A hipertensão é uma das doenças mais comuns nos dias de hoje — estima-se que 1 bilhão de pessoas tenham o problema no mundo. Suas causas estão diretamente relacionadas à herança genética e aos hábitos de vida. Um grupo de pesquisadores chineses, porém, conseguiu mostrar que pode haver outro estopim para o desenvolvimento da patologia. Em um estudo divulgado na Circulation, revista da Associação Americana do Coração, eles descreveram a ligação entre o aumento da pressão arterial e a existência de um vírus com alta prevalência na população, o citomegalovírus. Embora a pesquisa aponte somente um indício da relação entre uma coisa e outra, os médicos acreditam que ela pode ser o primeiro passo para novas formas de tratamento.
O foco dos cientistas foi na chamada hipertensão primária ou essencial, que ocorre em cerca de 95% dos casos. O restante corresponde àquelas situações em que o indivíduo tem a pressão arterial aumentada por conta de outras doenças. “O discernimento entre esses dois tipos é fundamental, porque o primeiro não tem causas precisas e o segundo sim, sendo sanável por um tratamento específico”, explica Jun Cai, do Departamento de Cardiologia da Universidade Médica da Capital, em Pequim, um dos autores do estudo. A hipertensão primária é fator de risco para o enfarto, o acidente vascular cerebral (AVC) e o aneurisma, e é a principal responsável pela insuficiência renal crônica.
Para tentar desvendar os mecanismos que levam ao aumento da pressão arterial, Jun Cai e outros 18 pesquisadores chineses decidiram olhar mais a fundo os genomas de pessoas com a patologia e compará-los aos de voluntários saudáveis. Recolheram amostras de sangue de 13 pacientes hipertensos e de cinco sem a doença (veja infografia). Só que em vez de observar os genes que atuam diretamente na produção de proteínas nas células eles investigaram partes que, antigamente, eram desconsideradas pela ciência — os micro-RNAs. “Eles compõem uma nova classe de reguladores gênicos, que atuam no processo depois que a mensagem foi fabricada pelas proteínas”, esclarece José Eduardo Krieger, coordenador do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração da Universidade de São Paulo (USP).
Ao avaliar essa parte do genoma, a equipe chinesa identificou 27 micro-RNAs que foram expressos de forma diferente nos grupos pesquisados. “Surpreendentemente, encontramos o citomegalovírus humano codificado em um desses micro-RNAs, que foi altamente expresso nos pacientes hipertensos”, contou Jun Cai ao Estado de Minas. O mesmo estudo foi repetido com 194 pessoas com pressão alta e 97 voluntários saudáveis, confirmando a ligação. “Assim, esse achado indica que a presença do vírus pode estar relacionada à hipertensão”, reforçou. O citomegalovírus faz parte da família dos vírus da herpes e tem alta prevalência: de 60% a 100% das pessoas estão infectadas, a maioria delas sem manifestar qualquer sinal da patologia.
“A infecção se dá pelo contato com secreções corporais, como a lágrima, a saliva e o sêmen, geralmente depois do início da vida sexual”, detalha a infectologista Heloísa Ravagnani. O citomegalovírus é praticamente inofensivo para grande parte da população, causando problemas em cerca de 10% dos casos. “O grande risco é quando há transmissão vertical da mãe para o bebê, mas apenas se o contágio ocorreu durante a gravidez ou se a mãe já tinha o vírus e enfrentou alguma queda de imunidade”, diz Heloísa. Pacientes transplantados ou com doenças crônicas (como câncer e Aids) também precisam tomar cuidado com o citomegalovírus latente no organismo.
Outros povos Essa foi a primeira vez que uma equipe de cientistas conseguiu encontrar esse tipo de relação em uma doença considerada um mistério para a medicina. Embora os médicos saibam quais hábitos acarretam a hipertensão, o processo exato ainda é desconhecido. “Esse estudo abre uma nova linha de pesquisa, mostrando que o aumento da pressão arterial pode ter uma causa inflamatória”, comenta Carlos Albertoo Machado, diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Jun Cai, da Universidade Médica em Pequim, afirma que a ideia agora é fazer a mesma análise em grupos maiores, envolvendo pacientes de outras etnias.
“Nossas descobertas foram feitas em chineses hipertensos e não podem ser generalizadas para todas as populações, onde a taxa de infecção pelo citomegalovírus pode variar”, ressalva o pesquisador. Outro objetivo é detalhar como a presença do vírus pode levar à hipertensão. O citomegalovírus permanece na medula óssea e nos vasos sanguíneos, o que já dá algumas pistas sobre os mecanismos de ação. “A hipótese é de que a infecção nas células do endotélio vascular esteja provocando um aumento da expressão de citocinas inflamatórias (renina e angiotesina II), que estariam levando ao aumento da pressão arterial”, diz Jun Cai.
Cautela A descoberta chinesa pode ter dado novo fôlego às pesquisas nessa área, mas não indica que outros fatores responsáveis pela hipertensão devem ser esquecidos. “Tudo que vier para esclarecer as causas dessa doença é importante, mas há muitas evidências de que os hábitos também influenciam o desenvolvimento desse mal”, lembra o cardiologista Carlos Alberto Machado. Entre os principais problemas estão o estresse e a obesidade. “Quando a pessoa fica muito nervosa, acaba liberando substâncias que aumentam a frequência cardíaca (adrenalina, cortisol), e isso provoca a contração das artérias”, explica Machado. Nos obesos, o excesso de peso faz com que o coração tenha que trabalhar mais, provocando o aumento da pressão.
Outra grande preocupação dos cardiologistas é o abuso do sal, que aumenta a absorção de água e se deposita nos vasos sanguíneos. A Organização Mundial da Saúde recomenda o consumo de até 5g de cloreto de sódio por dia. No Brasil, onde há 32 milhões de hipertensos, a média diária é de três vezes esse limite (15g). Para tentar reverter esse quadro, a Sociedade Brasileira de Cardiologia quer que produtos industrializados com alto teor da substância venham com um alerta ao consumidor. “Canadá, Austrália e Inglaterra já conseguiram reduzir a presença do sal nas refeições e diminuíram a mortalidade por doenças cardíacas em 13%.”
O valor do
lixo genético
Quando o genoma humano foi sequenciado, em 2000, os pesquisadores encontraram 3 bilhões de pares de bases, que são como a receita do nosso código genético. Esses elementos são responsáveis pela produção das 20 mil a 25 mil proteínas que existem no organismo humano. Só que esses 3 bilhões de pares de base correspondem a apenas 3% do que existe no genoma. Até pouco tempo, os cientistas acreditavam que isso era o mais importante e que o resto seria como “lixo” genético.
Com o avanço das pesquisas, porém, descobriu-se que o RNA – a parte que lê as instruções do DNA, aquela receita das pares de bases – também é essencial para a definição de algumas características. Há um pequeno pedaço desse RNA, por isso chamado de micro-RNA, que atua diretamente na regulação da expressão gênica. Grosso modo, ele não codifica nada, mas age na proteína depois que ela foi fabricada. “Já são conhecidas algumas centenas dessas sequências, que fazem parte de um controle muito mais fino do organismo, envolvendo os processos”, diz José Eduardo Krieger, do Instituto do Coração
da USP.
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Chineses dizem que vírus pode causar hipertensão
Chineses descrevem ligação entre um vírus e o aumento da pressão arterial. Até agora, costumava-se decretar que apenas a genética, os hábitos de vida e outras doenças causavam o mal
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