Protestos nas principais capitais do país colocam sistema político em xeque

Onda de protestos extrapola aumento das passagens e revela a insatisfação da população, organizada sem intermediários, com a forma como o poder é exercido no país, dizem analistas

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postado em 18/06/2013 00:12 / atualizado em 18/06/2013 07:51

Alessandra Mello

Gabriela Biló/Futura Press/ Folha Press

No começo o motivo era o aumento das tarifas e a péssima qualidade do transporte público. A insatisfação agora é geral. De governos à oposição, da esquerda à direita, e no país do futebol, nem mesmo a Copa escapa. Ontem, nas ruas de 11 capitais do Brasil, o que se viu foram manifestações contra tudo e contra todos. Os partidos que tentaram se apropriar das manifestações tiveram suas bandeiras rasgadas pelos manifestantes. Diante de tudo isso fica uma pergunta: o que está acontecendo?

Para a historiadora e cientista política Regina Helena Alves Silva, a onda de protestos revela uma insatisfação brutal da população com o sistema político vigente. “Andamos muito para a frente, mas deixamos muita coisa para trás. O salário melhorou, a economia também, mas o transporte continua péssimo, a saúde – particular e privada – não funciona, o acesso à escola foi ampliado, mas o ensino piorou. O Brasil virou um grande consenso. O partidos que estão no poder não se diferenciam. Por tudo isso, o povo rejeita sua participação nas manifestações”, analisa.

Outro fator importante, segundo ela, são as redes sociais. Por meio delas, destaca Regina Helena, professora na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as pessoas se organizam sem intermediários. E daqui pra frente? A historiadora não arrisca previsões. “Tudo vai depender da capacidade das pessoas de transformar esses movimentos em conquistas, de lutar de fato para mudar as coisas.”

Para o especialista em marketing político Gaudêncio Torquato, “a multidão caminha em direção aos palácios para dizer: ‘governantes, saiam da tocaia. Venham ouvir o grito das ruas. Não vamos agredir vocês’”. Sobre a tentativa de grupos políticos de se apropriar dos protestos ele foi tachativo. “Perguntam-me: quem vai se aproveitar de tudo isso? O povo. E quem se identificar com assepsia política, depuração de velhas práticas. O povo está, de certa forma, dizendo que é o mandatário-mor. A ele pertencem todos os mandatos. Apenas delega poder.”

Para o sociólogo Rudá Ricci, a riqueza dos protestos que se alastraram pelo país é a sua pluralidade. Segundo ele, na manifestação na capital mineira havia bandeira da Palestina, movimento de professores, policiais, estudantes, indignados com os gastos da Copa do Mundo, insatisfeitos com os governos municipais, estaduais e federal, revoltados com a qualidade e o preço da passagem pública. Para ele, todos esses protestos representam uma revolta com o sistema político como um todo. A rejeição aos partidos é um sinal claro, avalia, de que os canais de representação das legendas com a população estão entupidos.

“Jovem democracia” O pesquisador do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB) Leonardo Barreto acredita que o movimento que tomou conta das ruas brasileiras combina alguns fatores que são novos no país: jovens sem vinculação partidária com capacidade de mobilização social e a falta de preparo dos governos para lidar com a situação. “Daqui a um tempo, vamos nos lembrar destes dias como momentos importantes para a nossa jovem democracia”, declarou ele.

Para Barreto, há muito a mobilização deixou de questionar apenas o aumento nas tarifas de transporte coletivo. “É um movimento contra o Judiciário, que não consegue punir os políticos corruptos; contra o Legislativo, que mantém regalias históricas; e o Executivo, que não consegue atender as demandas da população”, enumerou.

Na opinião do pesquisador da UnB, outro fator contribui para complicar a situação: “A arrogância e o autismo dos governos, que não sabem ouvir, não sabem dialogar e não sabem receber os pedidos das pessoas”. Barreto acrescentou que, com o aumento da renda e da escolaridade da população, os cidadãos deixam de pedir apenas comida e passam a cobrar outras melhorias, como nos serviços públicos. (Colaborou Paulo de Tarso Lyra)
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