Parte do problema está revelado. Dados oficiais apontam 220 mil curetagens feitas por ano na rede pública em função de abortos, ao custo de aproximadamente R$ 35 milhões. O índice revela ainda que, aos 40 anos, uma em cada cinco brasileiras já interrompeu ao menos uma gravidez na vida, metade delas com complicações. O percurso traçado desde o o início da gravidez, entretanto, ainda era um capítulo obscuro nesse tema tão polêmico para a sociedade. Estudo inédito, financiado pelo Ministério da Saúde, jogou luz sobre a questão, mostrando que mais de 63% das mulheres utilizaram exames de sangue e ultrassom para ter certeza da gestação. Isso indica que se submeteram a profissionais de saúde anunciando a suspeita da concepção não planejada. Esse contato, momento em que seria possível adotar uma política de redução de danos, não as impediu de optarem por formas inseguras para dar cabo da gravidez.
Do universo pesquisado, 71% das mulheres eram negras e 42% fizeram o primeiro procedimento antes dos 19 anos. Dessas, 54% já tinham filhos. Clínicas clandestinas e introdução de sondas no útero foram os métodos utilizados por 43% delas. Pouco mais da metade usou o misoprostol (princípio ativo do Cytotec) associado a chás e ervas. Quase 40% do total necessitou de internação devido a complicações. A presença de um marido ou namorado é proporcional à idade. No caso das mulheres mais jovens, só 39% contavam com um parceiro, enquanto entre as maiores de 21 anos, os homens estiveram presentes em 60% dos casos.
