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Um olhar na zona de conflito

Mineiro dá aula de capoeira para refugiados na Jordânia

Natural de Várzea da Palma, Mestre Índio foi ao Campo de Azraq, Jordânia, para aproximar culturas e ensinar, a jovens refugiados sírios, a ginga e o jogo brasileiros

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postado em 29/03/2015 12:00 / atualizado em 29/03/2015 14:10

Túlio Santos

Túlio Santos/EM/D.A Press
 

Campo de Azraq (Jordânia) – Na primeira aula do dia, Mestre Índio se vale de cartazes. As letras das músicas em português são acompanhadas da transliteração em árabe. Nas adaptações, são encaixadas, entre paranauês e paranauás, frases como “eu vou-me embora para Síria, por que lá é meu lugar”. Segundo o mestre, é uma maneira de aproximar as culturas, tornando as letras mais familiares à realidade dos alunos.

VEJA FOTOS DA AULA DE CAPOEIRA

O capoeirista mineiro Carlos Roberto Gallo, de 52 anos, mais conhecido como Mestre Índio, diz que “capoeira não tem cor, não tem raça. Mestre Pastinha era mestiço”. Numa das aulas, no Campo de Azraq, na Jordânia, crianças e adolescentes, refugiados sírios, cantam em português brasileiro.

Músicas sobre sereias e marinheiros são cantadas com pronúncia impecável por garotas árabes veladas sem qualquer contato prévio com o idioma. Por vezes, o caminho é inverso. Sons como “xuê, xuá” são pronunciados em árabe como “shuaia, shuaia”, expressão que quer dizer devagar, de leve. O trocadilho arranca ainda mais sorrisos de algumas meninas. Cartazes mostram desenhos com bandeiras e cores da Síria rebelde. Num deles, um coração em lágrimas de sangue, em outros, desenhados por crianças menores, berimbaus, pandeiros e atabaques, instrumentos disputados durante as aulas. “A música é o combustível que move a capoeira”, define.

Túlio Santos/EM/D.A Press


A rotina de Mestre Índio, um dos fundadores da Associação de Capoeira Angola Dobrada, se repete há semanas. Junto à assistente, a capoeirista italiana Chiara Monzali, saem às 6h30, encarando manhãs frias, enquanto aguardam o carro que os levará por uma hora e meia pelo deserto, da capital da Jordânia, Amã, rumo ao campo de refugiados sírios em Azraq, 100 quilômetros a leste. No trajeto diário, na única parada, na mesma venda à beira da rodovia, abastecem-se de falafel. “No campo, o mercado é longe”, explica Chiara.

Os dois são voluntários em um projeto da ONG britânica Bidna Capoeira (Queremos Capoeira, em árabe), que, desde 2007, realiza atividades com crianças e jovens em áreas de conflito, utilizando a arte brasileira como ferramenta de desenvolvimento psicossocial. Em Azraq, há pouco menos de um ano, foi aberto o mais novo campo de refugiados do Oriente Médio. Mestre Índio é o primeiro instrutor brasileiro. “Na Capoeira Angola é muito forte o aspecto social, da interação. Acredito que isso pode ajudar”, aposta.



São três aulas por dia, duas pela manhã e uma à tarde. É a primeira temporada que Mestre Índio e sua assistente trabalham no Oriente Médio e em um campo de refugiados. Chiara, que deixou de lado o emprego numa agência de design gráfico para auxiliar no projeto, afirma que, apesar da presença de um tradutor, a língua é um obstáculo. “Por outro lado”, acrescenta ela, “a troca se dá a nível de emoção, e o que passam é muito puro.”

A atenção dos alunos nas rodas da capoeira é por vezes interrompida pelo som dos voos rasantes de aviões de caça. As crianças correm para as janelas, tentando acompanhar com os olhos as aeronaves que se movem a jato entre as nuvens. A 15 minutos de carro dali, fica a base aérea de Muwaffaq Salti. “Estão aprendendo numa situação de guerra. Aprendem muito rápido”, afirma o instrutor.

Túlio Santos/EM/D.A Press
A guerra civil na vizinha Síria já se arrasta pelo quinto ano. Dados de março do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) informam que dos 3.940.117 refugiados sírios registrados, 627.295 se abrigaram na Jordânia, representando quase 10% da população de 6,5 milhões do país.

No Campo de Azraq vivem atualmente 17.114 pessoas, dividas em vilas planejadas, na tentativa de agrupar juntas famílias vindas da mesma região. A maior queixa dos assentados é o isolamento. Quem chega ao campo não pode deixá-lo, sob a pena de perder os benefícios de refugiado concedido pelas Nações Unidas.

“O campo é uma prisão. É uma vida como na senzala. Só que na senzala os escravos ainda trabalhavam cortando cana No campo não há nada. E o trabalho dignifica”, diz o capoeirista. “E o que você está levando para eles é uma liberdade corporal, para tentar fortalecer a alma, porque o corpo tá ali, preso”, acrescenta. Se para as crianças existem diversas atividades, para os adultos só resta a espera “Você vê a tristeza nos homens e nas mulheres. E agora? Adultos passam os dias sentados, conversando”, descreve.

Mestre Índio garante que a experiência é positiva e “é forte”. “Se eu pudesse, tocava o trabalho por muito tempo”, afirma. “Percebi o que estava ocorrendo aqui quando vi garotos fora das aulas, batendo palmas pelas ruas do campo, cantando músicas de capoeira. A capoeira entrou no Campo de Azraq e é um privilégio fazer parte disso.”

De Minas para o mundo

Aos 12 anos, não era chamado de Mestre Índio, mas Carlos Roberto Gallo já jogava capoeira. Foi quando saiu de Várzea da Palma, região de Pirapora, Norte de Minas, para morar na capital, Belo Horizonte. Aos 14, saiu de casa, mostrando trabalhos como artesão em calçadas e praças das cidades por onde passava. Aos 16, saiu do país pela primeira vez, atravessando a fronteira com a Bolívia. Todo esse tempo, porém, manteve contato com a família. Aos 21, chegou à Europa como capoeirista, onde morou e trabalhou. Alemanha, Suíça, Holanda, Suécia e Itália. Conheceu a Índia e o Nepal. Voluntário na Amazônia, trabalhou com crianças de comunidades ribeirinhas e quilombolas. Ao todo, foram uns 25 anos na estrada.

Mas Mestre Índio tem uma filha de 14 anos. Retornou ao Brasil. Depois de uns meses em Belo Horizonte, estabeleceu-se na pequena São Gonçalo do Rio das Pedras, distrito do Serro (Região Central de Minas Gerais). Lá, desenvolve trabalhos de alquimia e espargiria, manipula plantas, ministra cursos e atende, de graça, à comunidade local. “Moro na roça e posso dispor de alguns meses para esse trabalho com os refugiados. Para mim, me interessa mais do que uma oficina de capoeira paga na Europa.” (TS)

Túlio Santos/EM/D.A Press

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