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Pai e filho dados como desaparecidos em Bento Rodrigues comemoram duas vezes

Eles tiveram os nomes incluídos na lista de procurados pelos órgãos da força pública empenhados no socorro. E somente ontem, por volta das 12h, funcionários da Defesa Civil localizaram a dupla no Hotel Faísca, no Centro da cidade

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postado em 10/11/2015 06:00 / atualizado em 10/11/2015 11:24

Valquiria Lopes - Enviada especial

Jair Amaral/EM/DA Press

Mariana –
Depois da agonia de fugir do mar de lama para salvar a própria vida, pai e filho, moradores do povoado de
Bento Rodrigues, distrito de Mariana, comemoraram por duas vezes a vitória de estarem vivos. Joaquim Zifirino Arcanjo, de 72 anos, e Arnaldo Mariano Arcanjo, de 30, fugiram às pressas do distrito devastado pelo rompimento da Barragem do Fundão, da empresa Samarco, e, mesmo hospedados em um dos hotéis reservados para os sobreviventes da tragédia, foram dados como desaparecidos por quase 24 horas. Eles tiveram os nomes incluídos na lista de procurados pelos órgãos da força pública empenhados no socorro. E somente ontem, por volta das 12h, funcionários da Defesa Civil localizaram a dupla no Hotel Faísca, no Centro da cidade.

A história que àquele momento aumentava o número de desaparecidos para 28 – entre moradores e funcionários – não passou de um mal-entendido, como explica Arnaldo, operário desempregado. “Na hora em que a barragem estourou, meu irmão, André, pescava na área por onde a lama passou. Como eu não sabia onde ele estava, dei o nome dele como desaparecido. Confundiram e incluíram o meu nome, e não o dele. E colocaram também o do meu pai”, contou. Ao lado do filho, o lavrador Joaquim comenta o ocorrido. “Se estávamos dados como sumidos, então nascemos duas vezes porque conseguir sair vivo de Bento foi um milagre”. O idoso, que mora há 62 anos no povoado, lamenta a saída tão traumática. “Foi um desastre. Deixamos tudo para trás. Tudo conquistado em uma vida toda. Morava lá com sete dos meus nove filhos. Eram seis casas. Ficou tudo destruído”, lamenta.

Mas é ao falar dos herdeiros que Joaquim se emociona e as mãos correm aos olhos para conter as lágrimas. No terreiro de sua propriedade, o lavrador tinha plantações, cavalos, tirava leite de duas dezenas de vacas e criava mais de 100 galinhas. Restrito ao quarto, corredor e sala do hotel, o sobrevivente diz que a vida ali não tem graça.

Sobre o momento do acidente, os dois também se emocionam ao lembrar. “Foi uma correria danada. Era todo mundo correndo pra se salvar. Eu consegui salvar sete pessoas, inclusive uma criança que ia ser levada pela lama dentro de um carro que já descia pela correnteza”, contou. O pai disse ter conseguido sair de carro, com a mulher, um dos filhos e um conhecido.

Por pouco, o aposentando não perdeu dois filhos. Além de André, que estava pescando e teve de correr com a lama lhe tomando os pés enquanto subia o morro, Antônio José Arcanjo, de 40, foi levado pela enxurrada em seu carro, que boiou na lama por cerca de três quilômetros. “Voltei em casa para pegar meus documentos e quase perdi a vida. O carro foi arrastado pela água barrenta. Subi no teto enquanto o carro descia desgovernado. Depois, pulei numa geladeira e, em seguida, numa janela, até alcançar um galho e me salvar. Escapei por um milagre”, conta.

Pai e filhos dividem hoje quartos do hotel no Centro da cidade e dizem estar ansiosos sobre o que pode estar por vir. “Não quero voltar pra Bento, mas quero ter minha terra de volta, criar meus animais e viver solto”, comenta o lavrador, que espera uma solução rápida.
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