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Fidel Castro, um líder multifacetado que marcou meio século

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postado em 26/11/2016 12:37

AFP /Agence France-Presse

Fidel Castro foi talvez o líder mais polêmico do último século, graças a uma personalidade multifacetada que provocava diversos tipos de reações.

Com uma vida repleta de símbolos e datas, ele faleceu no dia 25 de novembro, exatamente 60 anos depois de ter zarpado do México no iate Granma com 81 homens para derrotar a ditadura de Fulgencio Batista.

Quase 58 anos depois de seu triunfo com a revolução, 54 após a crise nuclear que quase explodiu durante a Guerra Fria e uma década depois de ter deixado o poder em consequência de uma doença, a morte de Fidel surpreendeu os cubanos e o mundo.

Em 2011, ele confessou que nunca pensou "viver tantos anos" e em abril passado afirmou, de modo premonitório: "Em breve serei como todos os demais. A todos chegará a nossa vez".

Venerado, odiado, influente, inimigo implacável, grande sedutor, sobrevivente. A AFP apresenta seis facetas do líder cubano.

- O estrategista -

Ele tinha 32 anos quando entrou de modo triunfal em Havana. O ano era 1959, tinha barba e estava de uniforme. Havia derrotado um exército de 80.000 homens com uma guerrilha que em seu pior momento teve apenas 12 homens e sete fuzis. Sem passado militar, Fidel Castro expulsou do poder o general e ditadorr Fulgencio Batista, uma aventura que havia começado com a fracassada tentativa de ataque de 1953 ao quartel Moncada.

Castro aplicou uma "doutrina militar própria" e conseguiu "transformar uma guerrilha em um poder paralelo, formado por guerrilha e organizações clandestinas e populares", disse à AFP Alí Rodríguez, ex-guerrilheiro e atual embaixador venezuelano em Cuba.

O líder cubano derrotou conspirações apoiadas pelos Estados Unidos e enviou 386.000 cubanos para lutar em Angola, Etiópia, Congo, Argélia e Síria. Ao longo e 40 anos (1958-2000) escapou de 634 complôs que almejavam seu assassinato, de acordo com Fabián Escalante, ex-chefe de inteligência cubano.

Ao jornalista Ignacio Ramonet confessou que quase sempre portava uma Browning com 15 balas.

"Oxalá todos possamos morrer de morte natural, não queremos que se adiante nem um segundo a hora da morte", afirmou em 1991.

- O sedutor -

"Fiquei tão impressionada! Não pude mais que olhar no seu rosto e dizer: 'O amo'". Mercedes González, uma cubana de 59 anos, viu apenas duas vezes de perto o líder cubano, mas não resistiu ao "efeito Fidel".

Seja pelo aspecto rude de guerrilheiro ou por seus discursos quilométricos - a maioria espontâneos porque gostava do "parto das ideias", segundo Salomón Susi, autor do Dicionário de Pensamentos de Fidel Castro -, Fidel fascinava as massas, as mulheres, os políticos ou artistas.

"Ele projeta uma imagem pública muito atrativa, um dom que também faz parte de sua lenda", afirmou Susi. Já afastado do poder, Fidel publicou uma série de reflexões sobre diversos temas. Mas o grande sedutor manteve em sigilo a vida privada: são conhecidos apenas dois casamentos e sete filhos com três mulheres.

"A vida privada, na minha opinião, não deve ser instrumento da publicidade, nem da política", disse em 1992.

- O inimigo -

"´É o homem do E: egoísta e egocêntrico". Assim definiu Fidel Castro a dissidente Martha Beatriz Roque, de 71 anos. Quem se opôs, disse, enfrentou "a prisão, as agressões e discursos de repúdio".

Castro comandou Cuba em um período em que 11 presidentes governaram os Estados Unidos. Seu irmão Raúl, que o sucedeu no poder, decidiu restabelecer relações diplomáticas com o rival da Guerra Fria no fim de 2014.

Castro governou com mão de ferro e durante anos (1990 e 2002) a ilha foi condenada internacionalmente pela Comissão de Direitos Humanos da ONU.

Em 1959, o governo de Fidel condenou a 20 anos de prisão o comandante de Sierra Maestra, Huber Matos, por insurgência. Na "primavera negra" de 2003 enviou para a prisão 75 dissidentes, incluindo Roque, e no mesmo ano foram fuzilados três cubanos que sequestraram uma lancha para fugir aos Estados Unidos.

Castro sempre ignorou os apelos internacionais por uma abertura política e considerava os opositores "mercenários". "Vou lembrar dele como um ditador", disse Roque.

- O mito -

Enquanto proclamava o triunfo da revolução em 1959, várias pombas voaram ao redor dele e uma pousou em seu ombro. A população entendeu isto como um sinal sobrenatural. O mito rondou a vida de Fidel.

Em um país onde o cristianismo se mistura com os cultos africanos, os cubanos atribuíam a Fidel a proteção do orixá Obatalá, o deus pais, o mais poderoso. Eles o consideravam o homem inabalável, que tinha uma solução para tudo, e acreditavam que era praticamente imortal, até que ficou doente em 2006. Apesar da gravidade do quadro de saúde, sobreviveu.

"Pode ser que seja tocado pelos deuses, como nós falamos tem axé (sorte e poder)", disse a especialista cubana em cultos africanos, Natalia Bolívar.

A figura paternal do "comandante", tão respeitada como temida, foi onipresente. Ele era visto em meio a um furacão ou ensinando a preparar pizza. Muitos acreditaram que se protegia com um colete à prova de balas. "Tenho um colete moral, é forte. Este sempre me protege", disse à imprensa durante uma viagem aos Estados Unidos em 1979.

Fidel dizia desprezar o culto à personalidade. Não há estátuas de sua figura, mas sua imagem se multiplica na ilha.

- O inspirador -

Um século XX sem Fidel Castro? Impossível de narrar. Nos anos 1960 apoiou guerrilhas na Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Uruguai e Venezuela; no fom dos anos 1990 adotou politicamente Hugo Chávez (falecido em 2013); e Cuba foi entre 2012 e 2016 anfitriã e mediadora do acordo de paz que acabou com meio século de luta armada na Colômbia.

A revolução de Fidel "acende a vontade de lutar, de ir para a montanha empunhar um fuzil para tentar mudar as coisas", disse Iván Márquez, número dois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)

"Obrigado Fidel por seu imenso amor pela Colômbia. Que o Acordo de Paz de Havana seja nossa última homenagem", escreveu Márquez no Twitter ao saber da morte.

"Com profunda dor, recebemos a notícia do falecimento do querido amigo e eterno companheiro, Comandante Fidel Castro Ruz.", disse o ex-guerrilheiro e presidente de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén.

"Se foi um grande, morreu Fidel", disse o presidente equatoriano Rafael Correa.

Fidel exportou ainda as missões médicas que ajudaram governos de esquerda. "É o personagem mais importante do século XX no hemisfério ocidental", disse Márquez.

- Quixote -

"Voltarão". Em 2001 Fidel Castro prometeu o retorno de cinco agentes presos pelos Estados Unidos três anos antes.

"Quando Fidel disse 'voltarão', disse ao povo cubano: 'Vocês os trarão de volta", afirmou à AFP René González, um dos cinco cubanos libertados por Washington entre 2011 e 2014.

González ilustra assim o poder do ex-presidente de contagiar o ânimo do povo cubano com suas ideias, por mais difíceis que parecessem em um primeiro momento.

Mas nem sempre o quixote caribenho venceu. Após um grande esforço, não conseguiu, como havia anunciado, produzir 10 milhões de toneladas de açúcar em 1970. Mas conseguiu que Cuba derrotasse o analfabetismo em apenas um ano (1961).

Também propôs transformar Cuba em uma "potência da medicina" quando existiam apenas 3.000 médicos no país. Hoje o país tem 88.000 especialistas, um para cada 640 habitantes.

Na ilha proliferaram os "planos Fidel", experiências frustradas para criar búfalos, ocas ou tornar Cuba um país produtor de queixos de qualidade, mesmo com o déficit de vacas.

Também não conseguiu que os Estados Unidos devolvessem o território de Guantánamo cedido há um século, mas conseguiu o retorno do então menino Elián González, retirado clandestinamente em um balsa por sua mãe, que morreu na tentativa de chegar a Miami e cuja custódia provocou uma grande batalha com os Estados Unidos.



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