SIGA O EM

Conheça as histórias dos pequenos Thiago e Emanuelly, vítimas da tragédia de Mariana

Tsunami de lama que desceu das duas barragens rompidas em Mariana levou também a vida de duas crianças cheias de sonhos que encantavam suas famílias em Bento Rodrigues

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 15/11/2015 06:00 / atualizado em 15/11/2015 18:17

Daniel Camargos - Enviado Especial /



Facebook/Reprodução

Mariana –
Vestido de caipira, com bigode feito a lápis e chapéu de palha, Thiaguinho posa para a fotografia com olhar repleto de ternura. Em outra foto, das várias no álbum do Facebook da mãe dele, o garotinho de 7 anos caminha, orgulhoso, carregando dois embrulhos com presentes recebidos no dia da sua formatura no pré-primário na Escola Municipal Bento Rodrigues, em dezembro do ano passado. Trajando um impecável paletó abotoado, com direito a lenço branco no bolso, Thiaguinho é só orgulho com o diploma, que trazia escrito: “Thiago Damasceno dos Santos provou durante todo o ano ser uma criança talentosa e com várias qualidades. Nosso reconhecimento, nossa admiração e nossa torcida para que continue a construir sua história com dedicação e amor”. Mas o que veio foi tragédia. Na última quarta-feira, o corpo de Thiaguinho foi enterrado no Cemitério de Santana, em Mariana. Um dia antes, Emanuelly Vitória Fernandes, a Manu, de 5 anos, que ensaiava para uma peça infantil, também foi sepultada no mesmo local. Os dois são as vítimas mais indefesas do rompimento das barragens da Samarco, mineradora controlada pelas gigantes do setor Vale e BHB Billinton, no dia 5.

Jair Amaral/EM/DA Press
Um coração imenso

O coração de Thiaguinho era imenso, conta a tia Alessandra Damasceno Santos, de 34 anos: “Na época do inverno, no ano passado, ele pediu à avó que comprasse alguns pares de tênis para seus coleguinhas da escola que não tinham calçados e iam de chinelos para a aula”. Para a tia, Thiaguinho era um menino de luz que iluminava todos que estavam à sua volta. A brincadeira predileta dele era andar de bicicleta pelas ruas de blocos hexagonais – ou bloquetes, como são chamados em Bento Rodrigues. Thiaguinho ia para aula de manhã e estava encantado com a alfabetização. Já escrevia várias frases e também evoluía na leitura. Poucos dias antes da tragédia, escreveu um bilhete para o avô: “Vovô, eu te amo”.

Ele morava havia três anos com os avós paternos em Bento Rodrigues. Os pais se divorciaram quando ele tinha pouco mais de um ano e o menino foi viver com os avós. “Ele era o xodó deles. A avó levava ele no portão da escola e buscava todos os dias. Meus pais eram agarrados demais com o Thiaguinho. Se tinham que vir para Mariana, deixavam para a parte da tarde, pois ele vinha junto após as aulas”, destaca a tia. Além da bicicleta, outra paixão do garoto era brincar na horta da casa dos avós, que era ampla e espaçosa.

Facebook/Reprodução

Pedro Ferreira/EM/DA Press
Cadê nossa baratinha?
“Sinto muita saudade. Queria que ela estivesse aqui com a gente. Era uma menina carinhosa demais”, recorda o avô de Manu, José Assis Sena, de 49 anos. A mãe da criança, Pamela Rayane, de 21 anos, foi desaconselhada a ir até os locais onde estão as doações para os moradores que perderam tudo. “Se ela encontrar uma roupinha bonitinha ou um brinquedo de que a Manu gostava, ela começa a chorar”, conta José. Pamela está grávida de três meses. José torce para que seja menina e que o nascimento devolva a alegria à família, pois a tristeza que se abateu não tem como ser maior. A imagem da dor foi vista na expressão de Pamela durante o velório da filha. Ela se se manteve abraçada ao caixão o tempo todo.

Após o enterro da garotinha - que dias antes da tragédia ensaiava para encenar a peça de teatro O casamento de dona Baratinha, na escola de Bento Rodrigues – Pamela escreveu este trecho em uma mensagem em sua página no Facebook: “Se eu pudesse, voltaria atrás e te beijaria muito mais, filha. Te daria milhões de beijos. Sinto tanta falta do teu cheiro, de acariciar os teus cabelos, mas a prova é que Deus te colheu. Minha esperança é que na eternidade vou te ver. Na eternidade, sem sentir saudades, vamos adorar Deus”. E encerrou a mensagem com três corações. Assim como Thiaginho, Manu também é descrita pelos familiares como uma menina doce e muito cuidadosa com o irmão mais novo. No dia do enterro, a inspetora da escola, Geizibel Aparecida Moreira, de 31 anos, perguntava emocionada: “Cadê nossa Baratinha?”
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação
600
 
José
José - 15 de Novembro às 19:25
Que cada gota do sangue dos inocentes pese toneladas sobre os ombros, não dos maus que agiram, mas dos bons que se calaram. Somos bons?
 
Felipe
Felipe - 15 de Novembro às 09:49
De emocionar muito, não me contive. É impressionante como a irresponsabilidade e trabalho mal feito de uma empresa, que só visa o lucro e mercado geram tanta tristeza. Nenhuma idenização, multa ou embargo vai reparar os dados causados às famíias do Thiaguinho, da Manu, e de várias outras vítimas que não só perderam parentes como perderam seu lar, uma parte de sua identidade. Se ainda considerarmos a tragédia ambiental decorrente, vemos imagens terríveis de desolação e um Rio Doce devastado, aí temos então talvez um dos maiores desastres do Brasil nos últimos anos.