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Passando o Natal em casas alugadas, famílias desejam ter Bento Rodrigues restaurado

Desalojadas do povoado arrasado pela lama festejam o Natal em residências bancadas pela Samarco em Mariana e tentam apagar a dor da tragédia com a alegria da celebração, mas o que a maioria deseja mesmo é ter sua comunidade de volta

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postado em 26/12/2015 07:00 / atualizado em 26/12/2015 16:14

Valquiria Lopes

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press

Um pensamento dividido, que flutuou, foi várias vezes a Bento Rodrigues antes de retornar às celebrações natalinas em Mariana, onde muitos tentavam afastar os ecos da tragédia de 5 de novembro e encontrar motivos para sonhar com um futuro melhor. Essa foi a tônica das festas nos novos lares de grande parte das 355 famílias desalojadas pelo rompimento da Barragem do Fundão. Mesmo vencida a brutalidade da forma como foram arrancados de casa e ainda que uma calmaria comece a se instalar para as cerca de 900 pessoas reassentadas em casas alugadas, o Natal foi um momento de muitas lembranças. Memórias de um tempo bom, de união, das conversas de fim de tarde embaixo de árvores frondosas e de coisas simples, como o cuidar da horta, das galinhas e do gado em uma comunidade que hoje só existe na memória dos sobreviventes. Por isso mesmo, o grande presente com que a maioria sonha talvez seja ganhar Bento Rodrigues de volta.

Era esse o desejo na Rua Jatobá, em Mariana, endereço onde a família da matriarca Efigênia Pereira Gonçalves, de 72 anos, passou a morar depois que o distrito foi devastado pela lama. Lá, a noite natalina foi de festa, mas a ceia teve sabor de lembrança. Para a aposentada, foi a primeira comemoração do Natal fora de casa, depois de 44 anos vividos em Bento Rodrigues. Também foi a primeira vez que seus nove filhos, 14 netos, genros e noras se reuniram para festejar depois da tragédia que marcou para sempre a memória de cada um deles. Mas, para que a noite não fosse só saudade, moda de viola, mesa farta, música, abraços e orações foram elementos de força para passar a data com sorriso no rosto e a alegria típica de um povo guerreiro, que reforçou o pedido de presente a Papai Noel. “Queremos ter nosso Bento de volta, para vivermos unidos, como sempre fomos”, desabafou dona Efigênia.

“Não temos do que reclamar. Estamos vivos. Mas se esta festa hoje fosse no Bento, a gente estaria dançando, brincando uns com os outros, numa alegria imensa”, contou uma das filhas de dona Efigênia, Conceição Aparecida Gonçalves, de 34, que levou uma torta de frutas para ceia. Ela lembra que, por lá, o Natal era assim: “A gente fazia a ceia em casa, todo mundo comia e depois as pessoas saíam visitando os vizinhos, parentes e amigos. Levávamos um doce ou um pedaço do ‘assado’ e também éramos presenteados”, disse. A mãe completa a frase de Conceição: “Aqui, a gente não conhece ninguém”. Ainda bem que a família é grande e todos dormiram na casa dela, para acalmar o coração saudoso da ex-moradora de Bento Rodrigues. “A casa é boa. É grande, arejada. Mas, melhor se fosse minha e se fosse no Bento”, disse.

Ontem, outra tradição foi mantida por famílias que deixaram o povoado e outras localidades de Mariana e Barra Longa afetadas pela enxurrada de lama. Como nem todos têm o costume de fazer a ceia na véspera do dia 25, a manhã foi de preparação em muitas cozinhas das casas alugadas pela mineradora Samarco para abrigar as vítimas da tragédia, antes hospedadas em hotéis de Mariana. Logo cedo, crianças já estreavam brinquedos, muitos deles enviados pela solidariedade alheia, e se divertiam com parentes reunidos para o almoço de Natal. Até para os pequenos, ver parte da família novamente reunida conforta o coração.

A VOLTA DA ALEGRIA


Para a menina Ketelly Natielly dos Santos, de 9 anos, que também precisou sair às pressas de Bento Rodrigues e hoje mora com os pais em um apartamento alugado na Rua Cônego Marcial Muzzi, em Mariana, o Natal trouxe de volta a alegria de brincar. “Ganhamos presentes. Estou feliz de estar junto com meus primos e receber os parentes em casa”, contou ela, que destacou sentir saudades da recreação com os amigos de rua e da escola no povoado que a lama varreu do mapa. “Lá a gente brincava na rua, na praça, ia à casa um do outro. Aqui a gente nem sabe onde eles estão morando”, disse Ketelly, que ganhou uma corda de pular e um brinquedo para fazer pinturas.

Primos dela, Vitório Augusto dos Santos e Fabrício Liquesley dos Santos, ambos de 12, e Júlia Gabriele dos Santos, de 9, também brincaram com os presentes que ganharam. Os meninos receberam das mãos de um Papai Noel voluntário, da cidade de Santa Bárbara, na Região Central, duas bolas de futebol, enquanto Júlia ganhou um kit de maquiagem e uma corda. Mas a felicidade estampada no rosto das crianças também esbarra na tristeza da tragédia. “Se fosse possível, queria que as pessoas que perderam seus parentes pudessem tê-los de volta”, disse Vitório. Na casa das crianças, foi organizado churrasco no lugar das comidas típicas de Natal, e ontem todos esperavam por um delicioso almoço.

Mesa farta, mas com muitas cadeiras vazias

Das 355 famílias desalojadas por causa da tragédia, a Samarco informou ter realojado 351 em casas alugadas ou residências de familiares, o que soma 908 pessoas já transferidas. Para as quatro famílias ainda hospedadas em hotéis de Mariana, que somam oito pessoas, a mineradora organizou uma ceia de Natal no Restaurante Casarão Grill, no Centro da cidade colonial. Porém, o cardápio, que incluía peru, pernil, chester e arroz à grega, além de pudim e outras iguarias, só foi apreciado por três moradores desalojados de suas casas, que levaram dois acompanhantes. A permanência em hotéis é uma opção dos atingidos, que devem ir para casas ainda em janeiro.

Um deles é o pedreiro Tcharle do Carmos Batista, de 23 anos, que na segunda-feira começa a procurar uma moradia para ele, a mulher e o filho, de 8 meses. Apesar de ter perdido todo o material de construção e o trabalho de terraplanagem no terreno onde construiria sua casa, em Paracatu de Baixo, o rapaz está feliz por ter salvado a família e estar vivo para celebrar o Natal. Na ceia natalina, ele também disse que tudo era bem diferente do que estava acostumado, referindo-se à convivência entre amigos e familiares no distrito também afetado pela lama. “Mas nunca tive oportunidade de passar o Natal com uma ceia assim, sendo servido e com essa variedade toda de comidas”, contou. O autônomo José Waldomiro Melo de Oliveira, de 63, que participou do jantar na companhia da irmã, também elogiou a recepção e a hospedagem no hotel. “Estou sendo bem tratado. Não tenho do que reclamar”, disse.
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