A pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e empresas parceiras é uma adaptação de estudos que surgiram na Europa. "A França é o país onde essas técnicas estão mais desenvolvidas. Também temos avanços na Alemanha, Canadá e China", afirma o professor do Departamento de Tecnologia de Alimentos da UFV e um dos responsáveis pela pesquisa, Antônio Fernandes. Segundo ele, o leite é uma matéria-prima rica em nutrientes, como proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais. Porém, quando o alimento recebe um tratamento térmico para eliminar os micro-organismos, alguns desses nutrientes são comprometidos alterando até mesmo o sabor da bebida. "Nosso objetivo é entregar à população um leite idêntico a um leite cru, mas sem bactérias. A microfiltração nos deu essa chance", afirma o pesquisador.
A retirada das bactérias pela microfiltração é um procedimento que tem estreita ligação com o prazo de validade do produto. Enquanto no processo de pasteurização o leite de saquinho dura em média quatro ou cinco dias, o leite microfiltrado, que também é embalado em saquinho, tem prazo de validade de até 30 dias, conservado na geladeira. Já o leite esterilizado comercialmente, conhecido como longa vida ou UHT (ultra high temperature), dura normalmente seis meses. Os pesquisadores ainda não testaram o leite microfiltrado na embalagem longa vida, mas a expectativa é de que a validade nesse caso seja ainda maior, chegando aos dois anos. Esse é um dos pontos que mais empolgam a equipe de pesquisadores, já que o aumento do prazo de validade reduz o custo logístico do produto, o que já interessa várias empresas.
Como a legislação brasileira exige a pasteurização do leite ou processo equivalente que elimine a presença de germes patogênicos, para que o leite microfiltrado cru chegue ao consumidor será necessária uma mudança nas leis. Enquanto isso não ocorre, a alternativa usada pela UFV é a microfiltração seguida da pasteurização. "Na pasteurização não são eliminadas todas as bactérias. E os cadáveres dos micro-oganismos mortos ficam no leite e também contribuem para degradar o produto. Portanto, microfiltramos antes, tiramos todas as bactérias e células somáticas e depois pasteurizamos, mantendo o prazo de validade longo", afirma Antônio Fernandes. Várias companhias vão até Viçosa para receber cursos da nova técnica implementada pela UFV. Há seis meses a instituição começou a ministrar cursos, geralmente oferecidos mensalmente, mas nenhuma empresa chegou a lançar o leite microfiltrado pasteurizado nas prateleiras de supermercados. "Muitas estão namorando a ideia, mas ainda não lançaram", acrescenta o professor.
Derivados
Graças aos bons resultados das pesquisas com a microfiltração do leite, os estudiosos já estão envolvidos com uma nova etapa: o processamento dos derivados do leite microfiltrado. Assim como a qualidade do leite que passa pela separação de substâncias, seus derivados também têm uma qualidade melhor. A UFV já adiantou os testes com queijo e atestou que o sabor do produto é o mesmo uma semana depois de pronto, se processado com leite microfiltrado. "Se você pegar um queijo de minas frescal hoje e tirar um pedaço dele daqui a uma semana, vai ver que o sabor será diferente. Já com o queijo feito do leite microfiltrado isso não ocorre e o sabor permanece o mesmo", diz Fernandes.
A equipe de pesquisadores aguarda agora os resultados com outros dois derivados consumidos em larga escala no Brasil: o doce de leite e o leite em pó. De acordo com o professor Ítalo Perrone, que está à frente do trabalho com os derivados, os estudos já dão indícios de que a solubilidade do leite em pó final é maior quando o produto é obtido através do leite microfiltrado. "Já temos certeza de que o leite comum produz um leite em pó que dá mais trabalho na dissolução para os consumidores. São necessárias várias medidas para homogeneizar o produto totalmente dispensáveis quando usamos o leite microfiltrado. Basta misturar o produto à água e está pronto", afirma Perrone. A equipe ainda aguarda outros testes com doce de leite para comparar as diferenças entre os derivados usando os dois tipos de leite.
Produção no país e em Minas
Em 2010, o Brasil produziu pouco mais de 24 bilhões de litros de leite. Desse total, 6,7 bilhões de litros saíram de Minas Gerais, o que corresponde a 28% da produção nacional, maior percentual por estado do país. A quantidade de leite do tipo UHT em Minas superou em quase cinco vezes a produção do leite pasteurizado. O leite UHT, que é envasado nas caixinhas longa vida, é elevado a uma temperatura entre 135 graus e 140 graus durante 3 segundos. Já o leite pasteurizado, sobre uma temperatura de 75 graus por cerca de 15 segundos. O produto que é microfiltrado na Universidade Federal de Lavras (UFV) e depois pasteurizado chega aos 72 graus pelos mesmos 15 segundos.
Substâncias químicas no leite
Em outubro de 2007, a Polícia Federal desmantelou uma quadrilha acusada de adicionar ao leite longa vida integral substâncias químicas como soda cáustica, água oxigenada, ácido nítrico e citrato de sódio, com o objetivo de aumentar o prazo de validade dos produtos.
A operação batizada de Ouro Branco interditou duas cooperativas que comercializavam o leite: a Casmil, em Passos, no Sul de Minas, e a Coopervale, em Uberaba, no Triângulo Mineiro.
A constatação de um laboratório vinculado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento foi de que em cada litro de leite pelo menos 100ml eram de água, açúcar, sal, água oxigenada, soda cáustica, ácido nítrico e citrato de sódio. Em Uberaba, O Ministério Público Federal (MPF) denunciou 18 pessoas por crime contra a saúde pública e formação de quadrilha. Se somadas, as penas podem chegar a 11 anos de prisão. Em Passos, o MPF denunciou 29 pessoas por crime contra a saúde pública, crimes contra as relações de consumo, corrupção ativa e passiva e formação de quadrilha. A soma das penas pode variar entre 8 e 24 anos de prisão. Em junho deste ano, a PF deflagrou a Operação Ouro Branco II, dessa vez em Leopoldina, na Zona da Mata, e descobriu, com base em um laudo técnico do Ministério da Agricultura, que o leite produzido pela Cooperativa dos Produtores de Leite de Leopoldina tinha altos teores de sacarose, que não são encontrados na bebida, e cloretos, que são prejudiciais à qualidade do leite. Os responsáveis pela empresa foram indiciados e podem responder por crimes de adulteração e falsificação de substancias ou produto alimentício. A pena varia de 4 a 8 anos de reclusão.

