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Em Todos os Santos, a vez do evangélico

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postado em 01/11/2016 00:31 / atualizado em 01/11/2016 07:45

Agência Estado

Rio de Janeiro - No domingo, não deu praia. A ressaca que atingiu a Praia do Leblon, na zona sul do Rio, na madrugada de sexta-feira para sábado, trouxe toneladas de areia para o famoso calçadão. Enquanto funcionários da companhia de limpeza faziam o possível para liberar o passeio público, surfistas se arriscavam em ondas maiores. Ninguém parecia muito engajado na tal festa da democracia. Vez ou outra, vá lá, um atleta de fim de semana surgia com um adesivo do candidato do PSOL, Marcelo Freixo, no boné. Mas, interromper o cooper matinal para falar de eleições, nem pensar!

Sinais da campanha daquele que, horas mais tarde, seria eleito prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), não foram encontrados por lá. Nem em Ipanema nem em Copacabana nem no Leme.

De certo que para sentir a brisa da eleição municipal era preciso sair do conforto da zona sul e visitar os subúrbios cariocas. Melhor ainda, visitar o bairro que se destacou por apresentar um empate entre Crivella e Freixo no agora distante primeiro turno. Partimos então para Todos os Santos, na zona norte.

Os adesivos de Freixo colados no portão da vizinha não intimidam o analista de sistemas Pauliro Lima, de 62 anos. Com entonação de quem quer ser ouvido, ele avisou que "não vota em comunista" e que, "por gostar de dinheiro e de comer bem", prefere Crivella. Assim que Lima encerrou a sua performance, uma mulher sai da casa, tira um dos adesivos do portão e gruda no próprio peito. "Eu não dialogo com essa gente, não dou atenção. Só não vou deixar mexerem comigo", disse a secretária Laura Eveline, de 52 anos, em tom desafiador. Essa foi uma pequena amostra do clima no bairro que fechou o primeiro turno dividido entre o socialista (20,65%) e o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (20,22%).

Não há dúvida de que o equilíbrio nas urnas contaminou (ou desequilibrou) a relação entre os vizinhos - principalmente neste domingo, 30, dia derradeiro da eleição carioca. "No bairro, me chamam de maluca", afirmou a jornalista Fernanda Amorim, de 36 anos, eleitora de Freixo. "Com a vitória de Crivella, vou ter medo de apanhar nas ruas, nas ruas do bairro em que moro desde criança", alardeou.

Medo de represálias é uma coisa que a autônoma Valéria Mantuano, de 54 anos, não tem. "Meu pastor pediu para que eu votasse em um servo de Deus", confessou a eleitora de Crivella. "Não tenho medo de polêmica com vizinhos porque Deus está na direção e vai fazer o melhor para a cidade", completou. Neste segundo turno, o melhor para a cidade, segundo os moradores de Todos os Santos, foi escolher Crivella, com 51,15% dos votos válidos, contra 48,85% de Freixo.

O resultado apertado em Todos os Santos pode ser explicado pelo crescimento de uma classe média universitária em uma área de grande profusão de igrejas evangélicas. Além do "empate", uma vizinhança assim tão plural trouxe outra consequência: o voto nulo. "Aqui é muito dividido. Tenho conhecidos de todos os lados. Por isso, decidi dar um voto totalmente consciente. Exerci o direito de não escolher nenhum dos dois. Anulei", disse o aposentado Julio César Lima, de 64 anos.

A temperatura em Todos os Santos também acabou atingindo o bairro vizinho, Abolição. Foi lá que, em 1977, nasceu a primeira unidade da Igreja Universal. "Tenho parentes que são obreiras da igreja, sou amiga de muita gente lá, mas votei no Freixo. Acho que o voto nele foi o voto da esperança", disse a aposentada Anita Cardoso dos Santos, de 59 anos.

Em um bar quase colado a um templo da Universal, dois homens jogavam bilhar tranquilamente. "Eu não fui votar. Vou justificar. A Universal tem uma história aqui no bairro, mas não me senti inclinado a votar em ninguém", afirmou o comerciante Sérgio Luiz de Souza.

'Acabou a mamata'


Na catedral da Igreja Universal, em Del Castilho, na zona norte, a reportagem tentou ouvir o que pensava os fiéis da denominação evangélica que esteve no centro da disputa política da cidade. Na entrada do templo, a reportagem abordou uma eleitora que parecia disposta a conversar. Mas, em poucos segundos, uma mulher surgiu na calçada e interrompeu, abruptamente. "Não fale nada, senhora. O seu voto é secreto. Nós temos de nos precaver de tudo. Eles só querem prejudicar a igreja."

A reportagem não insistiu na tentativa de entrevista e atravessou a rua. Ainda assim, um homem que parecia ser uma espécie de segurança sacou um celular e começou a filmar. Logo, um grupo de fiéis que havia identificado o veículo do

Estado


começou a fazer o número "10" com as mãos e a repetir o nome do bispo-candidato (10 era o número de Crivella). "Acabou a mamata! Acabou a mamata!", gritaram - sem explicar de que "mamata" se tratava.

'Freixostop'


Em Laranjeiras, na zona sul, na Praça São Salvador, concentraram-se os apoiadores de Freixo. No meio de uma feira de artesanato, tradicional aos domingos, surgiam e mais bandeiras do PSOL e uma turma toda adesivada com o número do candidato - 50.

O clima era de uma festa triste. "Aqui é o 'Freixostop' (referência a Pokestops do aplicativo Pokemon Go). Aqui, as pessoas querem uma cidade mais inclusiva e justa. Infelizmente, com a eleição do Crivella, vamos retroceder", afirmou o estudante Mateus Lopes, de 19 anos.

"Eu não consigo entender como uma cidade tão solar, tão progressista e de vanguarda, pode escolher alguém como Crivella", disse a bancária Cláudia de Oliveira, de 50 anos. O Rio escolheu, sim, Crivella, com 59,36% dos votos válidos.
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