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Estado de Minas

Casal prepara e distribui caldos a moradores de rua em Belo Horizonte

Chef belo-horizontino e grupo de amigos ajudam população que vive nas ruas do Centro da capital. Prato quente é receita para amenizar o inverno


postado em 22/06/2016 06:00 / atualizado em 22/06/2016 15:36

Santiago pratica a solidariedade e entrega caldo para Geany na Rua dos Tamoios(foto: Marcos Vieira/EM/D.A PRESS)
Santiago pratica a solidariedade e entrega caldo para Geany na Rua dos Tamoios (foto: Marcos Vieira/EM/D.A PRESS)
O escultor argentino Santiago Calonga, de 36 anos, é bastante conhecido na noite belo-horizontina por comandar um dos bares mais descolados da cidade, mas ele e a companheira, a chef Mileica Costa, a Mika, expandem o alcance do estabelecimento numa noite sem badalação.

Quase sete anos depois de fundar o Arcângelo, no Edifício Arcângelo Malleta, no Centro, o desejo de servir e acolher transforma afeto em alimento para quem enfrenta o frio rigoroso deste inverno nas ruas. O toque de alquimia começa com a doação de legumes, vegetais, aparas de frango, que são cozidos num caldo pelas mãos da chef na cozinha do bar restaurante. O prato preparado com cuidado não terá como destino as mesas sempre lotadas do estabelecimento. É feito para quem não tem teto e, muitas vezes, nem alimento.


Santiago foi o primeiro a resgatar o potencial da sacada do Maletta para movimentar a vida cultural da cidade quando o segundo andar já não tinha o mesmo glamour dos tempos áureos nas décadas de 1970 e 1960. Ao saber da história do prédio emblemático da capital, ponto de resistência à ditadura militar e local de encontro de poetas, escritores e artistas, o escultor investiu no bar batizado com o mesmo nome do edifício. Muitos na época não botavam literalmente fé no Arcângelo, mas, com o nome do anjo da mais alta ordem conforme o latim, o espaço prosperou.

Neste inverno, Santigo se propõe outro desafio nas ruas da cidade. Preparado por Mika, o caldo é acondicionado em vasilhas, que são colocadas num recipiente térmico acoplado à garupa da bicicleta de Mika e Santiago. No dia dos namorados, eles passaram a noite servindo os moradores de rua. A experiência marcou o casal, que quis tornar o contato com a realidade de quem vive na rua algo regular.

Na segunda-feira, a equipe do Estado de Minas acompanhou o casal com os amigos, a designer de ambiente Ayumi Takizawa, de 24, e o músico Nicolas Vassou, de 38, nos locais onde vivem dezenas de pessoas. “Usamos a apara de frango para fazer um caldo saboroso, depois acrescentamos os vegetais e incluímos carnes e grão-de-bico para ficar uma refeição bem proteica”, diz Mika. Com ajuda da bicicleta, o grupo oferece o alimento, mas muitos moradores, ao os verem se aproximar, se antecipam e pedem.

Na primeira vez que saíram às ruas, eles pegaram as doações na gaveta da geladeira de suas casas. Desta, contaram com ajuda de comerciantes do Mercado do Cruzeiro. Do Arcângelo, o grupo seguiu pela Avenida Augusto de Lima em direção à Praça Raul Soares, a primeira parada. Antes mesmo de anunciar, muitos moradores se aproximaram. “É doação, moço? Nó. Nesse frio é bom demais”, diz Leila Lemos da Silva, de 35. Ela conta que antes era preciso ir até o elevado na região da Avenida dos Andradas para conseguir o alimento, que só era distribuído por lá. “Está maravilhoso. Quando não nos oferece, a gente fica com fome. Algumas pessoas passam e nos dão pão, mas o que sustenta é comida.”

A rua se tornou a casa de Leila depois que ela se desentendeu com a família. Foi para a rua, deixando o filho de 18 anos com o pai. “Ele vive com o pai dele, que tem mais condição. Se dependesse da minha mãe, eu não estava aqui”, diz. Em cada canteiro da praça, grupos de cinco e até 10 pessoas dividem cobertores. “Ninguém quer isso não, moça. Não é vida, mas não tenho lugar para ir. Não tenho nada. Tenho saudade dos meus filhos, da minha mãe e da minha ex-esposa”, desabafa Muriel Rodrigues Souto, de 26, que já tentou se reabilitar do vício de droga, mas teve recaídas.

Depois de passar pelo Mercado Central, onde muitos pedem o alimento, o grupo seguiu para a Avenida Amazonas. Em praticamente todos os quarteirões há alguém que tenta afugentar o frio com cobertores como é o caso de Maurílio de Andrade, de 54. A cena de grupos de pessoas dormindo na calçada é corriqueira no Centro da capital. Ao longo do trajeto, Mika e Nicolas conversam sobre políticas para moradores de rua.

“Muitas não querem recuperar o indivíduo, querem limpar as ruas”, critica. Aos poucos, eles tomam contato com pessoas que têm casa e família, mas pela dependência do crack se junta a quem está na rua. Na Rua dos Tamoios, o caldo é servido para Heloísa de Lima Galdino, de 35, Geany Cristina Brito Pena, de 26, e Luciana Piovezan, de 22. Geany veio de Macapá (AP) e Luciana de Uará, no Pará. “Vim por causa da minha ex-mulher. Fiquei 1 ano e 10 meses com ela e depois conheci outra pessoa”. Ela não pensa em voltar para casa, para não dar desgosto aos pais. “Prefiro ficar na rua a dar desgosto ao meu pai”, diz Geany.

Na Praça Sete, o caldo aquece também os artesãos que expõem o trabalho. No quarteirão da Rua Carijós, quem está embaixo das cobertas comemora e agradece a comitiva que chega com o alimento que foi o único da noite. É o caso de Mário Ferreira da Costa, de 63, natural de Araçuaí que veio para a capital em busca de oportunidade, mas sem encontrá-las foi viver embaixo das marquises. “Larguei minha terra em busca de alguma coisa. Minha família acabou. Todos morreram”, diz.

No meio do trajeto, um homem chega, assunta o que está acontecendo e doa nota de R$ 100 para Mika e Santiago. O grupo segue pelas ruas São Paulo e Rio de Janeiro. Foram servidas 50 refeições, mas a ideia é aumentar esse número com o tempo. “Semana que vem pretendemos fazer o dobro”. A ideia foi de Mika, que estudou gastronomia na Faculdade Estácio de Sá, atuou como chef e subchef em restaurantes da capital e depois resolver seguir o caminho como consultora e personal chef.

Confeiteiro Vanderlício Cardoso ao lado do cartaz na
Confeiteiro Vanderlício Cardoso ao lado do cartaz na "árvore da amizade" (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)


CONVITE
O desejo de ajudar o próximo foi o que motivou o confeiteiro da Padaria Pão de Casa Vanderlício Cardoso de Sousa a colocar em prática ideia simples, mas que ajuda quem vive nas ruas do Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul, a se proteger do frio. Ele colocou cartaz numa árvore da Rua dos Aimorés sugerindo que as pessoas deixem as doações. A iniciativa deu tão certo que todos os dias várias peças são deixadas nos galhos, mas antes mesmo de o dia amanhecer já não estão mais lá. “Tem dois meses que todos os dias as pessoas colocam e, quando chego de manhã, já não tem mais nada”, diz Vanderlício, que foi o primeiro a deixar as doações.

COLABORE PARA AQUECER QUEM PRECISA

Onde entregar doações

» Arcângelo
(O estabelecimento recebe alimentos para preparar o caldo)
Edifício Arcângelo Maletta - Rua da Bahia 1.148 – segundo piso

» Árvore da Amizade
Rua dos Aimorés, na altura do 346, Bairro Funcionários

Minas Tênis Clube. Até 30 de junho.
Portarias das Unidade I, II, Náutico e Country

» Padaria Vianney
Está recebendo doações de agasalhos na Rua Aimorés, 155, Bairro Funcionários

» Conselho Regional de Farmácia
Recebe peças de inverno na Rua Urucuia, 48, Bairro Floresta

» Campanha #CalorHumano
Até 25 de junho
Shoppings e universidades da capital


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