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| Durante a manhã o clima foi de comoção e diversas velas foram acesas |
Vinte e dois anos depois de transformar os 215 degraus da Escadaria do Convento de Santa Tereza num intenso ponto de visitação turística, o pintor e ceramista chileno Jorge Selarón, de 65 anos, foi encontrado morto no local na manhã de ontem. O corpo apresentava marcas de queimadura, e ao lado havia uma lata de tíner – um solvente de tintas. Segundo vizinhos do artista, ele sofria de depressão e há cerca de dois meses se dizia incomodado com ameaças de morte feitas por um ex-colaborador de seu ateliê em Santa Teresa, bairro vizinho. A polícia, no entanto, não descarta a hipótese de suicídio.
“Ele dizia que não estava mais aguentando o sofrimento. O que eu posso dizer é que o Selarón mudou muito de dois meses para cá e estava recolhido, reprimido", disse Del Aquino, de 45 anos, vizinho do pintor. Por volta das 7h de ontem, o artista tomou café numa padaria na Lapa. Cerca de 15 minutos depois, vizinhos ouviram gritos de socorro na Rua Manoel Carneiro, na escadaria que liga a Lapa a Santa Teresa. “Fiquei com medo do barulho e não desci. Ouvi muitos gritos de um homem pedindo socorro e os cachorros latiam muito”, afirmou uma moradora.
Vizinhos mais próximos de Selarón, no entanto, dizem que os gritos foram de um acompanhante do artista que dormia no ateliê dele e foi um dos primeiros a chegar ao local. A administradora Lucineide Matos, 30, vizinha mais próxima do artista, disse que chegou a ver o corpo ainda em chamas. “A gente sentiu um cheiro de pano queimado e foi correndo à varanda para ver o que era. Quando eu vi ele ainda estava em chamas. Fiquei desesperada, chamei o rapaz que dava apoio de segurança para ele, que dormia no ateliê, mas ele já estava morto”, afirmou.
Por volta das 11h, o corpo foi removido pela perícia da Polícia Civil. As causas da morte ainda são investigadas pela Divisão de Homicídios do Rio. Nenhuma hipótese está descartada até o momento, de acordo com a polícia. Peritos encontraram um isqueiro no bolso da calça dele. Outra lata de tíner semelhante à que estava ao lado do corpo foi localizada no quarto do artista. Amigos dizem que o pintor não fumava ou usava drogas.
Em 24 de novembro do ano passado, o artista havia registrado queixa de ameaça na polícia, dizendo que o vizinho Paulo Sergio Rabello, ex-colaborador de seu ateliê, “não parava de ameaçá-lo”. Segundo a denúncia, o suspeito teria quebrado quadros do artista e mostrado um canivete para amedrontá-lo. Ele estaria exigindo os rendimentos obtidos com a venda de quadros do chileno depois que passou um período, em outubro do ano passado, tomando conta do ateliê dele. Na ocasião, o estrangeiro havia viajado com uma namorada para Parati (RJ).
Na ausência de Selarón, Paulo começou a se desentender com outros colaboradores do pintor, entre eles seu secretário, o argentino Cesar Gomez. Segundo Gomez, logo que o artista retornou, Paulo pediu que ele demitisse o próprio Gomez e outras duas pessoas. “Selarón disse que não faria aquilo de jeito algum e resolveu romper com Paulo. Ele disse então que se ele não ganharia mais dinheiro, Selarón também não ganharia mais nada”, afirmou o argentino.
Paulo Sérgio é irmão de Wilton Quintanilha Rebello, o Abelha, que cumpre pena por tráfico de drogas e roubo a banco numa penitenciária federal de segurança máxima. Ex-chefe do tráfico no Morro Santo Amaro, no Catete, Abelha também era apontado pela polícia como um dos responsáveis pelo controle da venda de drogas na Lapa, que passou a ser articulada por seu filho, Pablo Carlos Rebello, preso em dezembro de 2011 numa operação da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat).
Um amigo chileno que se identificou apenas como Loferato disse que chegou a avisar o consulado chileno sobre o caso. “A polícia não fez nada, nem o consulado. Não acredito que ele tenha se matado”, disse. Selarón iniciou sua obra na década de 90, quando decidiu se radicar na Lapa e instalar azulejos na escadaria. O efeito visual passou a atrair turistas do mundo todo, e o artista vendia seus quadros ali mesmo. Não à toa, muita gente a conhece como Escadaria Selarón. O lugar foi tombado pela prefeitura em 2005. (Com agências)
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