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Estado de Minas

Encontro nacional no cerrado do Sul de Minas reúne amantes do mato

Reunião nacional de sobrevivencialistas elege cerrado no Sul de Minas para desafiar dificuldades, compartilhando técnicas entre escaladas e áreas de mata, com direito até a pedido de casamento


postado em 30/07/2017 06:00 / atualizado em 30/07/2017 07:38

Durante cinco dias, 13 homens e uma mulher seguiram trilhas pela Serra da Canastra, dividindo experiências para enfrentar dificuldades(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Durante cinco dias, 13 homens e uma mulher seguiram trilhas pela Serra da Canastra, dividindo experiências para enfrentar dificuldades (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

Delfinópolis e Pratápolis – As roupas camufladas, mochilas cargueiras e chapéus fazem com que a marcha de uma fileira de 14 pessoas por área de mata e montes rochosos lembre um deslocamento militar.

Mas essa impressão se esvai quando sobe o cheiro do fumo nos cigarros de palha, do café mateiro e do bacon estalando nas fogueiras entre pedras.

Os 13 homens e uma mulher integraram uma grande reunião nacional de mateiros, que entre os dias 20 e 24 deste mês se encontraram na Serra da Canastra, entre Pratápolis e Delfinópolis, no Sul de Minas, para trocar técnicas de vivência selvagem, acampamento e rastreamento, além de identificação de animais e plantas.

Chamado de “União Mateira”, o encontro reuniu uma profusão de sotaques que comprovou a diversidade dos participantes, com modos e falas típicas do Centro-Oeste ao Sul de Minas e das regiões de Bauru, Sorocaba, Campinas e São José dos Campos, em São Paulo.

A equipe do Estado de Minas acompanhou o encontro, que como qualquer reunião de pessoas que gostam do mato contou com longos deslocamentos em trilhas por cerca de 60 quilômetros, passando por 13 cachoeiras, ribeirões, matas ciliares, campos rupestres, montanhas e fazendas, e com direito a uma surpresa no fim: o pedido de casamento de uma dupla que venceu o último obstáculo dessa etapa dos desafios e se sente pronta para os próximos.

Depois de horas de caminhada, parada em uma das inúmeras cachoeiras do percurso que serve para reabastecer cantis e renovar o ânimo(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Depois de horas de caminhada, parada em uma das inúmeras cachoeiras do percurso que serve para reabastecer cantis e renovar o ânimo (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

Quem puxou a fila pelas trilhas da serra com formato de baú rochoso foi o organizador do encontro, Fábio Ceribelli, de 40 anos, morador de Pratápolis e que conhece muito bem os caminhos da Canastra. “A ideia é unir os sobrevivencialistas do Brasil.

Atualmente, somos desunidos, porque se cobra por tudo o que queremos fazer. Se eu ensino algo aqui, por outro lado, aprendo também. Então não dá para cobrar. Por isso é um evento aberto e gratuito, que teve procura de mais de 200 pessoas. Porém, desta vez só pudemos fechar com 20, sendo que seis faltaram”, conta.

Sobrevivencialistas são pessoas que têm como filosofia a aquisição de conhecimentos, técnicas, equipamentos e preparações que permitem sobreviver em casos de tragédias ou emergências, sem para isso depender do poder público.

No encontro, o perfil era de mateiros – pessoas que desenvolvem técnicas para ambientes selvagens ou rurais. Participaram ex-militares, agentes de segurança pública, caseiros e boiadeiros, mas também entusiastas da área e novatos com pouca experiência.

Duas estruturas de camping no caminho das trilhas em Delfinópolis foram os últimos contatos com a civilização. A marcha do grupo se destacava nesse caminho, porque os componentes exibiam facões nas cinturas e vestimentas que pareciam de combate, bem diferentes dos turistas com roupas leves que curtiam as cachoeiras no Camping Claro Casa de Pedra, ou das famílias à vontade no restaurante e nas atrações aquáticas da Pousada Cachoeira Paraíso.

Nesta última, por exemplo, foram oito cachoeiras no caminho dos aventureiros, que aproveitaram para se banhar e abastecer os cantis. Para os olhos destreinados, a mata de cerrado por onde os cursos das cachoeiras serpenteiam parece comum. Mas para os mateiros mais experientes, aquele é um tesouro natural de beleza singular, onde brotos de orquídeas despontam camuflados entre os galhos das árvores, ganhando fôlego para em alguns meses desabrochar.

A Cachoeira do Triângulo, com suas sucessivas quedas d’água de um paredão de 32 metros, é a despedida da parte puramente contemplativa da expedição na Canastra, separando os turistas dos mateiros, já que a formação precisa ser escalada para alcançar as trilhas selvagens.

Um dos participantes que ajudavam a dar as instruções para a subida era o adestrador de cães Arquimedes Garrido, de 50, natural de Limeira (SP). A missão de vencer a muralha de pedras cinzentas e fraturadas foi cumprida por várias vias, com alguns escaladores mais experientes usando as fissuras nas rochas para encaixar seus pés e mãos, enquanto outros tiveram o auxílio de cordas.

Subidas pelo caminho não faltaram, com variados graus de dificuldade, uma oportunidade para o aprendizado de diferentes formas de avançar(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Subidas pelo caminho não faltaram, com variados graus de dificuldade, uma oportunidade para o aprendizado de diferentes formas de avançar (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

“Esta é uma excelente oportunidade para passar conhecimentos e aprimorar técnicas também. Muita gente é ensinada a fazer a operação de um jeito nas Forças Armadas, por exemplo, mas vem aqui para o encontro e aprende uma forma diferente e melhor para uma situação específica”, destacou Arquimedes.

Do alto da cachoeira, o grupo avança num espiral de curvas por três quilômetros até o primeiro topo, com 1.220 metros, um mirante de ventos rápidos de onde se enxerga, finalmente, as escarpas da formação da Serra da Babilônia, um dos mais desafiadores obstáculos da Canastra.

Mas o último desafio do primeiro dia do encontro ainda estava por vir. Foi preciso descer 1,6 quilômetro numa garganta com desnível de 260 metros e entrar numa mata ciliar, pois o acampamento seria dentro da mata fechada.

A navegação foi extremamente lenta e difícil nesse ambiente vedado por árvores, arbustos, cipós, touceiras de espinhos, teias de aranhas, troncos caídos e sulcos abertos por enxurradas.

Na parte mais íngreme, com quase 90 graus, foi preciso duas técnicas de descida. A primeira foi o descarregamento de todas as mochilas na parte mais alta, seguida da disposição de cada componente ao longo da pirambeira, ancorando-se como podia, com os pés fincados nos barrancos ou abraçado à vegetação.

Cada mochila foi então descida pela fileira de pessoas, até a última. Depois, para prosseguir foi necessário desenrolar uma corda na encosta e do uso de técnicas de rapel.

O esforço foi compensado, pois no fundo do vale a mata escondia um córrego de águas cristalinas e gélidas, que serviu para abastecer os cantis e também para o banho. Para dormir, cada um encontrou um espaço na outra margem do riacho, dependurando redes entre as árvores ou limpando a área de mata fechada para armar barracas.

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