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Estudantes de Curitiba enviam cartas às crianças vítimas da tragédia de Mariana

Alunos de Curitiba enviam cartas de apoio às crianças atingidas pelo desastre de Mariana. Mensagens marcadas pela emoção e carinho serão entregues amanhã

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postado em 18/12/2015 06:00 / atualizado em 18/12/2015 16:54

Gustavo Werneck

Sirlei Cavalli/Arquivo pessoal
Mariana – “Para: Alguém que está à procura de esperança”. Este é o destinatário, escrito no maior capricho com letras firmes, da carta enviada por um estudante de 11 anos, de Curitiba (PR), às crianças de Mariana, na Região Central, que sofreram – e ainda sofrem – com o rompimento da Barragem do Fundão, em 5 de novembro. Centenas de quilômetros separam as duas cidades e a distância não impediu que o menino paranaense e colegas de três turmas da Escola Estadual Santa Cândida se debruçassem sobre folhas de papel almaço e demonstrassem, em palavras, muito carinho e afeto pelos moradores das comunidades atingidas pela lama de minério vazado da estrutura arrebentada da mineradora Samarco.


Amanhã, às 9h, no Centro de Convenções de Mariana, as mais de 100 cartas escritas pelos alunos do colégio de Curitiba chegarão às 173 crianças agora matriculadas na Escola Municipal Dom Luciano Mendes de Almeida, em Mariana. Os “remetentes” não poderão comparecer, “mas estão no maior entusiasmo”, conta, por telefone, a professora de língua portuguesa Sirlei Cavalli, responsável pela iniciativa prontamente atendida pelos estudantes dos sétimos anos A, B e C. Manuscritas, as cartas foram encaminhadas à Ouvidoria da Prefeitura de Mariana, em três pacotes, via correio.

“Achamos melhor não colocar os 114 textos dentro de envelopes individuais. Numa época de tanta tecnologia, todas foram manuscritas”, diz Sirlei. Durante as aulas, os estudantes escreveram primeiro no caderno, como um rascunho, e depois passaram para a folha de papel almaço, aplicando os conhecimentos de redação de cartas e documentos. Em seguida, a professora leu uma por uma. “Foram, na verdade, vários tipos de aula para uma mesma atividade. Eles pesquisaram poemas de Carlos Drummond de Andrade, como Lira Itabirana, e outros divulgados na internet, como o de autoria de uma moradora de Mariana.”

PROSA E VERSO Numa sala da prefeitura, a funcionária da Ouvidoria Viviane Aniceto Pires mostra alguns trechos de cartas que estão abertas e trazem as mensagens positivas dos “guris e gurias” curitibanos. Ao lado das letras impecáveis, há desenhos de coração, adesivos divertidos, dobras criativas, fugindo do modelo tradicional de um envelope, e emoção em cada linha. Pensando nos meninos e meninas que perderam familiares e conhecidos, a casa e o lugar onde nasceram, um estudante da Escola Estadual Santa Cândida registrou: “Fiquei muito triste com o acontecido...pelas mortes: sei que é ruim sair do lugar onde vocês vivem há anos e ir para um lugar que não se conhece nada”.

E há mais tantas outras mensagens que, certamente, vão levar alegria e alento aos pequenos moradores de áreas hoje cobertas de lama e que ainda se dividem entre hotéis e casas alugadas. A entrega será feita durante a comemoração do Natal dos Correios, com Papai Noel, decoração típica do período e apoio da prefeitura local. A festa para 300 crianças contará com a presença de um grupo de voluntários de São José dos Campos (SP), que chega amanhã à cidade e participou intensamente da campanha SOS Mariana. A turma generosa, responsável até por um Rock Beneficente para ajudar os desabrigados, vai trazer guloseimas, brinquedos, palhaços e outras diversões para a garotada de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.

Os estudantes Curitiba estão na faixa de 11,12 anos e demonstram sentimentos nobres – e tudo indica que poderá surgir, desse primeiro contato, grandes amizades. Uma menina se mostrou disposta a ajudar nesses tempos de tristeza e ainda incertos quanto o ao futuro. “Quero te ajudar a esquecer a dor que deve ser perder tudo que tem, porque dói, né? Tente não pensar nunca mais naqueles momentos”. Outro, em versos, fez menção à mineradora controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton: “O rio? Sumiu/A Vale? Caiu/Antes fosse/Mas levou o Rio Doce”.

INDIGNAÇÃO A professora Sirlei Cavalli ressalta que, desde o dia da tragédia, ficou indignada com a situação nas comunidades de Mariana e passou a acompanhar depoimentos nas redes sociais, até que leu o relato de um professor. “Cada vez mais, fui ficando impressionada, preocupada, e levei o caso para discussão na sala de aula. Os alunos dessa escola têm acesso a informações, às notícias, e também começaram a questionar, a falar sobre a gravidade do rompimento da barragem e a vida das pessoas atingidas”. A leitura de reportagens e o aprofundamento diário no assunto renderam também um jogral.

Inicialmente, os alunos pensaram em fazer uma campanha para arrecadar donativos e água, mas desistiram, tendo em vista o excesso de material que chegou a Mariana. “Imaginaram, então, algo singelo, com carinho e alento. E, assim, surgiu a ideia das cartas. Com a letra deles no papel, para mostrar a identidade de cada um.” Como a sabedoria popular diz que toda carta merece resposta, resta agora acompanhar a reação das crianças de Mariana e o desenrolar desta história de amizade e esperança.

 

CORAÇÕES ABERTOS

 

Veja algumas frases contidas nas cartas

“Eu queria ajudar você com uma palavra amiga”

“Choro não limpa o rio, nem devolve a vida ao chão (...) Que Deus te abençoe”

“Fiquei muito triste com o acontecido...pelas mortes: sei que é ruim sair do lugar onde vocês vivem há anos e ir para um lugar em que não se conhece nada”

“Quero te ajudar a esquecer a dor que deve ser perder tudo que tem, porque dói, né? Tente não pensar nunca mais naqueles momentos”

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