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Estado de Minas

Surto de febre amarela provoca corrida por vacinas no interior de Minas

Secretaria de Saúde investiga 23 casos suspeitos da doença, com 14 mortes, em quatro regiões do estado


postado em 10/01/2017 06:00 / atualizado em 10/01/2017 10:58

Moradores de Caratinga fazem fila para se vacinar contra a febre amarela: suspeita é de contaminação do tipo silvestre da doença(foto: Prefeitura de Caratinga/Divulgação)
Moradores de Caratinga fazem fila para se vacinar contra a febre amarela: suspeita é de contaminação do tipo silvestre da doença (foto: Prefeitura de Caratinga/Divulgação)

Depois de oito anos sem registro de febre amarela em Minas, um surto da doença volta a assustar a população do estado e a ligar o alerta das autoridades de saúde. Somente nos primeiros nove dias de 2017, 23 casos de febre hemorrágica foram notificados no estado, sendo que 16 tiveram respostas laboratoriais positivas para febre amarela e sete estão em investigação. Do total de notificações, 14 pacientes morreram. Todos os casos ocorreram em área rural, em pessoas do sexo masculino, com idades entre 7 e 53 anos, que tiveram o início dos sintomas em dezembro de 2016. Por causa das notificações, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) já solicitou ao Ministério da Saúde envio de 150 mil doses da vacina que previne contra a febre amarela para reforçar o estoque atual de 300 mil doses. E está convocando a população a atualizar o cartão de vacinas, especialmente nas quatro regiões de Minas onde estão concentrados os casos. Essa área compreende 15 municípios das regiões de Teófilo Otoni (Vale do Mucuri), Coronel Fabriciano (Vale do Aço), Manhumirim (Zona da Mata) e Governador Valadares (Vale do Rio Doce).

Ao detalhar a ocorrência dos casos ontem, o subsecretário de Vigilância e Proteção à Saúde, Rodrigo Said, disse que as notificações “põem o estado em alerta”. “Os 16 casos prováveis configuram um surto, que está em investigação, com 15 municípios no estado com alerta para essa situação”. Ele explicou que, como os casos estão concentrados no meio rural, a possibilidade de transmissão da doença nessas localidades está relacionada com a ocorrência de ciclos silvestres, com presença de primatas não humanos nessas regiões (macacos)”.

Segundo ele, equipes da SES e das secretarias de Saúde das cidades já estão mobilizadas para identificação de sintomas e de possíveis novos casos, bem como para bloqueio do vetor transmissor da febre amarela e vacinação de moradores. Segundo ele, a situação é preocupante porque a febre amarela é uma doença infecciosa febril aguda, que evolui rapidamente e tem alto grau de letalidade. O tipo silvestre da enfermidade é transmitida pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes. O vírus da febre amarela, o Flavivírus, é transmitido pela picada dos mosquitos infectado e não há transmissão direta de pessoa a pessoa. A vacina é a principal ferramenta de prevenção e controle da doença (veja quadro). O tipo urbano da febre amarela é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, também transmissor da dengue, zika e chikungunya. No entanto, essa modalidade da doença não ocorre em Minas desde 1942.

Todos os 23 casos notificados neste ano são do tipo silvestre e tratados pela secretaria como autóctones (quando a doença é contraída dentro do estado). O último silvestre da doença em Minas ocorreu em 2009, no município de Ubá, e evoluiu para a cura.

Apesar de os 16 registros, tratados como prováveis, terem tido confirmação em laboratório para febre amarela, as equipes de saúde ainda realizam investigação epidemiológica com as famílias, para levantar o histórico de vacinação e deslocamentos desses pacientes, entre outros dados para confirmação definitiva dos casos. Os testes estão sendo feitos pela Fundação Ezequiel Dias e ainda não há prazo para divulgação dos resultados, que dependem da investigação epidemiológica, já que entre as causas para febre hemorrágica há outras doenças além da febre amarela: dengue, leptospirose e febre maculosa.


MORTE DE MACACOS
Além dos municípios onde houve notificações de casos suspeitos, as ações de prevenção e controle da doença estão sendo feitas em outros, onde houve registros de epizootias (morte de macacos) em 2016 e 2017, mesmo sem confirmação laboratorial da causa morte. São eles: Entre Folhas e São Sebastião do Maranhão. De acordo com Rodrigo Said, as equipes de saúde estão orientadas a notificar, em até 24 horas, todos os casos humanos suspeitos, bem como novos eventos de epizootias. O trabalho consiste ainda em manter a população em alerta para os riscos da doença e orientar as pessoas quantos às ações de prevenção. De acordo com a diretora de Vigilância Epidemiológica da SES, Janaína Fonseca, em ambas as formas da doença, silvestre ou urbana, a principal forma de prevenção é por meio da vacinação, que deve ser tomada por moradores das regiões de notificação dos casos, bem como por pessoas que estejam com calendário das doses desatualizado e para viajantes não vacinados que se destinem a essas regiões ou outras áreas com risco de transmissão no Brasil, pelo menos 10 dias antes da viagem. A vacina é dada em duas doses e somente após a segunda ocorre a imunização. Outra medida é o uso de repelentes e mosqueteiros nas residências.


O Ministério da Saúde foi comunicado sobre as mortes em Minas Gerais na quinta-feira. Os óbitos suspeitos se juntam a uma morte em Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. No caso paulista, o paciente era morador de uma região também considerada de risco para febre amarela. Ele não estava vacinado. Na região de São Paulo, houve um aumento de morte de primatas, um indicativo de recrudescimento da circulação do vírus da febre amarela.

Cidades citam mais casos


Nas cidades do interior de Minas localizadas no raio de registro dos casos – e que citam números de casos suspeitos maiores do que os divulgados pelo governo do estado –, a notícia do surto de febre amarela já mudou a rotina da população, que corre para se vacinar, e das equipes de saúde. “Até agora, estamos trabalhando sozinhos. Precisamos de ajuda dos governos federal e de Minas. Tínhamos 1,3 mil doses de vacina, que acabaram no domingo. Aguardamos a chegada hoje (ontem) de mais um lote”, disse, ontem, o prefeito de Ladainha, município de 17 mil habitantes, no Vale do Mucuri, Walid Nedir Oliveira.

Distante 34 quilômetros de Teófilo Otoni, cidade-polo do Vale do Mucuri, Ladainha tem 15 casos suspeitos, dos quais nove resultaram em óbito, de acordo com o secretário municipal de Saúde, Fábio Peres dos Santos. Ele acrescentou que seis pacientes ficaram hospitalizados em Teófilo Otoni e quatro no município, onde grandes filas estão se formando diante dos postos de vacinação. As pessoas infectadas são das localidades rurais de Córrego Puaia, Córrego Açude, Córrego São José, Córrego Tamboril, Córrego Três ferros, Córrego São Joaquim, Córrego Icari, São Domingos e outros. Em Malacacheta, também no Vale do Mucuri, houve corrida aos postos e o estoque de vacinas se esgotou, devendo ser reposto hoje.

“Estou trabalhando na Secretaria Municipal de Saúde desde 2006 e nunca soube de casos de febre amarela aqui na região”, lamentou o secretário, informando que, dos nove casos suspeitos, há sete mulheres e dois homens.

CAUSAS 
Na microrrregião de Caratinga, já foram notificados 51 casos de febre amarela, com sete óbitos suspeitos de serem causados pela doença, informou o secretário municipal de Saúde, médico Giovanni Corrêa da Silva. As mortes, incluindo a de uma adolescente praticante de ecoturismo, ocorreram em Imbé de Minas (três), Ubaporanga (duas) e Piedade de Caratinga (duas). Em Caratinga, há 19 casos notificados, embora sem óbito.

“Já foi iniciada a vacinação em 20 postos de saúde. Estamos muito preocupados com os focos de febre amarela urbana, que é causa pelo mosquito Haemagogus, inseto que vive na copa das árvores e ataca os macacos”, disse Giovanni. Na região, foram encontrados quatro desses animais, mortos. Ele acredita que o desmatamento e contato com a natureza possam favorecer o aparecimento do inseto. “Estamos alertando toda a população para a vacinação.”

O medo está presente também em Ipanema, na microrregião de Ponte Nova. Segundo informações da Secretaria Municipal de Saúde, há um caso suspeito e um óbito suspeito de um homem, com mais de 60 anos, morador da zona rural. Segundo um funcionário, é preciso haver a confirmação para, então, tomar as providências. Já em Sacramento, no Alto Paranaíba, não há casos suspeitos, mas as autoridades ficaram intrigadas com o aparecimento de animais mortos. Um funcionário da prefeitura, que não se identificou, disse que não houve pesquisas, tal o avançado estado de decomposição. (Com Agência Estado)

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