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Cientistas políticos avaliam divisão, cada vez mais acentuada, entre PT e PSDB

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postado em 26/10/2014 06:00 / atualizado em 26/10/2014 07:47

Jorge Macedo - especial para o EM

Bertha Maakaroun

O país está dividido. Em repetição a um padrão que se intensifica desde as eleições de 2006, petistas e tucanos – que há 20 anos polarizam a disputa política – voltam a pintar de vermelho e azul o mapa da distribuição de votos do país, segundo o impacto local dos programas de transferência de renda nas diferentes regiões do país. “Embora Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) sejam votados em todas as regiões, o melhor desempenho eleitoral de cada um, ou seja, aquele que está acima da média de votos que cada um tem no país, divide o território em redutos”, avalia a cientista política e pesquisadora Sônia Terron, coordenadora do grupo de Análise Espacial da América Latina (Alacip). As regiões Nordeste e Norte, inclusive Norte de Minas e o estado do Rio de Janeiro, são vermelhas. As regiões Sudeste e Sul, inclusive Sul de Minas e o estado de Goiás, são azuis. E há, no Centro-Oeste do país, uma zona neutra, onde a votação dos dois adversários se aproxima e as diferenças encolhem.

Beto Novaes/EM/D.A Press.
“Essa geografia econômica do voto é diferenciada regionalmente porque o impacto de um programa social sobre a economia do Nordeste é diferente do impacto do mesmo programa sobre a economia do Sul e Sudeste”, explica a pesquisadora em referência ao fato de que os benefícios nas regiões mais pobres do país, além de ajudar as famílias mais pobres, dinamizam as economias locais em proporção muito maior do que o fazem nas regiões mais ricas. Nesse sentido, essa análise da distribuição do voto está além da simplificação da divisão entre ricos e pobres. “O padrão do rico no Nordeste não é o mesmo padrão do rico no Sudeste”, afirma ela.

A partir das eleições presidenciais de 2006 verifica-se esse padrão na geografia do voto, que pouco se alterou com a entrada de Marina Silva (PSB) nas disputas de 2010 e de 2014. “A Marina apresentou uma votação maior do que tucanos e petistas apenas nos estados de Pernambuco e do Acre. Em todos os outros estados manteve-se o padrão da polarização entre o PSDB e o PT”, afirma Terron, acrescentando que, particularmente no caso de Pernambuco, esse desempenho deveu-se mais a um fator conjuntural: é a terra natal do ex-governador Eduardo Campos (PSB), morto em trágico acidente, a quem Marina Silva sucedeu na disputa presidencial.

Além dos territórios divididos, a dicotomia entre as classes mais “pobres” e mais “ricas” emerge na análise das pesquisas, quando o voto em Dilma e em Aécio é distribuído segundo as categorias de renda familiar, de escolaridade e de acesso aos itens de conforto doméstico. “A posição do eleitor na escala socioeconômica entrou claramente no processo político-eleitoral e passou a expressar, com muita clareza, a desigualdade social”, afirma o cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fábio Wanderley Reis. “Entre 2002 e 2014, a representação gráfica da distribuição da renda no país se transformou de uma pirâmide para uma espécie de ovo deitado. Ou seja, agora, o eleitorado é predominante da chamada classe média”, considera o cientista.

Nesse sentido, é alta a correlação entre intenção de voto e a posição socioeconômica: o apoio a Dilma cresce nas classes mais baixas; o inverso é verdadeiro para Aécio Neves, que tem melhor desempenho nas classes mais altas. A partir do segundo turno, a disputa entre ambos foi pela nova classe média – média baixa – e a classe média intermediária. “Essa questão da divisão da preferência dos eleitores pela classe socioeconômica tem projeção regional, que contrapõe Nordeste/Norte ao Sul/Sudeste. Há portanto um enfrentamento entre eleitores de estratos socioeconômicos baixo e alto, que se reproduz país afora”, afirma o cientista.

Reforma A polarização entre Nordeste/Norte e Sul/Sudeste, pobres e ricos, personificada nas candidaturas de Dilma Rousseff e de Aécio Neves, tem, para o cientista político, um aspecto positivo para a estrutura partidária brasileira. Extremamente fragmentada, há hoje 33 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em condições de concorrer aos cargos eletivos, entre os quais 28 conquistaram cadeiras na Câmara dos Deputados. “No eixo PT-PSDB que se mantém a partir de 1994 para as eleições presidenciais está a promessa de simplificação do sistema partidário brasileiro”, afirma Fábio Wanderley Reis. “No início desta eleição, indagava-se até que ponto essa polarização, que nasceu no lulismo, se projetaria em termos partidários e se manteria com a Dilma”, avalia o cientista.

Ao transportar para o Congresso Nacional a polarização entre tucanos e petistas que se manteve nestas eleições ao Palácio do Planalto, as duas legendas – ganhe quem ganhar – serão os núcleos da situação e da oposição, têm potencial para reduzir o que Fábio Wanderley Reis chama de “componente excessivamente pragmático e corruptor” , segundo ele encarnado no PMDB e pelas legendas de pequeno e médio partes que negociam e exigem cargos na máquina administrativa em troca de apoio político. “Em todos os governos, o PMDB e muitas dessas legendas menores sem plataforma jogam o presidencialismo de coalizão fazendo chantagem e exigindo cargos. Com o fortalecimento do PT e do PSDB pode-se imaginar uma reforma política que simplifique a estrutura partidária brasileira.”

Entre os 513 deputados eleitos, 304 são de partidos que formalizaram a coligação com Dilma Rousseff: PT (70), PMDB (66), PSD (37), PP (36), PR (34), PRB (21), PDT (19), PROS (11) e PCdoB (10). O alinhamento destes parlamentares não é automático, já que o fato de terem se coligado formalmente não significa que nos estados aderiram à candidatura petista. Em Minas, isso é particularmente verdade para o PSD, o PP, o PDT e o PR. Os partidos que formalizaram coligação com Aécio Neves, que são o PSDB, o PMN, o SD, o DEM, o PEN, o PTN, o PTB, o PTC e o PTdoB, somam 161 deputados federais eleitos. Há ainda o PSB, que elegeu 34 deputados federais e formalizou apoio ao tucano no segundo turno, o que em princípio eleva a base a 195 parlamentares.

Na prática, esses são os números de partida para a composição do apoio no Congresso Nacional. Ninguém duvida de que em nosso presidencialismo de coalizão, ganhe quem ganhar, poderá contar apenas que nas duas casas legislativas estarão petistas de um lado e tucanos do outro.
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