Ao menos três mulheres com mais de 60 anos deram à luz no País no último ano - duas nos últimos meses - depois de serem submetidas a procedimentos de reprodução assistida. Não há uma legislação que imponha um limite máximo para uma mulher gerar um filho no Brasil e nem há consenso entre os médicos.
O caso mais recente é de um casal de Santos: Antônia tem 61 anos e José César tem 58. Eles são casados há 25 anos e, na quarta-feira, ela deu à luz um casal de gêmeos: Sofia e Roberto. Os bebês nasceram aos sete meses de gestação e estão internados na UTI neonatal porque precisam de acompanhamento especializado: Sofia nasceu com pouco mais de 980 gramas e Roberto com 1,1 kg. Os dois respiram naturalmente, sem aparelhos.
José conta que procurou uma clínica especializada em Santos, mas o médico não quis assumir o caso. Ele decidiu então buscar um especialista em São Paulo, e o procedimento foi feito pelos irmãos Vicente e Soraya Abdelmassih, filhos do ex-médico Roger Abdelmassih. "Eles (os bebês) são duas riquezas. São lindos", diz o pai. Os médicos foram procurados, mas não responderam.
Legislação
A última resolução do Conselho Federal de Medicina sobre reprodução assistida não impõe um teto máximo para que uma mulher possa ser submetida a procedimentos de reprodução assistida (que inclui a inseminação artificial e a fertilização in vitro). A única restrição é sobre o número de embriões: mulheres com até 35 anos podem implantar até dois embriões; entre 36 e 39 anos podem implantar até três e com 40 anos ou mais podem receber até quatro embriões. Isso porque quanto mais velha a mulher, menor a chance de o procedimento ter sucesso.
"Temos que ter muita cautela nesses casos. Não é toda mulher dessa idade que pode engravidar", diz Julio Voget, especialista em reprodução humana, de Campinas. A gravidez nessa idade envolve mais riscos de doenças como diabetes gestacional e hipertensão. Para a criança, há risco de retardo do crescimento intrauterino e de parto prematuro. Por isso a mulher tem que estar em excelentes condições de saúde e o casal precisa estar ciente dos riscos de complicações.
"Também existe a questão ética quanto ao futuro do bebê", diz Voget. Segundo o especialista, cada caso deve ser avaliado individualmente levando em conta - além dos aspectos da saúde - as questões psíquicas, emocionais. "Se hoje os homens estão tendo filhos tardiamente, até depois dos 70 anos, por que as mulheres não poderiam? Se há possibilidade, se ela tem condições, por que negar esse direito a elas?", questiona ele, acrescentando que muitas vezes, nesses casos, a criança vai receber muito mais atenção e carinho do que muitos filhos de mães jovens que vivem relações desestruturadas.
As pessoas estão vivendo mais, se cuidando mais em termos de alimentação e atividade física. "Isso abre possibilidades para outras mulheres, não é que vai virar rotina, depende das condições", concorda o ginecologista Fernando Brandão, de Campinas. "A resposta a outras perguntas - como vai ser daqui a 20 anos - só o tempo vai dizer."
