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Fidel Castro, um ícone latino-americano e símbolo da resistência aos EUA

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postado em 26/11/2016 10:46

AFP /Agence France-Presse

Símbolo latino-americano da resistência aos Estados Unidos, Fidel Castro foi o líder histórico da revolução cubana que, 57 anos depois de conquistar o poder, sobrevive como um dos últimos regimes comunistas do mundo.

Último dos grandes protagonistas da Guerra Fria, Castro encarnou o desafio a Washington: o guerrilheiro de barba e uniforme verde oliva que instaurou um regime marxista-leninista a apenas 150 km da costa dos Estados Unidos e se aliou com o grande inimigo de Washington, a então União Soviética.

Com mão de ferro, Fidel Castro governou a ilha durante 47 anos e continuou como o líder máximo e guia ideológico do regime depois que ficou doente e entregou o comando ao irmão Raúl, cinco anos mais novo, em 31 de julho de 2006.

Fidel Castro entrou para a história em 1 de janeiro de 1959 quando, à frente de um exército de "barbudos", derrubou o ditador Fulgencio Batista, após 25 meses de luta nas montanhas de Sierra Maestra.

No mesmo dia teve início um pesadelo para Washington e uma era de polarização na América Latina, enquanto Cuba se transformava no laboratório de Fidel e na plataforma para sua projeção internacional.

Sob seu comando, Cuba protagonizou a crise dos mísseis, a mais grave da Guerra Fria, se transformou em um santuário da esquerda insurgente latino-americana envolvida em violentos conflitos armados com ditaduras militares e governos de direita apoiados pelos Estados Unidos, além de ter enviado suas tropas ao continente africano para defender o governo esquerdista de Angola contra as forças do apartheid sul-africano.

- O patriarca -

Fidel, chamado apenas pelo primeiro nome por seus partidários, comandou o destino dos cubanos, para alguns como um pai insubstituível e protetor, mas para outros como um chefe severo, com soberba e messiânico. Durante o seu regime nasceram 70% dos 11,1 milhões de habitantes da ila.

Os opositores sempre o consideraram um ditador implacável, que confiscou liberdades e propriedades, submeteu a população a crises econômicas e não admitiu o dissenso. Mais de 1,5 milhão de cubanos partiram para o exílio, sobretudo para Miami, Estados Unidos.

Para seus admiradores foi um paradigma de justiça social e solidariedade em relação ao Terceiro Mundo, que elevou Cuba ao grau de potência mundial no esporte, com níveis de saúde e educação elevados para os padrões da América Latina.

De personalidade excepcional, complexa e esmagadora, ninguém era indiferente a Fidel Castro.

Opositores na ilha e no exílio, e até mesmo alguns "fidelistas", traçam um retrato de contrastes: inteligente, ambicioso, audaz, voluntarista, corajoso e autoritário.

- O eterno guerrilheiro -

Nascido no vilarejo de Birán em 13 de agosto de 1926, o terceiro de sete filhos do imigrante espanhol Angel Castro - que virou proprietário de terras - e da camponesa cubana Lina Ruz.

Fidel forjou sua disciplina ao estudar em uma escola jesuíta e moldou sua rebeldia na Universidade de Havana, na qual foi admitido para estudar Direito em 1945. Formou-se advogado em 1950.

Ele iniciou a chama da revolução aos 26 anos, em 26 de julho de 1953, quando com pouco mais de 100 seguidores tentou tomar o controle da segunda fortaleza militar da ilha, o Quartel Moncada, em Santiago de Cuba.

Em seu discurso "A história me absolverá", que usou como defesa quando foi julgado pelo ataque a Moncada, mostrou a consciência que tinha do poder das palavras. Foi um orador incansável, com discursos quase infinitos.

Depois de sair da prisão em 1955, partiu para o exílio no México e retornou à ilha no comando de 82 homens, incluindo o argentino Ernesto Che Guevara e seu irmão Raúl, em um desembarque acidentado em 2 de dezembro de 1956 para iniciar a luta de guerrilha que terminou por derrubar Fulgencio Batista.

Sua história se confunde com a de seu regime. Sobreviveu à invasão da Baía dos Porcos organizada pela CIA em 1961, à crise dos mísseis soviéticos instalados na ilha com ogivas nucleares em 1962 e à desintegração, em 1991, da União Soviética, apoio militar, ideológico e econômico da ilha durante três décadas.

Uma dezena de presidentes americanos - de Dwight Eisenhower a George W. Bush - tentaram derrubá-lo ou asfixiar seu governo com um embargo econômico imposto em 1962, considerado "criminoso" por Havana, mas que segundo alguns críticos serviu a Fidel para justificar o fracasso econômico do regime, a repressão e a desqualificação dos dissidentes como "mercenários" de Washington.

De acordo com os serviços de Segurança de Cuba, 638 complôs para tentar assassinar Fidel Castro foram planejados, em sua maioria pela CIA.

Tudo mudou consideravelmente em 17 de dezembro de 2014, quando o presidente Barack Obama anunciou uma mudança na política americana em relação a Havana após 50 anos. O democrata reconheceu que as tentativas de isolar Cuba terminaram por isolar os Estados Unidos no continente.

Ao reagir publicamente ao anúncio histórico de Obama, em 26 de janeiro de 2015, Fidel afirmou que continuava desconfiado de seu velho inimigo, mas que não era contrário ao degelo: "Não confio na política dos Estados Unidos, nem troquei uma palavra com eles, sem que isto signifique, nem muito menos, uma rejeição a uma solução pacífica dos conflitos", escreveu.

Estados Unidos e Cuba restabeleceram laços diplomáticos em 2015.

- Encantador de serpentes -

Conspirador nato, teimoso e mestre na arte da estratégia, a emoção do risco foi o maior estímulo em sua vida. Em cada derrota ele viu uma vitória disfarçada. Era um péssimo perdedor.

Na juventude praticou natação, basquete, beisebol, pesca submarina e outros esportes. Com grande disciplina, em 1959 fumava meia caixa de charutos por dia, mas em 1985 parou de fumar para combater o tabagismo em um país tabagista por excelência.

Homem de ação, leitor voraz, com memória invejável, muito falante, notívago, Fidel Castro viveu intensamente e em relativa austeridade.

Até sua doença em julho de 2006 ele manteve um regime de trabalho alucinante, ocupado com os mínimos problemas domésticos da ilha e atento a qualquer movimentação do xadrez político internacional. Mas um desmaio em 2001 e uma queda em 2004 provocaram alertas sobre a saúde de um homem que era praticamente um mito, que muitos cubanos consideravam imortal.

Depois de chegar ao poder, ergueu um muro inexpugnável entre sua vida pública e privada. A imprensa sabe que teve oito filhos: o primogênito Fidelito, do casamento com Mirta Díaz-Balart; Alina Fernández e Jorge Angel, de outros dois relacionamentos; Alejandro, Antonio, Alexis, Alex e Angel, com Dalia Soto del Valle, que foi sua mulher por décadas até sua morte.

Muitos amores marcaram sua vida, mas ele afirmava que era tímido com as mulheres. Em um país bem humorado, musical e sensual, era pouco dado a piadas e não sabia dançar.

bur-fj/fp



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