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Moradores voltam a povoado destruído pela lama de rejeitos da Samarco

Treze famílias retornam à devastada Bento Rodrigues para tentar salvar o que restou do desastre. Atingidos por rompimento de barragem experimentaram da agonia à perplexidade

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postado em 25/11/2015 06:00 / atualizado em 25/11/2015 07:43

Daniel Camargos - Enviado Especial /

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Mariana – Maria do Carmo Damas, de 68 anos, imaginou que aproveitaria o restante dos seus dias em paz. Ontem, na calçada da Rua das Mercês, em frente ao número 60 – onde viveu por mais de 50 anos –, a dona de casa observava os vasos de plantas enfileirados à espera de serem carregados para o baú do caminhão de mudança e não segurava o choro: “Imagina isso? Nessa idade em que eu estou, perder amigos, ter que sair de casa e não saber para onde vou? É demais”.

Doze famílias de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, assim como a de Dona Maria, foram as últimas cadastradas pela Samarco a solicitarem o retorno a suas casas para recuperar móveis, eletrodomésticos e objetos pessoais. Ontem, os móveis e pertences deles foram carregados em 12 caminhões e, segundo funcionários da empresa, não há mais pedidos dos desabrigados. As mudanças estão sendo realizadas paulatinamente desde terça-feira da semana passada.

Os moradores de Bento Rodrigues são vítimas do rompimento da barragem do Fundão, no dia 5 de novembro. A represa é de responsabilidade da mineradora Samarco (controlada pela Vale e pela BHB Billinton). Além das mortes e de devastar Bento Rodrigues, outras comunidades de Mariana e Barra Longa, provocou o caos no abastecimento das cidades às margens do Rio Doce. A lama tóxica atingiu também o Oceano Atlântico.

O marido de dona Maria, Benedito Valadares Damas, de 73 anos, era só pesar ao se despedir de seu pomar. Deixou para trás um pé carregado de jabuticabas maduras, outro de pêssego, vários de laranja, mexerica e muitas bananeiras. “Além dessa horta, eu tinha um terreno lá para baixo, com muita plantação, onde eu passava o meu dia. Ia bem cedinho e voltava só no final do dia”, conta Benedito, apontando para o imenso lamaçal de rejeitos minerais, onde antes ficava sua roça.

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
A chácara de Benedito, de dois hectares, também ajudava o aposentado a conseguir um complemento de renda. Vendia hortaliças, frutas e legumes em Bento Rodrigues e em Mariana. “Aqui era um lugar feliz”, lamenta. Na horta agora há somente um monte de terra revolvida, local que ele mesmo cavou para sepultar suas 10 galinhas. As aves foram abandonadas após o tsunami que tomou o distrito, morrendo de fome.

A esposa de Benedito está aflita, pois ainda não sabe onde irá viver. Desde a tragédia, eles estão morando com uma filha, na cidade de Catas Altas, a 49 quilômetros de Mariana, mas tanto dona Maria como Benedito temem que nunca mais consigam encontrar um lugar semelhante ao que passaram os últimos 50 anos.

Era tanta a tristeza do mecânico Aluísio Alves, de 41 anos, ontem, no dia do adeus a Bento Rodrigues, que preferiu preservar o pai, Antônio Alves, de 69 anos, de acompanhar a mudança dos móveis e dos poucos pertences que restaram na casa invadida parcialmente pela lama. “Consegui recuperar pouca coisa. Isso aqui é uma tristeza só”, afirmou Aluísio, olhando pela janela do lugar – imunda de barro – o carregamento do caminhão de mudança.

Ao lado, havia uma grande varanda, com pneus coloridos pendurados no teto e que estavam enfeitados com samambaias e outras flores, um capricho da mãe de Aluísio, Maria Lúcia da Silva Alves, de 62 anos. “Ela pintou os pneus. Era muito cuidadosa. Nos finais de semana, a família toda se reunia aqui”, recorda. Aluísio é mecânico e trabalhava em uma empresa terceirizada da Samarco no momento do rompimento da barragem. Duas vezes ao mês visitava os pais nos fins de semana. A irmã dele, Paula, foi uma das várias heroínas do distrito, pois foi de motocicleta avisando a todos que pôde sobre o lamaçal que se aproximava.

A casa da família Alves fica na Rua São Bento. Um lado da rua foi completamente destruído pela lama, com os rejeitos chegando até os telhados e derrubando as paredes.

Na residência de Lucélia Santos Serra, o barro ainda domina a sala e destoa do capricho dos moradores, com a pintura da parede em verde e um sofá com uma capa rosa. “Depois da morte da minha mãe, há três meses, foi a pior tragédia da minha vida”, compara Lucélia, que com a irmã, Sônia Aparecida Ferreira, foi à casa do pai tentar recuperar alguns móveis.

ESCOLA Num quarteirão abaixo, numa construção com parte das paredes de pé se destaca um quadro, com pinturas de vasos de flores, que permaneceu pendurado. Do outro lado da rua, a arrasada Escola Municipal de Bento Rodrigues. Algumas lousas ainda estão lá. Numa delas, alguém escreveu com barro: “Aqui tinha uma escola”.
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