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Rompimento de barragem piorou situação da mata ciliar em todo o Rio Doce

Tragédia de Bento Rodrigues, que completou ontem sete meses, contribui para agravar a devastação da mata ciliar em todo o Rio Doce, de Minas até a foz, no Espírito Santo

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postado em 06/06/2016 11:00 / atualizado em 06/06/2016 08:17

Mateus Parreiras

Leandro Couri/EM/DA Press
Mesmo antes do desastre provocado pela ruptura da Barragem do Fundão, em Mariana, há sete meses, que despejou lama e minério de ferro no Rio Doce, o manancial já era um dos mais poluídos do país (10º lugar, segundo o IBGE) e praticamente desprovido de mata ciliar. Em levantamento publicado na edição de ontem do Estado de Minas sobre a integridade das matas ciliares dos sete maiores rios mineiros que correm também em outros estados, tendo como base os dados da organização não governamental Global Forest Watch, o Doce figura como o segundo mais devastado, perdendo apenas para o Rio São Francisco.

Entre Minas Gerais e o Espírito Santo, a área do Rio Doce que deveria conter o leito do manancial e pelo menos 67% de mata ciliar, como prevê o Código Florestal, está muito aquém desse índice. Em Minas, há apenas 14,9% de floresta, ou seja, 4,5 vezes menos vegetação. Nas margens capixabas do Doce, o índice é levemente melhor, chegando a 21,3% de matas. Só em Minas Gerais, a extensão de mata que falta para completar o mínimo exigido é de 16.651 hectares (ha), maior que o Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, na Zona da Mata, que tem 15 mil ha.

Em área predominante de mata atlântica, a preservação do Rio Doce, de acordo com especialistas, deveria ser uma meta urgente. “Mesmo antes dessa tragédia, o Rio Doce já corria sem longos trechos de matas ciliares e isso é diretamente responsável pelo curso ter perdido profundidade e ganhado bancos de areia. Uma situação que prejudica a fauna, o abastecimento e propicia inundações”, afirma o biólogo e consultor em recursos hídricos Rafael Resck. De acordo com o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH-Doce), as atividades agrícolas foram as principais responsáveis pela devastação das matas ciliares ao longo dos anos.

A organização não governamental SOS Mata Atlântica fez um estudo em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para apurar a extensão da devastação da mata atlântica e constatou que o que ocorre nas margens do Rio Doce se repete em todo estado, uma vez que Minas Gerais é o maior devastador desse bioma. O estudo aponta desmatamento de 18.433ha de remanescentes florestais nos 17 estados que têm áreas de mata atlântica, no período de 2014 a 2015,  aumento de 1% em relação ao período anterior (2013-2014), que registrou 18.267ha.

Leandro Couri/EM/DA Press

DESMATAMENTO  Minas Gerais, que vinha de dois anos de queda nos níveis de desmatamento, voltou a liderar a destruição do bioma no país, com perda de 7.702ha (alta de 37% na destruição da floresta). A vice-liderança fica com a Bahia, com 3.997ha desmatados, 14% a menos do que o período anterior. Já o Piauí, campeão de desmatamento entre 2013 e 2014, ocupa agora o terceiro lugar, após reduzir o desmatamento em 48%, caindo de 5.626ha para 2.926ha.

Os danos da lama de rejeitos de minério de ferro que vazou da mineradora Samarco, em Mariana, sobre a mata atlântica –  incluindo nisso as matas ciliares –, também foram pesquisados pela ONG em parceria com o INPE. Nesse estudo foi constatado que os rejeitos impactaram uma área total de 1.775ha, abrangendo regiões de vegetação nativa ou alteradas por pasto, agricultura e malhas urbanas. A lama removeu um total de 324ha de áreas de mata atlântica, sendo 236ha de florestas nativas e outros 88ha de vegetação natural, de acordo com a organização ambiental.

De acordo com o diretor de projetos e ecoeficiência da Samarco, Maury de Souza Júnior, os sedimentos que vazaram da barragem se acumularam em áreas consideradas críticas principalmente no Rio Gualaxo do Norte. “Identificamos essas áreas em baixadas e planícies e já fizemos plantio de vegetação com leguminosas e gramíneas, que têm crescimento rápido e poder de fixar o material, evitando a erosão e que os rejeitos saiam das margens de volta para o rio”,  informa.

Ao longo do curso dos três rios afetados (Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce), a empresa identificou pelo menos 68 tributários que serão recuperados. “Contratamos uma empresa especializada, que está elaborando um plano de recuperação, fazendo algumas análises do material ao longo do rio para determinar a melhor solução ambiental para o rejeito dos rios e margens. Nem sempre a solução é simplesmente remover o sedimento. Isso pode causar mais impactos”, disse Júnior.

A Justiça Federal ainda analisa ação civil pública do Ministério Público Federal (MPF) que estipula valor de R$ 150 bilhões de indenizações para reparações socioambientais para a Samarco. Entre as liminares, há uma que solicita a remoção dos rejeitos que ficaram nos rios e margens e a apresentação de um plano de recuperação dos ecossistemas, incluindo as matas ciliares.
Arte EM
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