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Oficinas de culinária para doentes mentais resgatam boas lembranças

Déa Januzzi - Estado de Minas

Publicação: 02/01/2011 11:40 Atualização:

Nas oficinas terapêuticas do Centro de Assistência Psicossocial de Ouro Preto, portadores de sofrimento mental aprendem a arte da culinária e a interagir com os colegas (Kako Nabuco/Divulgação )
Nas oficinas terapêuticas do Centro de Assistência Psicossocial de Ouro Preto, portadores de sofrimento mental aprendem a arte da culinária e a interagir com os colegas
Ela aprendeu a cozinhar com o mestre japonês Ryotan Tokuda, tornou-se a herdeira da culinária vibracional, que segue as estações do ano. Mas mal sabia cozinhar quando se mudou para Ouro Preto, em 1985. Iniciou suas pesquisas gastronômicas porque o marido, Kako Nabuco, era zen-budista e seguia a dieta vegetariana shojim, adotada nos mosteiros. Vânia Amaral, que mora no Morro de São Sebastião, aprendeu a cozinhar com os monges que viviam no Mosteiro Pico dos Raios, vizinhos à sua casa. Aprendeu sobre a comida remédio – ou yakuzen –, uma combinação de alimentos e ervas que curam. Já fez inúmeros banquetes do imperador em festas sofisticadas, com ingredientes como pó de ouro, nata de soja, entre outros, mas passou também pela cozinha mediterrânea e francesa. Acrescentou ingredientes regionais no contato com as vizinhas raizeiras, mas o verdadeiro prazer de cozinhar, a magia, ocorreu mesmo com as oficinas terapêuticas culinárias para os portadores de sofrimento mental do Centro de Assistência Psicossocial (CAP) de Ouro Preto.

Inicialmente voluntária, Vânia se deparou com pessoas em condições precárias. “Pensava como eles iam lidar com as facas, como picar os alimentos se estavam com as unhas grandes e sujas. Eram muitos obstáculos, mas, a partir da primeira experiência de fazer o pão com 18 deles, tudo se transformou. Na segunda aula, eles já apareceram com as unhas cortadas e limpas e mexiam com as facas como se sempre tivessem cortado e picado os alimentos. Descobri que a culinária é uma linguagem que permite a singularidade de cada um. É a linguagem do afeto. Entre o fazer e o comer há todo um aspecto lúdico e sensorial. Você brinca e logo eles se lembram de uma música da infância ou de um ingrediente usado por suas mães ou avós.”

Por ser uma atividade do cotidiano, a culinária ordena a mente. Ela se lembra de cada um dos portadores de sofrimento mental que passaram pela oficina terapêutica. “Alguns deles iniciaram o caminho e hoje se formaram, outros estão empregados, alguns morreram, mas chegamos mesmo a fazer banquetes sob encomenda”, diz.

O local das oficinas não podia ser mais apropriado: a Casa dos Artistas, na Chácara de Água Limpa já foi sede da casa onde viveu Diogo de Vasconcelos, onde ocorreram, na época, os primeiros banquetes em Minas Gerais. O casarão já foi palco também do encontro de artistas e sabores e conta-se que o proprietário dizia que a luz da casa nunca poderia se apagar, referindo-se ao fogão de lenha. “Foi nesse cenário que as oficinas de culinária ganharam mais brilho e conseguiram potencializar o que cada portador de sofrimento mental tinha de melhor.”

LEMBRANÇAS

Segundo Vânia, a experiência foi mágica. “Na culinária, você vai mexendo lá no fundinho e trazendo lembranças afetivas.” Ela lembra nomes como os de Adrianão, Rita, José Geraldo, que mexendo no fundo da panela conseguiram resgatar a própria dignidade. “As aulas proporcionaram a autoestima de cada um deles que estava jogada no lixo.”

É por isso que Vânia não fala em promoção da saúde, mas da felicidade, pois a culinária dá prazer. “É um trabalho coletivo, mas também de cada um que consegue forças renovadas para a inclusão na sociedade. Essas pessoas vivem numa espécie de bacia das almas, em meio à miséria humana, e se reergueram. Mostraram que era possível dar o melhor de si.”

Para Vânia Amaral foi enriquecedor. “Era uma alegria, porque tudo dava certo, desde fazer a massa do macarrão, cortar, secar, cozinhar e comer. Deu tão certo que passamos a produzir para a comunidade, o que espero que se repita agora em 2011 com a implantação da cozinha industrial na Casa dos Artistas.” Ninguém melhor do que Vânia para reconhecer que a culinária é capaz de promover a felicidade. Conhecedora da culinária vibracional, inspirada na medicina chinesa, ela aprendeu que cada estação do ano se relaciona a um órgão, um sabor e uma emoção quando os alimentos certos são ingeridos. E assim o paladar desperta sensações que estão armazenadas na memória afetiva de cada um.

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