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Negros abandonaram Hillary em Milwaukee

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postado em 22/11/2016 21:37

AFP /Agence France-Presse

Jovens desempregados, prateleiras vazias nas lojas e fachadas cobertas com tapumes desenham uma paisagem desoladora na Avenida Norte de Milwaukee, cidade onde os negros não apoiaram Hillary Clinton - como se esperava - e onde alguns chegaram, inclusive, a votar em Donald Trump.

Milwaukee é a maior cidade de Wisconsin, estado situado ao oeste do imenso lago Michigan. Também é a mais dividida do ponto de vista racial, segundo um estudo do censo de censo de 2010.

Território agrícola e outrora reduto industrial, Wisconsin é a maior surpresa da eleição presidencial de 2016. Ninguém imaginava que o estado votaria em Trump, a ponto de Hillary sequer ter pisado lá desde as prévias democratas. Para fazer campanha, enviou o marido, o ex-presidente Bill Clinton, ou a filha, Chelsea, em seu lugar.

"Provavelmente, pensou que tinha Wisconsin no bolso", disse Ronald Roberts, de 67, um negro de óculos grossos, ao sair do açougue "Bill the Butcher". O cartaz do estabelecimento está gasto pelo tempo.

"Não tem que achar que os eleitores estão garantidos, porque, então, ficarão em suas casas", continuou esse aposentado da indústria automotora.

Pesquisas de boca de urna apontam que foi exatamente isso que aconteceu. Os moradores que se cruzam por acaso nas ruas - por onde não passa um único branco - confirmam.

"Para mim, Hillary não é melhor do que Trump. Por isso, não votei nela", comentou Brittany Mays, uma jovem que trabalha em um instituto de beleza.

Subúrbios brancos

Na Avenida Norte, multiplicam-se os empreendimentos imobiliários vazios, que testemunham as falências, tornando a miséria, o abandono e a segregação visíveis. As casas com janelas protegidas evocam o marasmo financeiro de famílias que perderam tudo.

Entre 2008 e 2012, o presidente Barack Obama conseguiu unificar esse eleitorado tradicionalmente democrata. Embora Wisconsin tenha-se beneficiado de um impulso econômico após a Grande Recessão, os negros de Milwaukee ficaram fora dele.

"Tem muita gente por aí, sem trabalho. Não tem muito dinheiro circulando", acrescentou Ronald Roberts.

Praticamente todos os brancos de Milwaukee se mudaram para subúrbios ricos onde Trump liderou na campanha.

Os negros chegaram nos anos 1960, uma época na qual a idade de ouro da indústria começava a decair. Foram embora para o norte do centro da cidade, enquanto os hispânicos se mudaram para o sul.

Desde então, as divisões raciais se acentuaram. O índice de desemprego atual dos afro-americanos é o triplo do registrado entre os brancos, e os estudantes negros ostentam o triste recorde nacional de abandono escolar.

No condado de Milwaukee, mais de 50% dos negros com idades entre 30 e 40 anos estiveram presos, ficando, consequentemente, por muito tempo eliminados das listas eleitorais.

Uma recente lei estabeleceu que, para votar, deve-se apresentar um documento de identidade com foto. Segundo ONGs americanas, a medida tem como objetivo limitar o acesso das minorias à eleição presidencial.

"Em alguns casos, os eleitores foram rejeitados sem qualquer motivo", explicou à AFP Andrea Kaminski, da "Liga de Votantes Mujeres" de Wisconsin, uma associação que mobilizou 250 observadores no dia da eleição.

E há muitos outros que sequer foram votar.

'Nada para perder'

"Você não consegue nem contar o número de pessoas que nem mesmo tentou votar por causa da lei sobre o documento de identidade. Mas deve ser muito maior do que as pessoas que foram rejeitadas", comentou Andrea.

"Conheço gente que não tinha documento de identidade e que não pôde votar. Me parece injusto", afirmou Derricka Wesley, funcionária da rede de supermercados Walmart.

Arruinados pela droga, pela violência, pela queda dos preços do setor imobiliário e pelo desemprego, muitos moradores dos bairros do norte de Milwaukee perderam suas ilusões, conta LaTonya Johnson, uma negra eleita para um cargo local em Wisconsin.

"A sombria realidade é que eles não relacionam o voto com a melhora de suas condições de vida", explicou ela, acusando o republicano Donald Trump de ter minado ainda mais o ânimo da população.

"Trump não parou de falar da corrupção na política e de fraude na eleição, então, muita gente sentiu que seu voto não mudaria nada", completou.

Alguns até votaram no magnata republicano.

"Votei em Trump, porque acho que pode criar empregos. Ponto", resumiu Dennis Johnson, um caminhoneiro de 39 anos que começou a trabalhar aos 16.

"Ele disse: o que vocês têm a perder? Isso para mim, faz sentido", alegou.

"Olha, este país sobreviverá a quatro anos de Trump. Já sobrevivemos a oito de Obama e a oito de Bush", afirmou Johnson, referindo-se aos últimos presidentes americanos.



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