efeito colateral do tratamento.

A recuperação das cobaias mesmo depois de cinco dias de infecção anima os médicos. Nesse estágio da doença, explicam os pesquisadores, os bichos já sofrem os sintomas característicos do ebola e estão perto de sucumbir ao vírus (os bichos que não receberam o remédio morreram no oitavo dia da doença). Até então, testes com outras substâncias só conseguiram a mesma taxa de sucesso em um prazo de uma hora depois da infecção. Em humanos, o período para a manifestação dos sintomas varia de oito a 21 dias.

Mas especialistas alertam que a eficácia do medicamento ainda deve depender do tempo de resposta contra a doença. A evolução do ebola tem um estágio que os pesquisadores chamam de “ponto sem volta”, em que o sistema nervoso central e os órgãos do paciente estão danificados demais para se recuperar. “Às vezes, a doença está desencadeada, existem fenômenos de coagulação, um bloqueio do sistema imunológico do indivíduo. E, aí, tem medicação que é altamente eficaz contra o vírus, só que, pelo fato de o vírus estar naquela concentração no sangue do indivíduo, você não vai conseguir mudar o rumo da doença”, ressalta Luciano Goldani, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Três dias depois de decretar que a atual epidemia do ebola é uma emergência de saúde pública mundial, a OMS aprovou, no último dia 11, o uso de tratamentos não homologados, como o ZMapp, contra a fatal febre hemorrágica. Esse tipo de medida é considerado extremo e causa polêmica, pois envolve substâncias que ainda não tiveram a eficácia demonstrada em todas as fases de testes em animais e humanos (veja infográfico) e que ainda têm os efeitos colaterais desconhecidos.

Observação

O ZMapp foi usado em sete pessoas, o último deles o enfermeiro britânico William Pooley, que ainda está sob observação em Londres depois de contrair o vírus em Serra Leoa. Acredita-se que os dois pacientes que não sobreviveram ao tratamento, um médico liberiano e um padre espanhol, tenham recebido o medicamento em uma fase muito avançada da doença e em menos doses do que o necessário, já que a quantidade da substância disponível ainda é bastante escassa.

Mas não é possível atribuir a cura dos sobreviventes à ação da nova droga, pois a taxa de resistência ao atual surto do ebola é de 47% e a estimativa de especialistas é que os pacientes ganham mais 10% de chance quando são submetidos a uma terapia intensiva em clínicas especializadas. “Não existe tratamento contra o vírus. O que se faz é uma ação de suporte”, explica Alberto Chebabo, infectologista do Laboratório Exame. “Mantém-se a condição de vida do paciente para que o organismo produza anticorpos e combata o vírus. Se fica doente, tem vários comprometimentos ao organismo, necessidade de fazer diálise, suporte, reposição de sangue.”

A previsão é de que os experimentos usando ZMapp com pessoas comecem no ano que vem, ainda sem data definida para que a droga receba a aprovação final das agências de saúde. Mas, mesmo que o processo de pesquisa continue no ritmo acelerado, o prognóstico não é otimista para quem está sob o risco de contrair o vírus do ebola: enquanto a OMS estima que a doença pode atingir 20 mil pessoas, a capacidade de produção do medicamento ainda é extremamente reduzida, de 20 a 40 doses por mês.

Primeiro caso no Senegal

O surto do ebola chegou ao Senegal, depois que um estudante guineano trouxe o vírus do seu país natal. Ele foi internado em um hospital na capital Dakar após fugir da vigilância sanitária e entrar clandestinamente na nação vizinha. O Ministério da Saúde senegalês tenta descobrir se o jovem infectou alguém antes de ser diagnosticado com a doença. Esse é o quinto país a registrar casos da doença neste ano. Depois de surgir em Guiné, o vírus se espalhou por Serra Leoa, Nigéria e Libéria, onde fez mais vítimas até agora.

 Desde a semana passada, o Senegal baniu voos vindos das regiões afetadas pelo surto e fechou a fronteira com a Guiné. A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, na quinta, que esta foi a semana com o maior número de novas infecções pelo vírus desde que a epidemia começou. A agência ligada à ONU também anunciou as primeiras medidas do roteiro de resposta contra a doença, que inclui o investimento de US$ 490 milhões.

O guia avalia a situação dos países atingidos pela doença e inclui orientações para as nações próximas à região afetada pela epidemia e para aquelas que são centros de transporte internacionais. O surto ameaça chegar a Mali, Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim e Guiné-Bissau.

Tumulto

Guiné, que contabiliza 430 das 1.552 mortes registradas pela ONU no continente africano, foi cenário de um tumulto na noite da última quinta-feira. Moradores da cidade de Nervermore rebeleram-se depois da divulgação de rumores falsos de que profissionais de saúde da Cruz Vermelha haviam infectado pessoas com o vírus propositadamente. Homens armados com bastões e facas cercaram a cidade e ameaçaram atacar um hospital local até que forças de segurança chegaram para encerrar o tumulto.
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