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Cabral fica na prisão que construiu; governo nega regalias

Ex-governador do Rio divide cela pequena com ex-assessores e ex-secretários em Bangu 8, unidade do complexo penitenciário inaugurado em sua gestão.

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postado em 19/11/2016 06:00 / atualizado em 19/11/2016 09:07

Paulo Nogueira /Estado de Minas

De governador a presidiário. Dos bistrôs de Paris e dos seus imóveis e bens luxuosos para Bangu. Do caviar ao pão com manteiga. Do amplo apartamento no Leblon, que tem o metro quadrado mais caro do estado, para uma cela de nove metros quadrados, com chuveiro, pia e dispositivo sanitário no chão, ironicamente, no complexo penitenciário inaugurado por ele em seu governo. Em poucas horas, o ex-governador Sérgio Cabral Filho descobriu uma dura realidade, depois de ter sido o homem mais poderoso do Rio de Janeiro por duas vezes, entre 2007 e 2014. Preso na manhã de quinta-feira pela força-tarefa da Operação Lava-Jato, acusado de desviar R$ 224 milhões dos cofres públicos em organização criminosa que fraudou contratos de obras, Cabral teve a cabeça raspada depois de dar entrada em Bangu 8 na noite de quinta-feira.

Cabral fez um pedido ao entrar na cela que vai ocupar por tempo indeterminado em Bangu 8: escolheu dormir na cama de baixo de um dos beliches. Passou a primeira noite na prisão na companhia de cinco velhos conhecidos e, segundo o Ministério Público Federal (MPF), integrantes do mesmo esquema de corrupção. Estão no mesmo ambiente o ex-assessor Paulo Fernando Magalhães, os operadores Carlos Emanuel Miranda e José Orlando Rabelo, o ex-secretário de Obras Hudson Braga e Luiz Paulo Reis, apontado como laranja de Braga. Todos cumpriram o ritual de entrada no sistema carcerário e tiveram os cabelos raspados. A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) informou que não há determinação judicial para que os acusados fiquem em celas separadas.

Para passar o tempo, Cabral levou o livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, de Karen Armstrong. A obra, que analisa as origens do extremismo religioso nas três religiões, foi levada pelo ex-governador na mochila que carregou para o presídio. A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) negou que Cabral e o também ex-governador Anthony Garotinho, preso na quarta-feira, sob acusação de comprar votos na campanha eleitoral em Campos (RJ) e levado para o complexo de Bangu, estivessem sendo favorecidos por regalias. “Cabe ressaltar que a unidade é destinada a pessoas que possuem nível superior”, informou o órgão em nota. O cardápio de almoço e jantar contém arroz ou macarrão, feijão, farinha, carne branca ou vermelha (carne, peixe, frango), legumes, salada, sobremesa e refresco. “O desjejum é composto por pão com manteiga e café com leite. Já o lanche é um guaraná e pão com manteiga ou bolo”, segundo a nota.

“A Seap informa ainda que todos os internos do sistema penitenciário fluminense são tratados de forma igualitária, com direito a banho de sol, refeições e visitas após o cadastramento “ A secretaria informou que o “tamanho das celas são (sic) de acordo com o que determina a Lei de Execuções Penais”. A área mínima, segundo a legislação, é de 6 metros quadrados. Titular da Seap, o coronel Erir Ribeiro da Costa Filho também negou regalias aos dois ex-governadores. Segundo ele, as galerias não foram esvaziadas para a chegada de Cabral, como chegou a ser divulgado nas redes sociais. O cardápio é o mesmo dos outros presos. “Eu sigo as regras. Quem ingressa no sistema é tratado igual a cada um dos internos que já estão lá”, afirmou o secretário. Bangu 8 tem capacidade para receber 154 presos, e hoje tem 130.

No âmbito da Operação Lava-Jato de Curitiba, a força-tarefa do Ministério Público Federal investiga pagamento de vantagens indevidas a Sérgio Cabral, em decorrência do contrato celebrado entre a Andrade Gutierrez e a Petrobras, sobre as obras de terraplenagem no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Já a força-tarefa da Lava-Jato, no Rio, investiga corrupção na contratação de diversas obras conduzidas no governo do peemedebista, entre elas, a reforma do Maracanã para receber a Copa do Mundo de 2014, o PAC Favelas e o Arco Metropolitano, financiadas ou custeadas com recursos federais. De acordo com a Procuradoria, apura-se, que, além das empreiteiras Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia, outras construtoras consorciadas para a execução das obras também teriam feito pagamentos de valores solicitados a título de propina, em patamar preliminarmente estimado em R$ 224 milhões.

Responsável pela fiscalização no Complexo Penitenciário de Gericinó, a promotora Valeria Videira esteve na manhã de ontem no local para uma inspeção sigilosa com a Seap. “A promotora constatou que não procedem os boatos de que o ex-governador Sérgio Cabral tenha tratamento privilegiado em Bangu 8. O ex-governador Anthony Garotinho encontrava-se no Hospital Penal Hamilton Agostinho, também sem receber privilégios”, afirmou o MP em nota. (Com agências)
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