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Lama da Barragem do Fundão deixou rastro de destruição no Rio Gualaxo do Norte

A segunda reportagem sobre a devastação de matas ciliares em Minas mostra o tamanho do estrago. No vale que se abre entre as montanhas cobertas pelo verde, a vegetação que ia até a margem do rio agora só aparece 20 metros morro acima

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postado em 06/06/2016 11:00 / atualizado em 06/06/2016 12:18

Mateus Parreiras - Enviado especial

Leandro Couri/EM/DA Press
Mariana – A onda de destruição liberada com o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, em 5 de novembro de 2015, não apenas aniquilou as matas ciliares do Rio Gualaxo do Norte, entre o município e Barra Longa, como também arrastou o dobro dessa área de vegetação, atingindo o restante das florestas de mata atlântica e cerrado. Delimitando em imagens de satélite o espaço que deveria ser de abrangência da mata ciliar e sobrepondo os mapas dos quais já constam a deposição de rejeitos de mineração da empresa Samarco é nítido constatar esse estrago.

De acordo com dados dos satélites da organização não governamental Global Forest Watch (GFW) compilados pela reportagem do Estado de Minas, o estrago nesse corpo d’água abrangeu 835 hectares ao longo do manancial, uma área 96% maior que a soma do espaço ocupado pelo rio e a mata, de 426ha. E justamente num dos rios com melhor cobertura florestal da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, segundo os dados da ONG que mostram que, até 2014, o Gualaxo do Norte tinha 58,7% da área coberta por vegetação. Sem esse escudo natural, a recuperação do rio atingido pelos rejeitos da barragem rompida está comprometida, avaliam especialistas.

Primeiro manancial a ser soterrado pelos 40 milhões de metros cúbicos de lama e minério de ferro que vazaram, segundo cálculos do Ibama, o Rio Gualaxo do Norte pode entrar numa espiral de limpeza e reintrodução de rejeitos justamente devido à falta de florestas em suas margens. “A função da mata ciliar é justamente reter os sedimentos que escoam na direção do rio. Esse material fertiliza a mata e sua retenção impede que o rio seja assoreado”, destaca o biólogo e coordenador do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios da UFMG, Ricardo Motta Pinto Coelho.

“O problema é que o volume de rejeitos que desceu destruiu a vegetação ciliar e o que estava além de lá também. Deixou todo aquele material de mineração para trás, nas margens, sujeito às enxurradas das chuvas que vão levar isso tudo para o rio de novo”, alerta o biólogo. A mata, além de servir de abrigo para pássaros, insetos e mamíferos, provinha bagres e traíras de alimento, de acordo com levantamento da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) sobre a bacia do Gualaxo do Norte. Nos rios do Carmo e Doce, o estrago também foi grande (veja quadro na página 14).

Segundo o Ibama, estão depositados nos cursos e margens dos rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce (até a represa de Candonga) pelo menos 20 milhões de toneladas de minério de ferro e lama. “Essa onda arrasou não só o leito, como as margens onde estavam as matas ciliares. Foi um efeito patrol, como se um trator fosse arrancando tudo, inclusive o solo sob a vegetação. Foram cerca de 10 milhões de toneladas de lama só entre Bento Rodrigues (distrito de Mariana) e a Barragem do Fundão e outros 10 milhões até Candonga”, afirma o superintendente do Ibama em Minas Gerais, Marcelo Belisário Campos.

INTERVENÇÕES URGENTES
De acordo com Campos, essa área precisa de intervenções urgentes, antes que a temporada de chuvas comece, em setembro. “Sem as matas ciliares será preciso ações para remover ou estabilizar o material que foi depositado no lugar da cobertura florestal. Não adianta apenas replantar, é necessário que seja feito também um trabalho de drenagem para que o material não volte ao rio, algo que não vamos tolerar”, disse o superintendente.

Em Mariana, as feridas da avalanche de rejeitos ainda não cicatrizaram na mata. Logo no trecho onde a onda de lama e minério alcançou a calha do Rio Gualaxo do Norte, o local onde deveria estar a mata ciliar se transformou num emaranhado de tocos, raízes, troncos e galhos sem folhas, amontoados como se formassem uma estrada que acompanha o curso barrento do manancial devastado. No vale que se abre entre as montanhas cobertas pelo verde, a mata que ia até a margem do rio agora só aparece 20 metros morro acima. Ainda assim, essa não é uma faixa de mata atlântica saudável, mas uma linha de maricás, cedros e aroeiras de troncos mortos, desfolhadas e com as raízes soterradas. Nas cascas dessas árvores, o nível que atingiu a lama da Samarco imprimiu uma coloração marrom que segue alinhada por todo o vale, acompanhando a vegetação e dando a exata noção de que todo aquele espaço chegou a ficar afundado em rejeitos.

No segundo povoado mais próximo do rio atingido, o distrito de Camargos, também em Mariana, a devastação trouxe prejuízos para quem recebia turistas interessados na exuberância da mata. “Poucas pessoas ainda se hospedam na minha pousada. Primeiro, porque a ponte da Estrada Real ainda está partida. E, para piorar, a paisagem de destruição não tem os pássaros, os animais e as plantas que antes seguiam a beira do rio. Só ficou a lama”, conta o empresário Dario Pereira, de 72 anos.

No restaurante de Silvânia Coelho, de 41, também não chegam mais ciclistas e jipeiros pelos mesmos motivos. A empresária, que agora vive de fazer faxinas na cidade, lembra que várias pesquisas e levantamentos de fauna que estavam sendo feitos no Gualaxo do Norte foram perdidos. “Muitos biólogos faziam estudos na beira do rio, só que os equipamentos deles foram todos enterrados pela lama. Por sorte, nenhum deles estava em campo no momento do rompimento, se não poderiam até ter morrido”.
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Marcos
Marcos - 06 de Junho às 12:45
E até agora alguém foi preso? Esse país é o país da corrupção.