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Institutos de pesquisa operam com 50% dos funcionários

Agência Estado

Publicação: 27/01/2014 07:49 Atualização:

São Paulo, 27 - Aos 61 anos de idade, 37 deles dedicados à pesquisa científica, Yara Aiko Tabata já poderia estar aposentada desde 2010. Não se aposenta porque não quer ver sua pesquisa morrer. Ela é a única pesquisadora em atividade na Estação Experimental de Salmonicultura do Estado de São Paulo, responsável por um tradicional programa de pesquisa e reprodução de trutas em Campos do Jordão, nas montanhas do Vale do Paraíba. O único cientista que atuava ao lado dela - seu marido - morreu em junho de 2012.

“Já passou meu tempo de aposentadoria, mas não tem nenhum outro pesquisador aqui e não há perspectiva de reposição. É muito preocupante”, afirma Yara, médica veterinária desde 1975 e pesquisadora concursada do Estado desde 1976. “Não me aposento porque gosto muito do meu trabalho; fazemos das tripas coração aqui para que tudo funcione.”

Histórias como a de Yara podem ser ouvidas nos laboratórios, museus e campos de experimentação de quase todos os Institutos de Pesquisa (IPs) vinculados à administração direta do Estado. São 19 ao todo, subordinados a quatro secretarias (Agricultura, Meio Ambiente, Saúde e Planejamento). Entre eles, vários centros de referência em suas áreas, como o Instituto Agronômico de Campinas, o Instituto Biológico, o Florestal, o Geológico, o de Pesca, o de Botânica, o Adolfo Lutz, o Butantã e o Pasteur.

Juntos, eles têm cerca de 1,5 mil pesquisadores científicos em atividade, mas deveriam ter aproximadamente 2,2 mil. Mais de um quarto (28%) dos cargos de pesquisador estão vagos nos 19 IPs. Na soma de todas as carreiras, incluindo os cargos de apoio técnico e administrativo, os institutos estão operando com apenas metade, aproximadamente, do quadro de funcionários que deveriam ter, segundo dados compilados pela Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) e diretores dos IPs. A outra metade foi esvaziada ao longo dos últimos anos por aposentadorias, mortes, exonerações e perda de funcionários para outras instituições.

“Muita gente está se aposentando e essas vagas não estão sendo repostas”, diz o entomólogo Laerte Machado, pesquisador do Instituto Biológico e presidente da APqC. “Corremos o risco de um apagão científico.”

Esvaziamento

O intervalo médio entre um concurso público e outro para os institutos tem sido de dez anos, e o problema se agrava diariamente com o envelhecimento do corpo científico. Mais da metade (52%) dos cerca de 1.560 pesquisadores em atividade nos IPs tem entre 50 e 70 anos, o que significa que muitos estão próximos ou já com idade para se aposentar.

“É um cenário que preocupa. Corremos o risco de ficar sem pesquisadores em áreas de grande competência”, diz o agrônomo Orlando Melo de Castro, diretor da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), entidade guarda-chuva que congrega os seis institutos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento. Segundo ele, seria necessário preencher 100 vagas de pesquisador e mais de 200 vagas de apoio técnico para “dar uma ajeitada na casa”, o mais rápido possível.

Além das aposentadorias, há o problema da evasão. No Instituto Agronômico de Campinas (IAC), 36 dos 92 pesquisadores que foram contratados no último concurso (de 2003) já foram embora, além dos 53 que se aposentaram, morreram ou foram exonerados desde 2005.

“Perdemos muita gente para universidades, empresas e institutos federais, como Embrapa e Fiocruz, que oferecem salários mais atrativos e melhores condições de trabalho”, afirma Machado. “Muitos entram, ficam por um tempo, esperam abrir outro concurso e vão embora.”

Os cargos de Pesquisador Científico Nível 1 e 2, por exemplo, pagam menos (R$ 4,1 mil e R$ 5,5 mil) do que uma bolsa de pós-doutorado da Fapesp (R$ 5,9 mil). Nesse caso, a boa formação dos candidatos acaba favorecendo a evasão.

“A contratação para Nível 1 não exige nem mestrado, mas a maioria já chega com doutorado”, diz o diretor do IAC, Sergio Carbonell. Ele ressalta que o instituto continua produtivo, com 54 cultivares lançadas nos últimos dois anos, mas não esconde os problemas. Alguns programas de melhoramento estão sem especialistas, enquanto outros sobrevivem às custas de um ou dois pesquisadores - todos próximos de se aposentar. “Não é um instituto que está morrendo, mas precisamos de investimentos e contratações para continuar competitivos em algumas áreas”, diz.

Subordinado à Secretaria da Saúde, o Instituto Butantã é outro que sofre com a falta de funcionários. “Por enquanto, estamos dando conta de manter as coisas funcionando, mas a situação está começando a ficar crítica”, diz o diretor substituto, Marcelo de Franco. Segundo ele, o Butantã precisa “imediatamente” de 50 pesquisadores e 20 auxiliares técnicos de nível superior, só para garantir a realização de projetos já contratados na área de vacinas.

Orçamentos apertados, burocracia e falta de funcionários de apoio também deixam rombos na infraestrutura e nos serviços de vários IPs. A sede do Instituto de Pesca, em Santos, está sem serviço de limpeza desde outubro. Pesquisadores foram orientados a “conservar limpos seus locais de trabalho” e a “colaborar com o recolhimento do lixo de suas unidades”. As informações são do jornal

O Estado de S. Paulo.

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